As “percas” nossas de cada dia

Hoje pela manhã, com sono descomunal e leve ressaca – decorrentes da festinha da amiga Beta, ontem, em um restaurante mexicano -, enquanto escovava os dentes para ir ao trabalho e fazia carinho com o pé esquerdo no meu gato surdo/autista para que parasse de miar freneticamente, confirmei uma antiga constatação: damos mais valor às coisas quando as perdemos.

Perder aqui entendido em seu sentido lato, no mais amplo do termo e suas possíveis variações, como estar próximo de perder, correr o risco de perder ou, até mesmo, imaginar (ainda que a partir de falsas premissas) que pode vir a perder.

Isso pode ser observado em vários ramos e momentos de nossas vidas e aplica-se, com absoluta certeza (eis que se iniciam, neste blog, as estatísticas aleatórias e totalmente arbitrárias da Michele), a 100% da população mundial – ouso dizer que até mesmo dentre os animais, já que, utilizando-me do empirismo (utilizarei meu gato como exemplo) constatei que os bichanos também assim agem.

Nietzsche é um gato albino (sim, ele não é branco) e, como comumente ocorre com os gatos persas albinos, surdo. No caso, desde o nascimento – ao que tudo indica, já que comigo desde seus 3 meses de vida. Não sei se em decorrência de sua surdez, ou em decorrência das companhias (oi?), ou de algum trauma sofrido antes de o trazer para minha casa (juro que nunca fiz nada que pudesse traumatizá-lo dessa forma), mas o fato é que ele também é autista. Socializar realmente não é com ele.

Tudo bem, você vai me dizer que isso é comum em gatos e que todos são independentes e livres. Além de discordar dessa afirmação – gatos são muito sociáveis, sim senhor -, tenho que esclarecer que o Nietzsche é diferente: são horas e mais horas de castigo, parado no canto da sala, olhando para a parede e admirando nada (?); é a total incapacidade de olhar nos olhos das pessoas (vocês já viram gato que não te encara, ainda mais de cima, como superior?); a vontade ensandecida de ganhar um carinho, mas não conseguir ficar mais de 30 segundos no colo da pessoa.

Isso tudo se aplicava até mês passado, antes de suas duas fugas homéricas.

Desde que mudei de apartamento, ele vem se sentindo mais livre para explorar novos lugares e conhecer, por exemplo, as sacadas dos apartamentos vizinhos. Mas em uma dessas aventuras – na segunda vez já foi por conta própria – caiu e, com o susto, escapou para o mato existente atrás do prédio. Por sorte voltou, horas depois, e ficou miando, enlouquecidamente, na entrada do edifício, implorando pelo resgate (já que não saber usar a rua, mas tão só sua caixinha de areia).

Desde então seu comportamento mudou drasticamente. Não posso dizer que deixou de ser autista – e isso lá tem cura? (digo nos gatos) -, mas passou a valorizar mais as companhias humanas, a caixinha de areia (claro), a ração, o cantinho do sofá em que adora largar seus longos pêlos brancos e, principalmente, o carinho da mamãe aqui. Toda manhã, desde então, corre ao meu encontro no banheiro e mia enlouquecidamente – quem tem persa deve achar isso muito estranho, já que são gatos que raramente miam e, quando o fazem, em volume extremamente reduzido -, como se não tivesse amanhã (já diria uma amiga minha), exigindo longos carinhos.

Não satisfeito ou quando não é prontamente atendido, estende seu corpinho no chão na tentativa de evitar minha passagem – geralmente na porta do banheiro, atravessando de lado a lado do batente – e inicia sua pequena série de ronronares melosos e absolutamente encantadores. Por isso aquela cena minha, lá de cima, escovando os dentes e acariciando-o com o pé enquanto enxaguo a boca.

Estou aqui a usar o exemplo do meu gato, mas se trata de atitude com que convivo diariamente, que visualizo comumente entre meus amigos, conhecidos e, por que não reconhecer, em mim mesma.

Temos a péssima mania – acentuada nos últimos anos pelo pensamento da sociedade tecnológica e informatizada, com o preço do tempo custando caro e tudo parecendo tarefa para ontem – de subjulgar a importância das coisas e pessoas que nos cercam, precisando, no mais das vezes, de um chacoalhão desses da perda para abrir os olhos do que estamos deixando de lado.

Pode ser com aquele amigo que você negligenciou a ponto de, hoje, ser ele quem não mais te procura; pode ser com aqueles últimos momentos desesperadores, de quem está arriscando tudo com alguém que vai embora para longe – desde pedidos de casamentos inusitados, até recados e presentes antes não usados como artifícios -; pode ser após uma troca de olhares do namorado com aquela moça (nem tão bonita assim) que passou na boate dando a maior bola para ele; pode ser aquele ciúmes velado da garota que você ignora e que, cansada de ser menosprezada, passa a dar mais atenção àqueles que realmente a prestimam; pode ser aquela roupa ou aquele sapato que não usávamos há séculos e a mãe resolveu colocar na sacola de coisas para doação

Tantas são as coisas que passamos (ou voltamos) a dar o valor que merecem tão somente quando a perdemos – ou estamos próximos a isso ou com medo disso – que eu poderia citar, no mínimo, uns três exemplos para cada uma das pessoas que conheço, incluindo-me, por certo, nessa estatística.

Quantas vezes precisamos repetir isso para aprendermos que não precisa, nem deve, ser assim? (Aprendemos nesse jogo de erros e acertos, não é?). Quantas coisas vamos inexoravelmente perder e quais pessoas vamos magoar até que percebamos o que nos é realmente importante?

Esse post está contornando feições de livro de auto ajuda, comigo encerrando-o com frases de efeito como valorize as pequenas coisas e ame como se não houvese amanhã, mas longe de mim isso (auto ajuda não pertence a este ser).

Meu intuito é pura e simplesmente compartilhar com vocês uma constatação notória, de conhecimento público,  e dizer que não sei quando vou parar de me arrepender das contínuas vezes que desleixo o que me é mais valioso – muitas vezes percebendo a,  antes nem percebida como uma possibilidade, perda tarde demais -, mas, felizmente, já aprendi a aproveitar a carência do meu gato, pós fugas, bem como a evitar que os olhares lânguidos, direcionados ao namorado, chamem-lhe mais atenção que os meus singelos olhos azuis.

PS1: qualquer semelhança entre os exemplos dados aqui e meus amigos que venham ler este post é pura e simples coincidência… (senta lá, Claudia)

PS2: a contrario sensu, há aqueles que, ao descobirem a possibilidade da perda ou a efetivação dela passam a dar ao objeto (lato sensu, podendo ser aplicado a pessoas também) valor superior ao que possui, como se perdessem uma parte de si mesmos. Como diria Caetano, esse é o avesso do avesso do avesso do avesso e sobre ele dedicarei um post exclusivo.

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5 responses to this post.

  1. Já me arrependi várias vezes de ter deixado para trás algo que me era valioso, por simples descuido…
    Hoje em dia eu TENTO ficar mais próxima e dar mais valor ao que considero importante pra mim, mas essa vida corrida nem sempre anda no mesmo ritmo que nós…

    Beijos, Bee

    P.S: Estou adorando teu blog, vai fuuundo! :***

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  2. O tempo corre, as prioridades mudam e não raras vezes nós temos a grande tendência de dar menos que o valor merecido ao já conquistado, como se durasse para sempre. E, ao nos percebermos subjulgando, e, então, perdendo os que nos estimam ou aquilo do que gostamos corremos atrás. Por que será né?
    Adorei.
    Beijos

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  3. […] que o post de hoje continua nas amenidades e é quase uma continuidade daquele da semana passada: As “percas” nossas de cada dia, seguindo a idéia lançada no PS2 daquele texto: sobre a capacidade das pessoas de se subjulgarem […]

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  4. […] como adoradora. Do cereal, não da cerveja. Vira-lata ou SRD. Não parece com os persas. Conhecia bem estes. É lisa. Rápida. Hiperativa. Destruidora. Comilona. Mordedora. Chorona. Enfrenta cães […]

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  5. […] Esteve com o pai durante uma semana, facilitando meu trabalho com o encaixota e desencaixota, sendo que voltou para a minha guarda quando já no apartamento novo. Dessa vez, ao menos, poupo-me dos gritos enlouquecidos – na mudança para o apartamento anterior, gritou três dias consecutivos, como se alguém o estivesse maltratando, até acostumar com o novo ambiente – e, com a tela devidamente instalada na sacada, ainda não me presentou com suas fugas. […]

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