Um Ano Novo em que as pessoas se joguem mais de cabeça…

2011 está aí: quase podemos tocá-lo com as mãos. Como não poderia deixar de ser, esse final de ano vem arraigado dos famosos clichês de repensar a vida, renovar os planos, mudar o que é necessário e, finalmente, fazer as promessas para o Ano Novo.

Creio não ser a única com uma lista enorme de promessas, que se acumulam ano após ano e que me fazem repensar se devo, mais uma vez, aumentar esse catálogo que já não parece mais ter fim.

Assim como nos aniversários – provavelmente com a mesma intensidade -, essa é a época em que as pessoas comumente refletem sobre seus erros e acertos, sobre suas vitórias e suas conquistas, principalmente sobre o futuro, que parece chegar cada vez mais rápido, indo de encontro às leis da física de espaço e tempo, mas coadunando-se perfeitamente com a famosa teoria da relatividade. Época, igualmente, de se pensar sobre o quanto nos resta de vida e se teremos tempo de cumprir ao menos parte daquela lista imensa de promessas acumuladas.

Deparei-me hoje com um texto da Carla Rodrigues, em que ela trata sobre o medo da morte, o passar do tempo e algumas questões femininas e feministas, sendo este trecho que me levou a atualizar o blog e falar sobre Ano Novo, muito embora eu tivesse me prometido que não o faria:

Tenho defendido com alguma veemência e convicção que a maneira como se encara o medo da morte define em grande medida a maneira de viver… e define muitas das nossas decisões na vida adulta, marcada indelevelmente pelo medo de morrer.

Quando se é criança, a morte e o morrer não são assuntos que te preocupam ou sequer cogitáveis, salvo claro, se a vida te colocar diante uma fatalidade que te obrigue a entender o assunto ainda com tenra idade. Com 3 anos perdi meu padrinho, praticamente um segundo pai (até mais presente no cotidiano que o meu, visto as viagens constantes em razão do trabalho), mas sua ausência me foi passada como uma viagem, igual àquelas que já estava acostumada com meu pai, sendo anos depois, apenas, a constatação do que era a morte e o morrer. Mesmo assim isso não fazia parte do meu imaginário como algo real e possível. A bem da verdade, nem sei precisar quando esse fato inexorável tornou-se real para mim.

É bem provável que, como salientado no texto da Carla Rodrigues, acima transcrito, isso tenha passado a interferir em minha vida, em minhas escolhas, quando já integrante da vida adulta. A partir de então as escolhas parecem ter sido influenciadas pelo futuro e pelas consequências nele do no agora, (de)limitando cada passo dado. O exato momento em que isso ocorreu? Não sei. Apenas tenho conhecimento de que os pulos agoras viraram passos e cada vez mais curtos. Ficou difícil me jogar de cabeça…

Estamos na Era da Velocidade, da informação em tempo real, das coisas sempre para ontem, da busca pela perfeição e do trabalho máximo no tempo mínimo. Um passo errado e você pode ficar para trás, não conseguindo mais alcançar seus concorrentes. Tudo precisa ser muito bem pensado, pois a vida passa e, quando você vê, não fez nada e não tem mais tempo de fazê-las.

Será mesmo?

Quem criou essa lei que define tempos certos e estanques para as coisas acontecerem ou serem realizadas? Quem definiu, como verdade universal, o momento em que estarei preparada para isso ou aquilo, bem como o momento em que devo parar de praticá-las ou tentá-las? Quem assinou esse contrato por mim, se não passei procuração a ninguém para tanto? Quem pode definir até quando e quantas vezes estou autorizada a cair e a levantar? O que a minha idade diz sobre mim e o quanto eu devo aceitar que ela me limite para qualquer coisa?

Essas pressões todas sofridas e os medos que carregamos daí decorrentes acabam por, em certo grau, auxiliar no aumento da lista de promessas de Ano Novo, seja pelos receios de pôr algumas em prática, pois poderiam atrapalhar as demais ou estarem fora do tempo devido, seja pela exigência de que tudo deve ser feito o mais rápido possível, acumulando afazeres.

Mas a vida é feita só de obrigações e afazeres? Onde está a diversão, o carpe diem, o poder fazer o que bem entender e quando bem o pretender, sem dar explicações a ninguém?

Por isso, nesse novo ano que se inicia, minha única promessa de réveillon – e também um desejo – será: conseguir abstrair as pressões externas que me (de)limitam e (re)aprender a me jogar de cabeça nas coisas realmente importantes, independentemente do tempo, da idade ou do modelo que me impuseram como adequados.

E se você achar que não é mais capaz de alguma coisa, que o tempo passou para determinada conquista ou que o risco de se jogar de cabeça é alto demais, saiba que a queda nem sempre é ruim e que tudo fica mais fácil quando você tem alguém para te apoiar, seja essa pessoa quem for, ou até mesmo para pular contigo e mostrar que os limites estão aí para serem ultrapassados.

Um Feliz Ano Novo a todos! Que a morte e o morrer continuem influenciando nossa vida adulta, já que parece impossível afastar tal influência. Contudo, que não seja de forma repressora ou limitadora e sim como fato inexorável que é, mas dando o tempo – que não sabemos qual é – necessário para estarmos sempre (re)començado tudo.

Boas promessas a vocês!

 

PS: esse post iniciou-se com a idéia extraída do texto da Carla Rodrigues e fluiu a partir das fotos selecionadas previamente para compô-lo, fruto de um Natal em que vi inúmeras crianças, das mais variadas idades, mostrando-me que se jogar de cabeça é assustador, mas extremamente encantador, e que as limitações que acreditamos carregar podem ser facilmente superadas.

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2 responses to this post.

  1. Posted by Dhian on 4 de janeiro de 2011 at 14:44

    A questão é que as exigências sobre os sujeitos cresceram exponencialmente. Não basta mais ser bem sucedido em uma área, mas tem que ser em todas. Profissional, social e afetivo.
    O triste é que tudo virou obrigação: amar, encantar, divertir-se.
    Chegando ao ponto de que qualquer comportamento que não seja decorrente de uma alegria eufórica ser rotulado como depressão e necessariamente medicado.
    Uma boa resolução de ano novo (talvez melhor se encaixe em “resolução de década nova”) seria possibilitar aos que nos cercam – ideal seria para todos – uma existência plena e autêntica (no sentido do psicodrama).
    P.S. Viu, demorei, mas escrevi.

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