“Sou homem com H. E como sou!”

Foto de Michael Bernardini

Outro dia tive uma discussão (debate, contenda de ideias) no twitter com um amigo sobre privilégios, questão bem abordada pela Lola, em seu blog Escreva Lola Escreva, em uma série de posts que se iniciam com este. Como já expliquei no primeiro post deste blog, o twitter e seus ínfimos 140 caracteres não são minimamente suficientes para manter uma boa discussão, tanto que, na época, muitas das coisas argumentadas não foram bem compreendidas.

Desde então venho pensando em falar sobre o assunto, mas estava protelando-o para momento oportuno ulterior. Mas eis que, como vem acontecendo com todos os temas abordados neste blog, o assunto caiu no meu colo e me fez pensar: está chegada a hora!

É que diversas são as vezes que sinto – as vezes na própria pele – o peso de se ser mulher, de ser catalogada como alguém cujo intelecto, ainda que similar – senão superior – ao dos homens, é facilmente desconsiderado quando uma tarefa considerada de menor relevância (em que a potencialidade da pessoa é desnecessária) é distribuída.

Falo isso com a certeza de que a escolha de uma mulher para o desempenho de tarefas assim catalogadas se deve, principalmente – senão exclusivamente -, a pensamentos machistas, retrógrados e limitados de que tal trabalho é de mulher, já que não seria admissível destinar um homem – e toda sua potencialiadade produtiva intelectual – a ofício de tão singela natureza. Ademais, as pessoas que precederam a, agora eleita, mulher para tal tarefa eram também todas do sexo feminino, muito embora o número de homens disponíveis para o ofício fosse o mesmo ou até maior.

Aliado a isso há a (falsa) premissa de que as mulheres são mais dóceis, delicadas, subservientes por natureza, o que denotaria uma maior habilidade para exercer atividades que requerem mais cuidado e preocupação com os detalhes, além, claro, do evidente fato de que estariam menos suscetíveis a questionar a realização de ofícios extra atribuições (sim, pois é comum a destinação  às mulheres de tarefas não inclusas nos limites estabelecidos ao cargo ocupado).

Em um dos estágios que tive, durante a faculdade, muito embora fosse a responsável pela elaboração – integral – do trabalho de meu chefe (cargo de extrema responsabilidade, diga-se de passagem), esse não exitava em designar-me tarefas extras, como comprar seus produtos de higiene pessoal na farmácia mais próxima.

Brasileiro costuma negar seus preconceitos, afirmando, por exemplo, que não é racista – apenas verificou que os negros são menos confiáveis -, que não é machista – tão somente sabe diferenciar o que seja lugar de homem de lugar de mulher -, que não tem nada contra os pobres – só acredita que se trata de um bando de vagabundos, mamando nas tetas do Governo e suas bolsas esmolas -, que não menospreza os gordinhos – apenas não entende como podem ser tão desleixados e ficar desse jeito -, que não é homofóbico – só quer ter o direito de poder ser contra a união homoafetiva ou as manifestações de carinho em público -, que nada tem contra os nordestinos, até aprecia, e muito, suas praias – mas são um bando de vagabundos que só sabem fazer festa o ano inteiro e vivem às custas da região sudeste do país -, que respeitam os idosos – mas acredita que muitos deveriam estar em asilos, já que nada tem a oferecer aos mais jovens além de incomodações e reclamações infinitas.

Óbvio que não há problema algum com você. O problema está em mim, que estou sendo preconceituosa e rasa ao assim rotulá-lo, já que seu intuito é, tão somente, fazer uso de sua liberdade de expressão e proferir julgamentos que correspondem a mais absoluta verdade. Afinal, vai dizer que não é um absurdo a empregada doméstica, daquele seu vizinho, comunista que come criancinha e quer destruir nosso país, usar o elevador social e não o de serviço?

Você também pode me olhar e perguntar: quem é você para dizer saber pelo que passam todas essas pessoas, alvos dos mais variados preconceitos? Respondo: sou mulher e venho lidando com o machismo, em casa ou na rua, desde que me conheço por gente – embora há não muito tempo tenha percebido o sexismo contido em muitas atitudes que considerava normais -, tendo exemplos de menosprezo e subjulgamento dos mais variados para enumerar. Acrescento o argumento com uma pergunta: somente o conhecimento empírico é válido? Se assim for, posso acrescer o fato de ser feminista e ideologicamente de esquerda, dois outros fatores também utilizados de forma pejorativa quando sou negativamente qualificada.

Por outro lado, também tenho plena noção de meus privilégios – enquanto você os nega e diz, horrorizado, que nada têm de privilégios, são é conquistas e bom caráter, típicos dos cidadãos de bem – e do quanto eles me abrem portas e me colocam em situação de vantagem em relação àqueles que não os possuem.

Ainda que mulher – o que não é pouco em um país em que os salários ainda são definidos de acordo com o sexo -, feminista e de esquerda, sou integrante da classe média, branca, magra, emprego estável e em um relacionamento heterossexual.

O simples fato de ser heterossexual já me permite, por exemplo, demonstrações de carinho em público sem que tal possa ofender os que me cercam – ou provocar suas repulsas e iras -, bem como sentir-me segura contra violências gratuitas com lâmpadas fluorescentes ou tiros advindos daqueles que deveriam me proteger.

A magreza, felizmente genética – sem que precise recorrer a dietas milagrosas e salvadoras para manter o modelo de saúde e estética aceitáveis -, possibilita que coma os mais variados doces, peça os maiores pratos no restaurante e vista as roupas que bem entender sem que seja censurada em qualquer dessas atitudes. Não corro o risco, do mesmo modo, de ser tachada de porca, preguiçosa, desleixada ou confundida com uma vaca, com alguns acreditando que podem sobre mim montar, literalmente.

A pele branca – mas não albina, pois esta é, igualmente, alvo de intolerância -, consente que caminhe por qualquer local sem a preocupação de ser confundida com algum marginal ou cause medo naqueles que por ali também transitam, a ponto de mudarem de calçada ou segurarem com mais força suas bolsas e carteiras.

Pertencer à classe média – e quantos negam isso, defendendo uma pobreza que estão longe de experimentar (já que o carro na garagem e o teto para morar não me tornam um privilegiado, não é? Sou pobre, meu filho) -, ter boas roupas e um diploma universitário autorizam-me a estar na rua em qualquer horário, sem medo de ser abordada pela polícia como suspeita de qualquer coisa que se invente na hora, bem como a ter tratamento diferenciado no momento em que meus documentos são solicitados por esssa autoridade.

Ser sulista torna-me sinônimo de trabalhadora, engajada, cumpridora de minhas obrigações e, automaticamente, sustentadora daqueles vagabundos do Nordeste. Não corro o risco, portanto, de ser confundida com os preguiçosos, que só sabem festejar, inscritos no bolsa esmola. E para minha maior sorte, tenho excelentes conterrâneos que lutam para essa sem vergonhice acabar, separando o Sul do restante do País, não é? E não ouse dizer que o Movimento O Sul é o Meu País – ou qualquer outro do gênero – é racista, preconceito, xenofóbico ou coisa que o valha. Como eles mesmos se definem, somos apenas a continuação da História e a conseqüência, de cujas causas não podemos ser acusados. Só, por favor, avisem-me antes de qualquer iniciativa real de separação, para eu fugir para o Nordeste.

Ser jovem me garante preferência na contratação de um emprego, no reconhecimento e valorização do que digo e faço, sem o risco de ser tachada de antiquada, retrógrada ou atrasada. Posso ficar doente, sem que isso seja considerado um estorvo para minha família, bem como posso mandar no meu próprio nariz, fazendo o que bem entendo e na hora que me aprouver, não correndo o risco de me tratarem como uma criança irresponsável. Preferência nos atendimentos em geral e direito a não pagar ônibus não me garantiriam o respeito que me é tão caro e que é tão esquecido aos idosos.

Inúmeros são os privilégios que possuo, do mesmo modo como inúmeras foram as vezes que outras características serviram de prejulgamento pelos que me cercam. Hoje tenho plena consciência dos dois lados da moeda e aprendi a trabalhar com ambos, principalmente no que tange aos primeiros, reconhecendo os meus preconceitos e trabalhando para os eliminar. Sim, porque também sou preconceituosa em diversas ocasiões, muito embora sempre tentando consertar-me e afastar tais pensamentos assim que surgem.

E você, quando irá reconhecer os seus preconceitos e, principalmente, parar de negar seus privilégios?

Se você é homem, classe média, branco, jovem, da região sul ou sudeste do País e heterossexual, saiba que está incluído dentre a categoria dos mais privilegiados neste país. Negar tal condição é ser mais preconceituoso do que reconhecer ódio pelos negros, gays e/ou nordestinos. Uma única dessas categorias já é capaz de te trazer muitos mais privilégios que uma mulher mulher, negra, pobre, idosa, nordestina e homossexual pode sonhar.Os sofrimentos e preconceitos pelos quais esta passa são praticamente inimagináveis.

Você consegue manter agora, com sinceridade, a afirmação de que não é um privilegiado?

PS1: O título deste post é dedicado à música Homem com H, do Ney Matogrosso. Dentre as inúmeras interpretações da letra, faço a seguinte deste trecho: Quando eu estava prá nascer / De vez em quando eu ouvia / Eu ouvia a mãe dizer: / “Ai meu Deus como eu queria / Que essa cabra fosse home / Cabra macho prá danar” / Ah! Mamãe aqui estou eu / Mamãe aqui estou eu / Sou homem com H / E como sou!… – Como é possível, em pleno sertão nordestino, desejar um filho que não fosse homem, já que este seria um dos únicos (senão o único) privilégios garantido durante toda sua vida?
PS2: o autor da primeira foto deste post pode ser encontrado aqui e aqui.
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3 responses to this post.

  1. Posted by walterstodieck on 3 de dezembro de 2010 at 16:50

    Mais uma vez, muito bom o texto e novamente ele me levantou algumas questões a serem discutidas 😀

    Para começar eu me questiono hoje em dia a utilização do termo feminismo. Sei que o termo foi criado na época em que as mulheres começaram a brigar pelos direitos iguais, queimando sutiãs em praças públicas, mas será que o termo hoje em dia é o termo certo?

    Acredito que o próprio termo acaba meio que minimizando a ideia sobre a igualdade de direitos e tudo o mais. Sei lá, posso estar viajando, mas me veio isso agora em mente, hehe.

    Concordo com a maior parte do seu texto e com certeza devo ter meus preconceitos sim, embora não perceba pois, de repente por consequência da minha criação, não consigo enxergar alguns atos e atitudes como forma de preconceito…

    Voltando ao assunto sobre feminismo. Acho este um assunto muito delicado, pois compreendo toda a ideia do movimento e apoio quem briga pelos direitos iguais (que sabemos estar longe ainda de existir, infelizmente). Mas fico puto quando vejo MULHERES deturpando a ideia, usando os ideais feministas como um buffet onde pode pegar o que quiser e o que não quiser deixa de lado. Como assim? Oras, é simples, brigam pelos seus direitos, querem igualdade e tudo, mas na hora de pegar no pesado, ou na hora que a água bate na bunda, dizem que por serem mulheres não podem fazer determinada coisa.

    Um exemplo disso (juro que tentei usar outro exemplo, mas este, apesar de ser o mais clichê possivel, para mim exemplifica muito bem o que quero dizer), são aquelas que reclamam das desigualdades, reclamam de não ter as mesmas coisas que um homem tem (e não to falando da “torneirinha”, ha) e qdo fura o pneu do carro, não se atrevem nem a tentar pois são mulheres e isso é coisa de homem (veja bem, não to falando de todas as mulheres, mas sim de grande maioria que eu vejo por aí)

    Ou quantas mulheres vemos por aí que ainda esperam encontrar um bom partido para serem sustentadas por ele o resto da vida?

    São situações como essa que me deixam puto, pois sabemos (afinal como vc mesmo disse no post, sou um ser privilegiado, sou homem, sou branco, tive acesso a uma escola de elite aqui em Florianópolis e por isso sou uma pessoa informada, o que infelizmente muitos não são)que na prática a teoria acaba ficando só na teoria para a maior parte das pessoas 😦

    Acho que é por isso que eu acabo me perguntando a utilização do termo. Será que hoje em dia o termo feminista não acaba tendo a mesma associação para as mulheres que o termo machista tem para os homens? Será que não seria melhor usar um novo termo, de repente “unissexismo” (hehehe) não se encaixaria melhor para os verdadeiros ideais feministas?

    Na verdade acho que tenho muito mais coisa para falar sobre o assunto, mas acho que é mais fácil falar em uma mesa de bar pessoalmente enquanto o papo vai se desenrolando… Por isso vou ficando por aqui com este meu comentário mesmo e quem sabe dependendo da repercussão vou colocando mais comentários para discutirmos, hehehe

    Beijos

    Responder

    • Tenho que discordar, Walter.
      O termo “feminismo” não deve ser esquecido, muito menos substituído. Percebo que você fez referência a “unissexismo” como termo substituto e creio que o equívoco está em querer igualar os sexos, esquecendo das diferenças que existem e são mais que atuais.
      Ao você igualar no discurso aquilo que não está em pé de igualdade – principalmente de direitos -, você torna ainda mais difícil a luta pelos direitos.
      E quando eu falo em luta pelos direitos da mulheres, quero deixar bem claro que reconheço as diferenças existentes entre homens e mulheres, mas destaco que isso não é razão para se enquadrar “coisas que são de/para mulheres” e “coisas que são de/para homens”.
      Quando falo em igualdade, falo em igualdade de condições e de liberdade, principalmente de liberdade de escolha.
      Não sou contra as mulheres que optam por não trabalhar fora de casa, que ficam cuidando da casa e dos filhos. Apenas defendo que essa escolha tem que ser “livre” e não uma imposição do marido, da família ou cultural/social.
      POr óbvio que muitas mulheres proferem discursos feministas e, logo em seguida, utilizam-se de argumentos machistas para manterem certas regalias e privilégios. Mas isso ocorre com todos os privilégios, não? E, ainda que, ao mesmo tempo, seja o que nos oprime e nos subjulga enquanto mulheres, algumas características “femininas” permitem às mulheres desfrutar de certas “comodidades”. Séculos de opressão levam as pessoas a retirar pequenas vantagens de suas desvantagens, não é?
      Mas concordo que esse papo pode ser melhor detalhado em uma mesa de bar, muito embora eu adoraria que o tema crescesse aqui no blog, por meio dos comentários dos poucos leitores que tenho.
      Beijos

      Responder

  2. […] um total ignorante sobre a questão, já que prolata esse não somos homofóbicos do alto de seus privilégios de homem, branco, rico, heterossexual, católico etc. Nem por isso está autorizado a chamar de […]

    Responder

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