O que você vai experimentar de novo hoje?

Desde que tive a insana ideia de namorar um cozinheiro e estudante de gastronomia que adora inventar pratos novos e rechear-me de surpresas, uma enorme quantidade de quilogramas foram adicionados – não tão homegeneamente como, ao menos, eu esperava – ao meu corpinho, levando-me a pequenos ataques cardíacos a cada visita à balança da farmácia.

Não sou nem nunca fui alucinada com peso, gordurinhas ou congêneres, mas a preocupação aumenta quando percebo que as roupas  – principalmente as calças jeans – não querem mais fechar ou estão mais justas do que o costume. Trocar o guarda-roupa, novamente, não está em meus planos financeiros para esse final/início de ano. Não posso continuar nessa gangorra frenética de perder 5 kg em dois meses, ganhando esses e mais 7 kg nos oito meses seguintes.

Quilogramas e gostosuras gordurinhas à parte, o que pude perceber é que essas novas incursões gastronômicas me trouxeram um mundo de novidades, conhecimentos e experiências outrora ignorados, obrigando-me (no bom significado do termo) a encarar receitas que fazem muitos virarem a cara com nojo.

A última aventura gastronômica ocorreu no dia 07 de dezembro. E o termo aventura aqui empregado não se trata de exagero: fui a dois jantares, com direito, ambos, a canapés, entradas, pratos(s) principal(is) e sobremesa. Tive a (in)felicidade de ser convidada a esses dois eventos inescusáveis, a ocorrerem na mesma data, sendo o primeiro o encerramento do curso do namorado e o segundo um jantar do trabalho (convite do chefe). E não podia deixar de comer – ao menos experimentar – um pouco de cada uma das receitas servidas, ainda que mais por gulosisse do que por educação.

Confesso que o segundo evento não trouxe grandes inovações ao meu paladar, salvo por um sofioti de perdiz (2° prato principal), cujo nome é mais complexo que seu conteúdo, sendo o perdiz a grande novidade apresentada: as mais variadas carnes, brancas e vermelhas, já pude experimentar nesses meus 29 anos, mas perdiz era uma das ainda desconhecidas (ao menos não me recordo de tê-la provado em outra oportunidade).

A grande inovação da noite ficou mesmo por conta do evento organizado pelo namorado e seus colegas de faculdade, como trabalho de final de curso. Ali, ousados e atrevidos cozinheiros presentearam seus convidados com entradas regadas a camarões, pimentas, abacates, peixes crudus, palmitos, tomates e espumas (sim, espuma, como um cuspe a la Ferran Adrià) de coco.

As flores que não apenas enfeitavam, mas também faziam parte dos ingredientes de uma das entradas (confit de carangueijo em jardim de mini flores), bem como as esferas (na minha singela e  grosseira definição, mini bolinhas de gude a la Ferran Adrià) de manga, não foram capazes de me impressionar tanto quanto o ceviche com chips de batata doce e pérolas de aji. Nome bonito para intitular um peixe cozido na acidez no limão ou substância cítrica análoga.

É, a bem da verdade, um peixe cru que – ainda que eu não tenha percebido – passa por um longo processo de cozimento na acidez do limão (ou ingrediante sememelhantemente cítrico). Muito embora seja apreciadora de sashimi, acabei recusando a iguaria após algumas garfadas e tentativas de torná-la mais saborosa com a junção do chips de batata doce (este sim, maravilhoso).

Mas provei e (re)provei novamente, buscando verificar se realmente não estava apreciando a iguaria ou se meu paladar – acostumado com arroz, feijão e ovo frito – é que me trapaceava, antevendo-se a qualquer julgamento isento e prolatando, de imediato, sentença definitiva de mérito: isso é ruim!

Sou da área jurídica, defensora fervorosa e inarredável da garantia ao contraditório e ampla defesa no julgado, sendo por essa razão que me compeli a repetir as garfadas, permitindo à peculiar receita o direito à dúvida, ao menos. Infelizmente, assim como o ar de funcho (outro cuspe a la Ferran Adrià) sobre medalhão de robalo, que roubou meu prazer no apreciar o saboroso peixe, o veredito foi: não gostei.

Tudo bem, acredito eu. Não sou obrigada a gostar, não é? (ainda sou livre para isso, não?) Mas não neguei a tentativa de, ou seja, tentei e insisti na prova, na experimentação. E não fiz isso pelo namorado, que tanto se esforçou na elaboração de um dos pratos e comunicou-me, via sms, qual de sua responsabilidade. Também não o fiz pelo sentimento de justiça que carrego comigo em todas as situações, garantindo, sempre, a máxima do inocente até que se prove o contrário. O fiz porque acredito que devemos, sempre, estar experimentando coisas novas, e isso não se resume ao mundo gastronômico.

Em ambos os eventos em que estive, vi pessoas virando a cara para os pratos servidos sem nem ao menos provar seu conteúdo. Alguns sequer tinham a desculpa do eu não como isso para fundamentar sua recusa. Limitavam-se a dizer que a aparência não era boa e não iriam arriscar a prova. Mas, para mim, nenhuma das duas desculpas é aceitável pela simples razão de que as pessoas mudam e nada é igual sempre.

Sim, você pode bater o pé, espernear, pular três vezes para São Longuinho enquanto entoa o mantra do é de pequenino que se torce o pepino… ou a famosa people don´t change, do Dr. House. Inexorável o fato de que as pessoas mudam, inclusive seus gostos. Afinal, quem nunca viu um (ex) não apreciador de qualquer coisa lambendo aos dedos, agora, quando se depara com um prato repleto da iguaria em questão?

Outro dia li um texto muito bom da Liliane Prata em que aborda essa questão da mudança e do quanto relutamos em aceitá-la. Transcrevo aqui pequeno trecho que resume bem a linha de pensamento dessa escritora/blogueira, com a qual coaduno:

Mania estranha essa das pessoas congelarem as manias das outras pessoas. Outro dia, conversando com uma velha amiga sobre o assunto qualquer, dei minha opinião. Ela se espantou:

– Como assim? Naquele jantar em 2007, você tinha dito o oposto!
– Pois é… em 2007.

Não adianta: as pessoas podem passar os anos tendo aula de francês, aprendendo a fazer sushi, acampando, substituindo a coleção de latas por moedas antigas… e continuarem achando que, enquanto elas estavam fazendo tudo isso, os outros estavam parados, sempre na mesma – exatamente como da última vez que se encontraram.

Não são só os hábitos mais superficiais dos outros que a gente costuma congelar: aquelas características profundamente arraigadas na psique do ser humano nunca se alteram. Jamais. Pelo menos, para o ex-namorado desse ser humano.

Não pense você que mudar é ruim ou taxe a pessoa de volúvel por tal ocorrer. Apesar da não aceitação inicial e a tendência de sempre se acreditar que as coisas estão piorando –  culpa da nostalgia , que transforma o passado em algo perfeito e imutável, já que tendemos a esquecer das coisas ruins e supervalorizar as boas, mantendo na memoría algo que, nem sempre, reflete a verdade –, acabamos por perceber que a mudança foi (está sendo) boa.

Certo é que não há maneira de você descobrir se realmente gosta de algo – ou não -, se mudou, se está pronto a arriscar novos sabores, conhecimentos e sentimentos senão experimentado-os e (re)experimentando-os a cada momento. Arrisque-se e jogue-se de cabeça nas novas experiências – o que não significa que você precisa abandonar ou esquecer os velhos hábitos que te fazem bem – e dê, sempre que possível, o direito à dúvida a tudo com que se deparar em sua vida. Sua tolerância, aceitação e preconceitos também mudam, felizmente.

Meus quilinhos a mais, apesar da atual luta por extirpá-los desse corpo a que não pertencem, não deixam de ser bem-vindos. Mostram-me o quanto tenho aprendido e permitido-me experimentar, sem medo de arriscar ou parecer volúvel aos olhos daqueles que demoram a acreditar em nossa mudança. Porque essa coisa de essência imutável é lorota de quem tem medo de encarar as coisas a sua volta; medo diante do novo e do desconhecido.

 

PS1: meus posts têm perambulado por ares de auto-ajuda, o que pouco me agrada. Mas não é esse meu intuito, por favor. Não sou dona da verdade e, com toda certeza, estou longe de ser a pessoa certa a dar conselhos no estilo seja feliz por você mesma. Não passam, a bem da verdade, de divagações (como a categoria em que inseridos os intitula) sobre assuntos que surgem por uma ou outra razão.
PS2: sempre começo a escrever com uma idéia na cabeça de como o texto vai se desenrolar, mas, sempre e inevitavelmente, descambo para caminhos e desfeixos outros. Espero melhorar essa falta de foco com o tempo. Como (maior) crítica fervorosa de meu trabalho, nunca estou satisfeita com os resultados. Talvez se conseguisse iniciar e encerrar o texto que me veio à mente, sem os atropelos e modificações contínuos, aceitasse-os com mais facilidade. Vamos tentar (experimentar), não é?
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10 responses to this post.

  1. Posted by walterstodieck on 9 de dezembro de 2010 at 22:36

    Tia, adorei este post e concordo com quase tudo que ele diz, menos com três coisas…

    1) Seu corpinho continua com tudo em cima! (sorry @gastrobirra, não posso negar a verdade, hahahaha) Esta história de que vc tá gordinha nada mais é que implicação do seu namorado que não tem amor pelos dentes da frente, HA!

    2) Como assim vc não cabe em NENHUMA das suas calças jeans? Eu VI a quantidade de calças jeans que vc tem quando tava fazendo a mudança, maior que a coleção de sapatos de muitas socialytes por aí…

    3) Pode falar o que quiser, mas NEM A PAU que eu volto a experimentar TOMATE!

    É isso ae tia, de resto, excelente post como sempre

    Responder

    • Mas posso garantir que o senhor, apesar da aversão a peixe e tomate, provou de minha torta de atum com molho de tomate, rs.

      Concordo que minha coleção de calças é imensa e perceba o problema de não mais entrar nelas, rs.

      E não vamos culpas o @gastrobirra. Ele tem me dito, diversas vezes, que essas gordurinhas são coisa da minha cabeça…Finjo que acredito, rs.

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      • Posted by walterstodieck on 9 de dezembro de 2010 at 23:57

        mas eu não tenho MUITOS problemas com peixes…

        Até como salmão no sushi e numa das vezes que saimos juntos até provei uma tainha que vcs tavam comendo e não achei de todo ruim, hehehehe

        Agora tomate é complicado…

  2. Posted by Michele on 9 de dezembro de 2010 at 22:39

    Isso é bem verdade.
    Muitas pessoas mantêm o seu paladar da infância até a vida adulta, privando-se de experimentar sabores que, muito embora a criança repudiasse, o adulto pode gostar, e muito.
    Eu mesma detestava pêssego, mas hoje em dia adoro. Sobre o mamão.. er.. não posso dizer o mesmo. 🙂

    Responder

  3. Posted by juliana on 10 de dezembro de 2010 at 07:30

    O importante é tentar, sempre, experimentar novas (e velhas) coisas, na tentativa de adaptar o paladar e, talvez, passar a gostar..eu não como nenhum fruto do mar, mas nesse jantar do chefe me senti tentada a provar umas comidas marinhas(peixes, exclusivamente hehe) e SURPRESA! achei bom!
    Ainda não to preparada pra um jantar inteiro com uma variedade de frutos do mar, mas tenho fé que vou “aprender” a comer pelo menos alguma coisinha..e assim passar a ter mais opções no cardápio.
    E Mi, parabéns pela tua aventura gastronômica! Acho que no jantar do teu namorado eu iria direto à sobremesa heuehe
    Mas um dia eu chego lá e aprendo a apreciar o que (dizem) é bom!

    Responder

    • Coisa boa, Juju. Eu vi a senhorita dizendo que não gostava de peixe ou congêneres do mar, o que é algo bem comum até. Bom saber que você tentou experimentar e gostou.
      Claro que não podemos forçar as coisas, pois nesse caso a tentativa de apreciar acaba se transformando em repulsa para todo o sempre.
      O intuito do texto, a bem da verdade, é falar sobre mudanças, sobre como nós mudamos e nem percebemos. Com a alimentação, muitas vezes, que essa mudança é percebida. E, como disse, isso não significa ser volúvel. Pelo contrário, sinal de que a pessoa não é intransigente e aceita novidades.
      E, ao contrário do que disse o amigo Walter, ali no comentário de cima, podemos ousar, sim, em todas as áreas, rs.

      Responder

  4. Como a Mi me conhece muito bem, sou o cara mais sem noção e mais empolgado, independente do que vier pela frente!
    Quando pequeno ( se fui isso alguma vez na vida, rs) também torci muito o nariz, com aquela de que não gostava disso e daquilo!
    Também não comia tomate, achava que roubava o gosto de tudo – e rouba se não for bem feito ou colocado no lugar certo)
    A gastronomia mostrou coisas novas e inusitadas, como por exemplo misturar carne de caça com frutos do mar ( o que é feito em todo mundo, menos aqui, onde a frescura é maior que a necessidade e a vontade do novo)
    Se não gostamos de algo, podemos ainda dar uma chace a isso e provar de uma forma diferente, se não gosta de tomate…assar ele é uma boa alternativa de modificar seu sabor e deixa-lo mais interessante. Não gosta de mamão, grelhe ou use numa salada, verá que fará uma diferença grande!
    Não temos um jeitinho brasileiro pra vida? Então ache um jeitinho brasileiro pra comida!
    Já as aventuras da fora da gastronomia….a gente deixa guardadinha só pra nós heheh!

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    • Pois é, o senhor me introduziu nas “ousadias gastronômicas” e foi o grande incentivador de minhas “experiências” inusitadas. Mas, de outro lado, não come chuchu, não é? hehehehe
      Bem, ao menos tentou (até onde sei) provar em mais de uma oportunidade. Talvez falte as opções de assá-lo ou grelhá-lo.
      Brincadeiras a parte, sei que as ousadias, não apenas gastronômicas, são seu forte e o que me encantaram. Nunca mude.

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