Não somos homofóbicos, racistas e preconceituosos de um modo geral?

Por indicação da Lola – aquele blog listado nos links logo aqui ao lado – fui perder meu tempo lendo o blog do Reinaldo Azevedo, jornalista da Revista Veja, o qual, segundo sua própria definição, é mais acessado do Brasil. Mérito dele, por certo, que atrai desde conservadores de extrema direita, que se coadunam com seus ideais, até militantes da extrena esquerda, que repudiam seus argumentos. E sou defensora dessa miscelânea, já que entendo que, para um bom argumento, deve-se conhecer todos os pontos de vista, ainda que contrários aos seus.

Meu intuito foi ler o post intitulado Não somos homofóbicos – assim, simples e direto, sem ironias no título, como já diria a Lola – e pensei seriamente em lá deixar um comentário. Mas conheço bem as técnicas da Veja e sua política de bloquear comentários indesejáveis (se você não acredita em mim, pode ler os comentários do blog e perceber a quantidade de pessoas reclamando que foram censuradas em outros momentos, ante os argumentos manifestados), razão porque preferi fazê-lo aqui, com mais vagar e pormenores, deixando apenas aos interessados sua leitura.

No post em questão, Azevedo enfatiza que não somos um país de homofóbicos – nem de preconceituosos de um modo geral -, apenas temos garantido constitucionalmente (oi?) o direito a ser contra a união civil de homossexuais ou a manifestação pública de afeto por parte desses. Ele, aliás, defende-se até favorável a adoção por casais homossexuais, desde que, por certo, comprovem condições psicológicas e financeiras para tanto (quais seriam essas condições ele não detalha e tenho até medo de sabê-las).

Oras, como dizer que o país é homofóbico se: Homossexuais estão na política, na universidade, nas novelas, nas revistas de celebridade, em todo canto. A parada gay brasileira, parece, é a maior do mundo. Clodovil e Dener eram figuras de destaque em plena ditadura militar. Um gay, já lembrei aqui, venceu um dos BBBs e pode chegar agora à Câmara dos Deputados. (excerto do blog).

Usando um termo utilizado pelo próprio Azevedo, mas ao avesso, acredito que os leitores deste blog não são apedeutas que levariam pau no exame de PISA e, por essa razão, capazes de compreender a sutileza do argumento daquele jornalista: se os homossexuais estão aí, fazendo passeatas e ocupando cargos eletivos, bem como figurando em programas de entretenimento na televisão, como se poderia falar em homofobia?

Vejam só, o homem descobriu a lâmpada. E eu aqui, teimando e sendo preconceituosa por acreditar que o fato de essas pessoas estarem presentes na sociedade de um modo geral não as torna menos alvos de ojerizas, repúdios e violências! Claro que não. Azevedo que está correto: o Projeto de Lei 122/2006 – por ele intitulado de AI-5 Gay – é que é preconceituoso, já que finge proteger uma minoria da sociedade ao infringir diversos princípios constitucionais, principalmente a liberdade de expressão. Ademais, o Brasil já tem leis suficientes e capazes de resolver eventuais e esparsas atitudes homofóbicas que venham ocorrer neste nosso País da Tolerância.

Ironias à parte, tenho que concordar com Azevedo em um único ponto – e ainda que seja em um único, inenarrável a repulsa daí decorrente -: somos um País atolado em legislação, que necessita de uma Lei (sentido lato) para todo e qualquer problema surgido (hermenêutica jurídica para que, não é?). E, ao revés, embora essa infinidade de leis esparsas devesse melhorar os problemas do país, parece piorar as soluções jurídicas, levando os processos judiciais a meandros torduosos e cansativos, com fins nem sempre desejados.

O que Azevedo parece ignorar – e não o considero uma pessoa ignorante; pelo contrário, sabe muito bem utilizar as omissões a favor de seu discursoé que a inserção (ou permissão) de um grupo no seio da sociedade (antes na marginalidade – às margens de) nunca foi sinônimo de fim do preconceito e da discriminação. Usando um exemplo dos Estados Unidos – já que Azevedo é tão apaixonado pela terra do Tio Sam -, não há quem ouse negar que a permissão para que os negros frequentassem os mesmos estabelecimentos outrora destinadados apenas aos brancos não foi causa suficiente para o que o preconceito racial fosse extirpado da sociedade, bem como a violência e perseguições a negros reduzissem. Ouso dizer que, em muitos casos, aqueles poucos privilegiados ocupantes das primeiras vagas em escolas de brancos foram alvos das mais variadas perseguições.

Brasileiros têm esse costume de negar os preconceitos, como se os negando deixassem de existir. Melhor, como se  negando fosse possível evitar o título de país preconceituoso.

Ocorre, senhor Azevedo, que o número de homossexuais no Congresso Nacional é muito superior aos 2 ou 3 enumerados em seu blog, mas que  se obrigam a esconder esse fato para lá poderem estar, defendendo opiniões sem que sua sexualidade seja usada como desculpa para a desconsideração de seus argumentos. Também há muitos homossexuais na televisão, em papéis de destaque, aliás, mas omitindo que o são a fim de garantirem a manutenção do contrato firmado e o papel de galã na novela das oito. O mundo jurídico e o jornalístico repetem esse mesmo quadro, todos evitando sair do armário para não serem relegados a cargos menores dentro do ambiente profissional.

E esse é o país que o senhor bate no peito enquanto braveja não somos homofóbicos?

Talvez o senhor Azevedo, ao contrário do que afirmei acima, seja um total ignorante sobre a questão, já que prolata esse não somos homofóbicos do alto de seus privilégios de homem, branco, rico, heterossexual, católico etc. Nem por isso está autorizado a chamar de AI-5 Gay o projeto de lei que altera dispositivos do Código Penal, da Lei do Preconceito e da Consolidação das Leis do Trabalho.

Azevedo encerra seu texto com a seguinte frase de impressão: Não chegaremos ao ponto ótimo da educação e da civilidade agredindo direitos fundamentais para garantir… direitos fundamentais!

Talvez a formação eminentemente jornalística do senhor Azevedo seja insuficiente para que este possa ler (e interpretar) o Projeto de Lei 122/2006 – AI-5 Gay – de forma diversa, chegando ao entendimento estapafúrdio de que este estaria ferindo direitos fundamentais.

Não pretendo aqui discorrer sobre hermenêutica jurídica ou sobre ponderações de princípios constitucionais (sim, ponderações, já que esses não colidem, mas se integram), mas da leitura rápida do texto daquele PLC não pude extrair nada que macule ou fira o direito (fundamental ou não) de qualquer pessoa.

Aliás, mesmo sendo abraçada pela causa GBLTS, trata-se de legislação de proteção (alargamento) contra a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero, o que, no meu entender, é favorável a todos, inclusive ao senhor Azevedo e seu direito de não ser alvo de discriminação por ser branco, ou heterossexual, ou católico.

Não se está censurado, com esse PLC, o direito de qualquer um ser contra a união homossexual ou adoção de crianças por casais gays. O que se impede e com toda razão, agora sim constitucional, é a utilização dessa discordância como argumento para se negar o direito daqueles em reconhecerem  legalmente seus relacionamentos. O que não se pode admitir é que a minha liberdade de pensamento fira ou limite a liberdade do outro. Minha religião está livre a não reconhecer o diferente, mas não está apta a impedir que esse seja amparado e protegido pela legislação.

Enquanto ainda for preciso lutar – sabe-se lá por quantos anos mais – para ver reconhecidos seus basilares direitos, não há como se admitir que um iletrado em Direitos Humanos defenda que o país não é homofóbico.

Foto de Michael Bernardini

Talvez se o senhor Azevedo fosse capaz de reconhecer seus privilégios e, então, afastá-los dos julgamentos parciais e tendenciosos que realiza, fosse capaz de interpretar o AI-5 Gay sem que necessitasse de formação jurídica. Ser capaz de analisar a questão sobre outra ótica realmente não é tarefa fácil e, pelo que bem se percebe, infelizmente não ensinada nos bancos escolares.

Para encerrar, deixo vocês com um trecho particularmente interessante do texto de Reinaldo Azevedo:

Faremos leis para punir a discriminação de gays, mulheres, negros, gordos, magros, míopes, pobres… — e até, se for o caso, de heterossexuais brancos e cristãos, que estão no último degrau dos seres desprezíveis, ainda que não abram a boca. Há quem os considere naturalmente propensos à discriminação, mas não se deve ver nisso um preconceito, claro…

Alguém, por favor, informe ao senhor Azevedo que todas as ojerizas que lhe são direcionadas nada tem a ver com o fato de ele ser homem, branco, heterossexual e católico. Se, infelizmente, a grandiosidade dos preconceitos e discriminações que prolata diariamente em seu blog decorrem desses seus privilégios – os quais teima em não reconhecer como o são: PRIVILÉGIOS -, talvez esteja na hora de rever os conceitos que possui do que seja ser homem branco cristão e heterossexual.

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2 responses to this post.

  1. Somos sim um pouco preconceituosos, principalmente quando queremos gnahar algo entroca!
    Mas, são poucas as vezes que pensamos que esses preconceitos podem se voltar a gente!
    Sendo “branco”, homem, heterossexual, tenho grandes vantagens na sociedade. Mas tudo isso acaba quando fujo de algumas “regras” da sociedade: começando pelo “branco”, esta entre aspas por eu ser filho de negro,tenho traços de negro, mas de cor clara, tatuado, uso alargador e por isso já vi muita cara feia na rua, bares, supermercado, principalmente pela tatuagem que tenho, 4 caveiras mexicanas representando minha família – vamos ver quantos irão perguntar se morreram ou tenho ódio da família. Já cheguei a ser parado por uma freira, fazendo sinal da cruz e benzendo, dizendo que estava com o diabo no corpo, somente pelas tatuagem impressa no meu corpo.
    Tenho um preconceito grande até mesmo dentro de mi9nha profissão, onde sou cozinheiro, me formado em gastronomia e trabalho com cervejas – onde cerveja para muitos, não classe na gastronomia, então não deveria estar trabalhando com isso ou nem mesmo ser chamado de chef.
    Imagem então se esse cozinheiro tatuado, trabalha com cervejas, com alargador e usando calças justas frequenta boates gays – jogo 100 reais que 90% das pessoas que lerem isso irão me chamar de gay. com a minha namorada ( esta do blog)
    E lendo o blog e ao mesmo tempo vendo TV estava passando uma paródio do Adnet e a turma do Comédia MTV, falando sobre o lado bom de ser gay, deixo aqui o link e tire suas conclusões.
    http://tvuol.uol.com.br/#view/id=backstreer-gays-04029C3166CCC97326/mediaId=1793319/date=2010-03-25&&list/type=search/q=o%20lado%20bom%20de%20ser%20gay/edFilter=all/sort=mostRelevance/

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  2. […] comentei por aqui o quanto me desagrada o fato de o Brasil ser o país das legislações: para cada problema surgido, […]

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