O que faz você feliz?

Estou há dias matutando sobre diversos assuntos que gostaria de abordar aqui no blog, como o dilema pelo qual está passando o Rio de Janeiro com a violência da hora – em todos os sentidos possíveis, desde as atitudes dos traficantes, da polícia e/ou das pessoas que discorrem sobre o tema -, mas não será hoje ainda que os abordarei.

Sei que dentre os intuitos do blog estipulei a possibilidade de discutir mais a fundo questões intrigantes como essa, já que os 140 caracteres do twitter são por demais limitadores. Aliás, não tenho discutido via twitter desde então. Olho para as obcenidades – para mim ignorância, preconceito e intolerância é que são obscenos – e penso: “Ah! Nem vou responder. Outra hora falo sobre no blog”. Já não sei se isso é algo bom ou ruim.

O certo é que o post de hoje continua nas amenidades e é quase uma continuidade daquele da semana passada: As “percas” nossas de cada dia, seguindo a idéia lançada no PS2 daquele texto: sobre a capacidade das pessoas de se subjulgarem e, ao mesmo tempo, supervalorizarem algo – principalmente pessoas e relacionamentos – quando estão diante da possibilidade (ou suposição de) perdê-lo.

O assunto estava cotado para momento posterior e longinquo. Contudo, hoje descobri o blog de uma pessoa que conheci via twitter e o assunto não saiu mais de minha cabeça.

Desculpem-me por não colocar o link do blog aqui ou citar quem seja seu autor, mas prefiro não expô-lo – muito embora eu saiba que ele próprio está se expondo sobremaneira ao criar um blog sobre sua necessidade imperiosa de encontrar alguém para amar (e que o ame em retribuição)  e o daí decorrente casamento dos sonhos.

Que fique bem claro: não sou contra o casamento – muito menos contra o amor e a busca por. O que me assusta é o desespero latente por encontrar, a qualquer custo, a alma gêmea, a metade da laranja, o amor verdadeiro, bem como a capacidade, diante do fracasso naquele, em enaltecer (e até mesmo criar) qualidades no ser que pouco as possuem (quando as possuem), capazes de torná-lo a pessoa da nossa vida, muito embora distante (e muito) de sê-lo.

O blog da citada pessoa presta-se a potencializar sua campanha #pracasar (hashtag que criou e/ou difundiu no twitter), citada ao final dos twettes em que suas características são compartilhadas com seus seguidores, assim como nos xavecos direcionadas a algumas das mais de 2000 pessoas que segue.

Tamanha é a ansiedade por encontrar a pessoa certa, casar e constituir família, que nem mesmos suas características – aparentemente perfeitas e desejáveis em um bom partido – foram suficientes, até o momento, para resultar em um relacionamento. Segundo sua própria definição, é pessoa culto e instruída, com estabilidade e sucesso na profissão, casa própria em breve adquirida, apreciadora de vinhos, amante de boas viagens, romântica, surpreendente, companheira etc. O que mais poderiam lhe exigir? Ocorre que, quando expõe seus sentimentos e ressalta suas melhores características, é recebida com unfollows e blocks no twitter.

Em suas palavras: Não é que pensei ter encontrado a mulher da minha vida e logo quis enviar flores e chocolates? Mandei. As flores chegaram. Foram entregues na faculdade. Ela, surpresa, postou [no twitter]. Dias depois, levei um silencioso “Unfollow”. Para outra, que se disse terminantemente apaixonada por mim, do nada levei um “Block”. Não posso nem xeretar a Timeline da guria agora. Esses são os ônus de quem é muito impulsivo. Mas, na verdade, no primeiro caso, eu somente queria transformar um monte de palavras ditas aos quatro ventos em uma ação concreta. No segundo case, apenas queria marcar um encontro. […]. Cada dia me dou conta que está mais difícil desvendar a alma feminina. Você ama e é terminantemente bloqueado. Você quer dar para ela toda felicidade do mundo e leva um “Unfollow”. Incompreensível para quem quer apenas amar. […]. Eu só quero amar. Agora vocês compreendem a razão de eu seguir duas mil pessoas no Twitter. Afinal, nada mais natural do que utilizar a ferramenta da convergência para fazer o sentimento mais antigo da humanidade fluir.

O rapaz – se você acreditava que se tratava de uma mulher antes de ler o trecho de seu post, perceba o machismo contido em seu pensamento – sequer está namorando ou em vias de, mas já possui dois posts nesse mesmo blog dedicados aos valores (custos) despendidos com um casamento. Então me pergunto: qual o problema com ele? Há realmente um problema? O que o impede de ser feliz? Por que ainda não encontrou ninguém para compartilhar tantos sentimentos guardados? E, o mais importante, por que não consegue ser feliz sozinho?

Não tenho condições de dar essas respostas – até porque, se as tivesse, estaria rica, vendendo soluções aos corações angustiados -, mas alguns indícios apontam para causas como baixa autoestima e, consequente, enaltecimento de características no outro a ponto de torná-lo aquilo que se busca e não compreender o que são. Ouso, igualmente, discordar da música que afirma ser impossível ser feliz sozinho.

Em diversas oportunidades no blog ele acentua que uma ou outra pretendente se mostrou absolutamente apaixonada – estado de espírito de pouquíssimos dias,  frise-se, como ele mesmo reconhece. Nesse pequeno ínterim, contudo, fez uso de todas as suas habilidades e demonstrou todos os seus dotes de bom partido. Mas o que deveria atraí-las parece ter tido justamente o efeito inverso.

Perceba que, a priori, o outro é o apaixonado e o interessado por ele. Logo em seguida, essa situação toda se inverte, passando ele a correr atrás da pessoa e investir todas suas cartadas para garantir a conquista. Mas será que tudo isso seria necessário se a pessoa realmente já estivesse apaixonada? De outro lado, o que torna a pessoa interessante, além do fato de estar apaixonada por ele, a ponto de jogar todas suas táticas (e expectativas) sobre ela, como se o par perfeito fosse?

Tenho para mim que a pessoa que não se ama, que não aprecia sua própria companhia e que não consegue viver sozinha – não digo para todo o sempre, mas por um período, como método imprescindível de autoconhecimento – não será capaz de manter um relacionamento, quiçá fazer parte de um.

Relacionamentos requerem duas (ou mais) pessoas e, quando sua autoestima é subjulgada a ponto de pouco de sua própria personalidade transparecer – quando não aniquilada por completo -, tem-se, então, um dominante e um dominado, com as caraterísticas do primeiro sempre sobressaindo sobre as do segundo. É como aquele história dos cachorros se parecerem com seus donos – bem retratada no filme Comer, Rezar, Amar -, a ponto de não mais se identificar quais peculiaridades lhe são intrínsecas. E quando dois parecem se tornar um só, deixa de haver relacionamento – atitudes recíprocas – e passa a existir qualquer coisa monolateral.

A baixa autoestima cria um clico vicioso em que a pessoa se refugia nas características, na personalidade, do outro e sufoca suas próprias a ponto de, um dia, não mais se reconhecer como outro, como indivíduo. Gera, ao mesmo tempo, a necessidade imperiosa da presença do dominante, ante o risco de se perder as qualidades e características que garantem sua existência, embora, muitas vezes, nada tenhamde suas, posto que emprestadas – quando não impostas por um dominante – do outro.

Por fim, a baixa autoestima enaltece o outro à categoria de imprescindível e, como forma de se convencer disso, a pessoa aumenta – quando não cria – qualidades ímpares para aquele objeto de desejo, tentando convencer o próprio cérebro de que aquilo tudo é o que lhe faz tão bem, que permite que seja feliz. Mas como pode ser isso que o faz feliz, se é, justamente, aquilo que te oprime, aniquila sua personalidade e destrói o pouco de autoestima que ainda lhe resta?

Quando o término do relacionamento é inevitável – ou o desejo incontrolável de que um se inicie, como ocorre com o rapaz do blog – a junção desses fatores todos com a impossibilidade de encarar a si próprio como realmente é – de (re)conhecer o que o torna um indivíduo, o que forma sua personalidade e não um arremedo disso ou um parasita da personalidade alheia – acabam por criar uma falsa imagem do outro.

O medo da solidão, de nunca encontrar a pessoa certa, são potencializados, diariamente, pelas mais variadas mídias, destacando que você somente pode ser feliz quando ao lado de alguém – que não é qualquer pessoa, mas a metade da laranja -, devendo a busca por tal ser sua meta de vida. Mas como encontrar esse relacionamento perfeito e imprescindível para a própria existência se não aprendida a lição do conviver consigo mesmo?

Como ter um relacionamento antes de se (re)descobrir e de realmente saber o que forma sua personalidade e o que faz você feliz?

PS: a pessoa contida na terceira foto deste post nada tem a ver com seu conteúdo. Trata-se de uma grande amiga, totalmente resolvida nas mais variadas áreas de sua vida, que me permitiu fotografá-la em um ensaio intitulado [des]construindo.
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3 responses to this post.

  1. Posted by walterstodieck on 1 de dezembro de 2010 at 12:52

    Tia, como já disse via twitter, adorei esta atualização de hoje, ela me fez ficar pensando em algumas coisas que tentarei colocar aqui 😉

    1) Vamos começar então pelo começo, com uma resposta para a pergunta do título, o que me faz feliz: Acredito que sou uma pessoa que é feliz com as pequenas coisas da vida (mas será que elas são tão pequenas assim?). Para mim nada mais importante que as amizades, nada melhor que chegar no final do dia e se encontrar com amigos (seja em casa, num bar ou na casa de algum deles) para beber uma cerveja (ou até mesmo uma coca-cola) e ficar papeando. O que me faz feliz não é este momento em particular, mas sim o prazer de estar com os amigos, isso é o que me importa 😀

    2) O conteúdo propriamente dito da atualização: Como não tivemos acesso ao blog do dito cujo (que eu já tinha notado que era um homem antes de vc controlpastear o trecho do blog dele), vou tecer meus comentários em cima do que eu li aqui, hehehe: Vamos ser sinceros, uma pessoa que segue DUAS MIL pessoas no twitter e ao mesmo tempo diz que faz isso para deixar o “sentimento mais antigo da humanidade fluir” só pode ter algo de errado. Isso não é vontade de se apaixonar, é desespero e no desespero, comete atitudes que assustam e afugentam as pessoas.

    Veja só, no começo do trecho que vc colou, ele diz que pensou ter encontrado a mulher da vida dele e logo em seguida o que ele faz? Manda flores e chocolates para ela na universidade, para todos verem. O cara joga muito alto com as cartas que tem, ele tem de aprender a ir com calma, isso que ele fez é uma coisa que só poderia ser feito se já fosse um relacionamento de longo tempo, o que pelo o que vi, não era.

    Outra coisa, ao dizer sobre as 2.000 pessoas e o pq de seguir, ele deixa entender que na verdade é alguém que atira para todos os lados e a primeira que cair no papo é dele. Em nossas conversas rodeadas com aquelas cervejas boas (olha só o que me faz feliz), vc sempre me diz que uma mulher adora quando alguém a elogia, que a trata de maneira especial e tudo o mais, isso massageia o ego da mulher, a faz se sentir ÚNICA. Mas como uma mulher vai se sentir única se ela vê que o cara faz isso com todas?

    Neste caso aquela máxima de “quem come quieto come dobrado” se encaixa perfeitamente, se o cara quer alguém, ele tem que se focar somente em uma pessoa por vez, mostrar que esta pessoa é única para ele, tem de saber também a hora de agir, sem impulsividade, ir aos poucos, com gestos pequenos e simples, nada grandioso como se fosse um filme, isso assusta, FATO.

    3) A Necessidade que as pessoas tem em querer casar: Assim como você, não sou contra o casamento, mas sou contra a necessidade que as pessoas tem de querer casar a qualquer custo. Isso já foi tema de discussão inclusive com uma ex-namorada, que ficou sem falar comigo por um longo tempo só porque eu disse que não quero casar (e cada dia que passa tenho mais certeza disso, mas este é outro assunto).

    Eu não consigo entender esta necessidade, a pessoa mal conhece alguém e já quer CASAR?! Pra que isso? É medo de ficar sozinho? Se for isso, novamente eu friso a importância das amizades neste caso. Casamento não tem que ser visto como causa, mas sim como consequência. Uma pessoa não deve namorar (ou procurar por um namoro) para casar, ela tem que namorar porque é bom, e com o tempo, depois de ambos se conhecerem bem (e isso dura muito tempo) se perceberem que é isso que realmente querem, então casar e constituir uma família.

    Acho que já estou viajando demais, acabei de perder minha linha de raciocínio (vai ver é a fome) e então vou ficando por aqui, hehehehe.

    Beijos e continue escrevendo.

    P.S.: Desculpe o tamanho do comentário 😀

    Responder

    • Desculpar o tamanho do comentário? Eu adorei.
      Tenho invejo da “Lola Escreva”, cujo blog os comentários são ‘ricos’ que o próprio texto.
      O bom é poder fazer as pessoas discutirem e darem seus ‘pitacos’, enriquecendo o assunto.
      Concordo inteiramente com o que você disse e sei que os problemas do ‘mocinho’ em referência são muito maiores que baixa autoestima.
      Mas quis focar nesse ponto pois considero o mais importante e difícil de ser trabalhado.
      Lembro do filme Hitch – Conselheiro Amoroso, em que ele ensinava os homens a conquistarem as mulheres… Demorou um filme inteiro para ele compreender que os caras só precisavam ser eles mesmos e tudo se ajeitava.
      Claro que algumas coisas devem ser comedidas, mas acredito que melhorando a autoestima tudo fica mais fácil, pois até esse “desespero” que o rapaz demonstrou em encontrar a mulher para casar seria controlado automaticamente.
      Junte-se a isso a mania que muitos têm de enaltecer características (ou criar) nos outros e temos um quadro de “perda da dignidade” que bem conhecemos.

      Mais uma vez, obrigada por tantos elogios e fico feliz em saber que estou agradando, embora sempre ache que os textos não estão bons, rs.

      Responder

  2. Posted by Beta on 1 de dezembro de 2010 at 21:38

    Estou acompanhando aqui de longe o seu blog, amigolhes! Estou adorando!
    E, digo, alguém que não conhece a si próprio não é inteiro em nenhum relacionamento, seja qual for. E a coisa mais fantástica da vida é esta apaixonado por si próprio! Eu que o diga! rsrs
    beijos

    Responder

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