“Casa simplesinha, rede pra dormir, de noite um show no céu, deito pra assistir”

Apesar do título desse post remeter à música intepretada por Victor e LeoDeus e eu no Sertão -, sou uma pessoa urbana. Absolutamente urbana.

Isso não significa que eu não goste da natureza, de lugares bucólicos, de cachoeiras, de campos, de animais etc.  Gosto e muito, mas os prefiro como meros ambientes fotográficos, compondo um bom cenário em um ensaio qualquer. Minha simpatia com o ambiente rural ou com a vegetação nativa encerra-se no mesmo instante em que se iniciam os trabalhos dos mosquitos, pernilongos, sapos, aranhas, cobras e não acredito que vou confessar isso aqui galinhas (aves em geral também).

Sim. Eu tenho uma relação problemática particularmente com galinhas: tenho medo delas. Não sei como explicar isso – “ah, vai! Tem medo do que? Que ela te bique o pé? -, até porque o medo nem sempre é algo explicável e racional.

Minha mãe, contudo, tem uma explicação sensacional para isso – e hoje, mais do que nunca, acredito em sua teoria. Segundo ela, quando grávida de mim, morando em Foz do Iguaçu (sozinha com meu irmão de quatro anos, já que meu pai viajava muito) e num calor insuportável de 40°C na sombra – aquilo é filial do inferno, certeza -, exterminou uma ninhada de pintinhos. Claro que não de propósito.

Segundo sua narrativa dos fatos, meu pai havia trancado algumas galinhas no porão da casa de madeira em que moravam – birrento como só ele pode ser, ficou bravo porque as galinhas do vizinho invadiam seu quintal e este não cuidava de consertar a cerca. Praticou o ato no intuito de punir o vizinho (e as galinhas, de lambuja), mas acabou por atingir minha mãe -, as quais acabaram chocando seus ovos. Em virtude do extremo calor e por estarem trancadas, teriam elas contraído (?) ou intensificado (?) suas pulgas. Mas não foi um simples galinhas com pulgas e sim uma infestação de proporções alarmantes, acabando por atingir toda a casa e TODAS as roupas existentes naquele ambiente.

Minha mãe, então grávida de 08 (oito) meses – nem sei como não nasci ali, em meio àquelas pulgas todas -, foi obrigada a lavar todo e qualquer tecido existente na casa, desde roupas até cortinas – e nessa época ela nem sonhava em ter uma máquina de lavar roupa –, bem como detetizar todo o ambiente. Por fim, libertou todas as galinhas, que dali não saíram de imediato, e lavou o porão com MUITA água sanitária, ingerida acidentalmente (sempre tive dúvidas sobre isso) pelos pobres pintinhos, vindo todos a falecerem prematuramente.

Minha mãe encerra a história dizendo que, em razão desse massacre, as galinhas-mães ficaram revoltadas e, como punição, nos moldes da Lei de Talião, resolveram atacar a sua ninhada (melhor explicando, eu). Como ainda demoraria algum tempo a nascer, bem como estar em idade passível de ser alvo dessas mães tomadas pelo sentimento de vingança ante a morte de seus filhos, utilizaram-se do amplo conhecimento que detinham de teoria da evoluçãomaldito Darwin – e passaram essa raiva acumulada informação as suas futuras gerações.

Por isso hoje, quando me deparo com uma galinha, ao contrário de ela fugir amedrontada – como deveriam fazer, já que em tamanho muito inferior ao meu -, tendem todas a correrem atrás de mim, na tentativa de me bicar ou sei lá mais o que – nunca fiquei parada esperando para saber o que mais poderiam fazer. Ouso dizer que essa maldição se aplica às aves em geral, senão na natureza como um todo, pois impressionante como os animais tendem a vir em minha direção, com raiva em seus olhos (que percebo, sim, ainda que corra como uma louca desvairada).

Certo que não me restou outra alternatina na vida senão ser uma garota urbana, rodeada de prédios e muito concreto – esses nunca me assustaram. Aliás, sempre morei em edifícios e fui uma criança tipicamente de condomínios, brincando dentro do meu quarto – no máximo na calçada em frente ao prédio, pulando amarelinha ou a volta na quadra, clássica, de bicicleta – e necessitando de doses cavalares de antihistamínico quando picada por abelhas, aparentemente sem GPS, que por lá apareciam.

Quis o destino, contudo (tudo em nome da tranquilidade e bem estar dos gatos), que eu fosse morar no meio do mato. A foto que inicia este post, aliás, foi tirada de dentro do meu quarto, em sentido à rua e a sacada. Mas não pensem que me rendi ao mundo rural e bucólico: estou há 5 minutos do trabalho (centro da cidade) e meia quadra da Rua principal do meu Bairro (congestionada boa parte do dia).

Consegui a façanha de morar praticamente no centro da cidade e estar, ao mesmo tempo, rodeada de mato, bem como de todas as espécies animais que aí habitam. Não nego as maravilhas da tranquilidade do local, mas tenho me deparado com tantos animais no apartamento (lagartixas, pererecas, aranhas – imensas e venenossas -, baratas voadoras, insentos e mais insetos, morcegos, saguis, pássaros etc. etc. etc.) que tenho questionada a escolha feita. E não basta que visitem minha sacada, precisam povoar até mesmo meu quarto, como ocorreu hoje pela manhã.

Estava eu tentando dormir, mas um daqueles momentos Irritando Fernanda Youg – porque esse pássaro pia tão alto que parece estar dentro do meu quarto? – me obrigou a levantar às 8h30. Meio sonolenta, pensei: esse pássaro só pode estar dentro do meu quarto! Nunca odiei tanto estar certa…

Juro que não sei explicar a dinâmica do acontecido, só sei que me deparei com esse pássaro, da foto ao lado, em cima do guarda-roupa e, depois, sobre o suporte da cortina.

Muita calma nessa hora, refleti.  Não vamos entrar em pânico. Namorado não está, mas posso resolver a situação sozinha.

Sobreveio um grande raaaaa para mim e um senta lá, Claudia. Óbvio que a vã tentativa de abrir a porta da sacada e esperar pacientemente para que a pequena (oi?) ave saísse sozinha do quarto não surtiu efeito. Confesso que até a postagem deste texto ainda ouço o animalzinho piando enlouquecidamente no quarto ao lado. Sim, porque eu não me encontro no mesmo ambiente que esse bichano e o que ele lá faz nem sei, pois fechei a porta e não ouso voltar àquele quarto enquanto o namorado não chegar em casa para me salvar dessa ave vingadora.

Eu sei, vocês não podem perceber pela foto – tirada nos 2 segundos e pela minúscula fresta que abri da porta para coroar este post com uma fotografia do evento – e eu também não pude, já que a ave teima em olhar apenas para cima, que olhar dela é de ódio e vingança pelo massacre outrora perpetrado por minha mãe. Por certro que esse desvio de seu olhar é para me ludibriar e evitar que perceba (ou descubra) seu plano diabólico – ainda que se limite a ser: cagar toda a minha cama.

Eu bem que podia abrir a porta do quarto e deixar que meus filhotes salvassem minha manhã de sono. Mas seria crueldade demais com um bichinho que nem sei se não está ferido e, apesar dos pesares, não pode ser responsabilizado pela herança genética vingadora que carrega sem que possa de outra forma decidir, em decorrência da maldade perpetrada por meus pais anos atrás.

Meus pais não precisavam dar uma de Brás Cubas, mas podiam ter-me poupado do legado de uma vingança dessa proporção.

Aproveitando, alguém aí conhece, a exemplo da novela Araguaia, algum ritual que desfaça essa maldição que não devia ser minha?

 

PS1: eu reclamo, mas amo o local onde moro, assim como alguns dos cantos matinais com que as aves da redondezam me presenteiam. O restante continua sendo um incômodo, sim, principalmente os insetos e aracnídeos.

PS2: o passarinho parou de piar, de repente. Ou morreu (torço para que não) ou saiu do quarto. De qualquer maneira, exijo a presença de meu advogado namorado para adentrar novamente naquele recinto.

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2 responses to this post.

  1. […] em segundo lugar meu reconhecimento de que não estou preparada para ser mãe e, em primeiro, meu confessado medo respeito pelas […]

    Responder

  2. Essa foto do post é sua?
    Se sim, podemos negociar o seu uso em um material publicitário?

    Responder

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