“Eu quero te estuprar, com muito carinho; te estuprar, com muito cuidado; te estuprar, por causa da dor”

Vi ontem no twitter, principalmente no da Lola e da Maíra Kubik, alguns comentários acerca do chamado estupro corretivo e a petição on line contra sua usual prática na África do Sul. Se você, assim como eu, não sabe(ia) o que significa(va) estupro corretivo, deixe que eu explique em apertada síntese:

De acordo com o Wikipedia (odeio recorrer a isso, mas vamos lá), estupro corretivo é uma prática criminosa segundo a qual um ou mais homens estupram mulheres lésbicas ou que parecem ser, supostamente como forma de “curar” a mulher de sua orientação sexual. Mas não é só isso. Envolve dominação, violência física além do estupro em si (que já é uma das maiores agressões contra a mulher). E as mulheres – embora esses casos sejam a grande maioria – não são seus únicos alvos, mas sim todo e qualquer homossexual.

Não que eu não soubesse que esse tipo de violência ocorria, ou imaginasse que tamanha tacanhez fosse praticada. Apenas não estava familiarizada com o termo.

O cerne dessa violência está, justamente, na intolerância sexual, sendo utilizada como método de correção do homossexualismo. Correção porque não se limita à ojeriza pelas relações homossexuais. É, ao mesmo tempo, um remédio de cura e uma punição ao transgressor dos valores morais.

Não há como se negar que a violência sexual é, acima de qualquer coisa, uma arma de dominação. Afirmar que a vítima é objetizada não estaria correto, pois não é esse o intuito do agressor. Pelo contrário, busca ele, com seus atos, mostrar à vítima o quanto ela, como pessoa, é incapaz, frágil, submissa. Dominar um objeto é fácil; o desafio está na dominação do outro, do subjulgamento pela força e violência.

O estupro corretivo, mais do que qualquer outra das violências sexuais, demonstra exatamente essa tentativa de dominação dos agressores, de intolerância pelo diferente e de castigo contra os pecadores da moral e bons costumes. Frases como “ela mereceu”, pediu por isso” ou “provocou tanto que levou“, são comumente ouvidas nos discursos protetivos aos agressores.

Inúmeros são os fatores que cercam o assunto violência sexual – geralmente arraigado a muito preconceito -, além de difícil sua comprovação para as devidas consequências jurídicas. Envolve, no mais das vezes, crimes praticados em ambientes privados, longe dos olhos e/ou ouvidos de testemunhas.

Infelizmente a violência sexual não se limita aos atos atentatórios ao corpo da vítima.  A reunião dos mais variados preconceitos e esteriótipos transformam-na, no mais das vezes, na responsável pelo sofrido. Veja-se  que, por mais odioso que seja o ato praticado pelo violentador, será a pessoa – principalmente a mulher – julgada por suas atitudes, comportamento, modo de vida e como (re)agiu antes, durante e depois da prática do crime.

A legislação nacional, aliás, refletia há pouco tempo todo o machismo de nossa cultura, não se podendo afirmar, infelizmente, que a reforma pela qual passou o Código Penal – com a extração de termos como mulher honesta” – seja suficiente para modificar o senso comum.

Suportam as vítimas de violência sexual, portanto, não apenas a violência advinda de seu agressor imediato, como será, posteriormente, julgada e retalhada em sua casa, pela família, vizinhos e comunidade em que estiver inserida. No caso das mulheres, especificamente, a reação do companheiro será crucial na decisão de denunciar ou não a agressão sofrida, visto a relação de poder e posse que geralmente circunda os relacionamentos amorosos. E tal não somente nos casos em que a violência é doméstica e perpetrada por esse companheiro.

Simone de Beauvoir, no livro que mais influenciou meu feminisno – O Segundo Sexo, Vol. I- destaca: econômica e socialmente subordinada ao marido, “a ‘boa esposa’ é para o homem o mais precioso dos tesouros. Acrescenta:

Pertence-lhe tão profundamente que participa da mesma essência: ubi tu Gaius, ego Gaia; usa o nome dele, tem os mesmos deuses, ele é responsável por ela: chama-a sua metade. Ele orgulha-se de sua mulher como de sua casa, suas terras, seus rebanhos, suas riquezas, e por vezes mais ainda; é através dela que manifesta sua força aos olhos do mundo, ela é sua medida e sua parte na terra. […]. Na sociedade burguesa, um dos papéis reservados à mulher é representar; sua beleza, seu encanto, sua inteligência, sua elegância são os sinais exteriores da fortuna do marido, ao mesmo título que a carroceria de seu automóvel. […].

Mas a mulher não lisonjeia apenas a vaidade social do homem; ela lhe dá também um orgulho mais íntimo; ele se encanta com o domínio que tem sobre ela; […]. ( p. 229).

Nossa estrutura social patriarcal, com base na repressão da sexualidade feminina, fundamenta a estigmatização da mulher que sofre violência sexual, transformando-a em culpada pelo abuso sofrido:

O “destino anatômico” do homem é, pois, profundamente diferente do da mulher. Não o é menos a situação moral e social. A civilização patriarcal votou a mulher à castidade; reconhece-se mais ou menos abertamente ao homem o direito a satisfazer seus desejos sexuais ao passo que a mulher é confinada no casamento: para ela o ato carnal, em não sendo santificado pelo código, pelo sacramento, é falta, queda, derrota, fraqueza; ela tem o dever de defender sua virtude, sua honra; se “cede”, se “cai”, suscita o desprezo; ao passo que até na censura que se inflige ao seu vencedor há admiração. […]. “Consistindo o ato gerador na ocupação de um ser por outro, escreve Brenda (Le Rapport d’Uriel), impõe por um lado a idéia de um conquistador e por outro de uma coisa conquistada. Por isso, quando tratam de suas relações amorosas, os mais civilizados falam de conquista, de ataque, de assalto, de assédio, de defesa, de derrota, de capitulação, moldando nitidamente a idéia de amor na idéia de guerra. Esse ato, comportando poluição de um ser pelo outro, impõe ao que polui certo orgulho e ao poluído, ainda que anuente, alguma humilhação”. Esta última frase introduz um novo mito, o de que o homem inflige uma mácula à mulher. […]. Na realidade, a situação privilegiada do homem vem da integração de seu papel biologicamente agressivo em sua função social de chefe, de senhor; é através dessa situação que as diferenças fisiológicas adquirem todo seu sentido. Por ser, neste mundo, soberano, o homem reivindica como sinal de sua soberania a violência de seus desejos; […]. (BEAUVOIR, Vol. II, p. 212-213).

O Poder Judiciário, e todas suas câmadas que o formam e lhe dão apoio, iniciando-se nas Delegacias (que, embora especializadas, ainda ineficazes e violentadores dos direitos femininos), é absurdamente ineficaz nas medidas que lhe competem sobre o assunto. A jurista Vera Pereira Regina de Andrade, da UFSC, bem abordou o assunto no artigo A Soberania Patriarcal: O Sistema de Justiça Criminal no Tratamento da Violência Sexual Contra a Mulher:

Isto porque se trata de um subsistema de controle social, seletivo e desigual, tanto de homens como de mulheres e porque é, ele próprio, um sistema de violência institucional, que exerce seu poder e seu impacto também sobre as vítimas.

E, ao incidir sobre a vítima mulher a sua complexa fenomenologia de controle social, que representa, por sua vez, a culminação de um processo de controle que certamente inicia na família, o SJC [Sistema Judiciário Catarinense] duplica, ao invés de proteger, a vitimação feminina, pois além da violência sexual representada por diversas condutas masculinas (estupro, atentado violento ao pudor, etc.), a mulher torna-se vítima da violência institucional plurifacetada do sistema, que expressa e reproduz, por sua vez, dois grandes tipos de violência estrutural da sociedade: a violência das relações sociais capitalistas (a desigualdade de classe) e a violência das relações sociais patriarcais (traduzidas na desigualdade de gênero) recriando os estereótipos inerentes a estas duas formas de desigualdade, o que é particularmente visível no campo da violência sexual.

A passagem da vítima mulher ao longo do controle social formal acionado pelo sistema de justiça criminal implica, nesta perspectiva, vivenciar toda uma cultura da discriminação, da humilhação e da estereotipia. Pois, e este aspecto é fundamental, não há uma ruptura entre relações familiares (Pai, padastro, marido), trabalhistas ou profissionais (chefe) e relações sociais em geral (vizinhos, amigos, estranhos, processos de comunicação social) que violentam e discriminam a mulher, e o sistema penal que a protegeria contra este domínio e opressão, mas um continuum e uma interação entre o controle social informal exercido pelos primeiros (particularmente a família) e o controle formal exercido pelo segundo.

O julgamento de um crime sexual resume-se no confronto entre violentador e vítima. O comportamento e a vida pregressa desta serão analisados. É onde estará em jogo, para a mulher, a sua inteira ‘reputação sexual’ que é – ao lado do status familiar – uma variável tão decisiva para o reconhecimento da vitimação sexual feminina quanto a variável status social o é para a criminalização masculina. E:

Ora, se o conjunto probatório se reduz, muitas vezes, à própria palavra da vítima, então está a se exigir que sua palavra seja corroborada por sua vida pregressa, por sua moral sexual ilibada, por seu recato e pudor. Existindo ou não laudo pericial, ou ainda prova testemunhal, mesmo em situações de flagrante delito, a palavra da vítima perde credibilidade se não for ela considerada ¿mulher honesta¿, de acordo com a moral sexual patriarcal ainda vigente no SJC. […].

Ao tempo em que a vítima é julgada pela sua reputação sexual, é o resultado deste julgamento que determina a importância de suas afirmações.

Tais são as motivações latentes e reais da sentença que, integrando o senso comum judicial, decisivamente as condicionam, funcionando como mecanismos de seleção que, todavia, não se revelam como tais na sua fundamentação formal (onde aparece a técnica jurídica com seus conceitos dogmáticos).

[…].

O que ocorre, pois, é que no campo da moral sexual o sistema penal promove, talvez mais do que em qualquer outro, uma inversão de papéis e do ônus da prova. A vítima que acessa o sistema requerendo o julgamento de uma conduta definida como crime – a ação, regra geral é de iniciativa privada – acaba por ver-se ela própria ¿julgada¿ (pela visão masculina da lei, da polícia e da Justiça) incumbindo-lhe provar que é uma vítima real e não simulada.

Tem sido reiteradamente posto de relevo como as demandas femininas são submetidas a um intensa hermenêutica da suspeita, do constrangimento e da humilhação ao longo do inquérito policial e do processo penal que vasculha a moralidade da vítima (para ver se é ou não uma vítima apropriada), sua resistência (para ver se é ou não uma vítima inocente), reticente a condenar somente pelo exclusivo testemunho da mulher (dúvidas acerca da sua credibilidade)

Em suma, as mulheres estereotipadas como desonestas do ponto de vista da moral sexual, inclusive as menores e, em especial as prostitutas, não apenas não são consideradas vítimas, mas podem ser convertidas, com o auxílio das teses vitimológicas mais conservadoras, de vítima em acusadas ou rés num nível crescente de argumentação que inclui ela ter ‘consentido’, ‘gostado’ ou ‘tido prazer’, ‘provocado’, forjado o estupro ou ‘estuprado’ o pretenso estuprador. Especialmente se o autor não corresponder ao estereótipo de estuprador. (ANDRADE, Vera).

Voltando à questão do estupro consentido, se você acha que isso é mais uma daquelas atrocidades que ocorrem em países africanos e, portanto, bem longe do Brasil, fique sabendo que se trata de prática comum – e organizada – por aqui também, como bem retrata o texto que a Lola e a Ana Rute tuitaram hoje. Prática, aliás, que conta com universitários entre seus integrantes, o que afasta qualquer eventual discurso do “isso só ocorre nas regiões afastadas repletas de iletrados“.

Bem sei que a validade jurídica de petições on line como a que está rolando contra o estrupo corretivo é extremamente questionável, mas sua importância social é inenarrável. Somente as vozes repetidas contra essa violência descomunal é capaz de trazer um pouco de mudança sobre o assunto. Se você também acredita que algo deva ser feito contra tanta barbárie, perca 1 minutinho assinando também.

Reconhecer o problema – principalmente que não estamos livres de nos deparar com algo assim em nossa própria rua -, bem como nossa parcela de responsabilidade para com ele, é o primeiro passo para mudarmos esse cenário.

 

PS1: O título deste post corresponde a trecho da música Estupro com carinho, da banda Os Cascavelletes. Gosto de intitular meus posts com trechos de músicas, mas confesso que não esperava encontrar nenhum relacionada a estupro, quem dirá com esse nome. No final, deu o tom irônico necessário a contrastar com o texto.
PS2: Muitas das fotos constantes neste post foram tiradas na Terceira Parada da Diversidade de Florianópolis (maio de 2008). Coroam o texto porque representam, igualmente, a luta contra a intolerância e pela liberdade sexual.
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11 responses to this post.

  1. Posted by Amanda on 27 de janeiro de 2011 at 18:41

    Nossa Mi!
    Adorei o texto e nem sabia que existia esse lance de “estupro corretivo”.
    Não sei como ainda me surpreendo com tanta ignorância desse mundo!
    Lamentável!

    Beijos.

    PS: eu sempre leio seus posts, só não comento! 😛

    Responder

    • Posted by Michele M Xavier on 27 de janeiro de 2011 at 22:17

      hahahah. Eu sei que a senhorita é uma das poucas leitoras cativas aqui deste blog. E agradeço por isso.
      Mas pode comentar mais, viu?

      Realmente é um assunto muito delicado esse e espantoso que ainda aconteçam coisas assim em pleno 2011.
      Lamentável é pouco para isso.

      Beijos

      Responder

  2. Posted by Cristina Oliveira on 8 de fevereiro de 2011 at 08:47

    Não sou “feminista” pelas mesmas razões que me levam a não ser “machista” e o feminismo hoje é visto pela grandiosa maioria, apenas como algo menor ou de igual teor e portanto, sem surtir o efeito que já teve um dia, no passado. Desse modo, fica claro para mim que há determinadas linhas de condutas que precisam se modificar conforme o tempo passa, sob pena de acabarem se tornando lugar comum e o feminismo hoje é o mesmo que chuva caindo no molhado. Foi extremamente importante nas décadas passadas e a partir de seu surgimento, mas não acredito que esse movimento hoje tenha mais a mesma força de negociação ou de convencimento com emoção, uma vez que tornou-se ultrapassado em razão da própria evolução de costumes e valores, mas sou extremamente adepta da defesa da liberdade de escolha e dos direitos de igualdade de forma ampla e irrestrita. O que é preciso ser feito e com a máxima urgência, é a busca por novas mídias, novas atitudes e posturas, diante de casos feito esse [e outros tantos], como forma de alcançarmos a comoção generalizada para casos intoleráveis nos dias de hoje e em qualquer tempo.
    Não sou uma estudiosa no assunto, mas sou muito observadora e definitivamente o ser humano precisa muito se apoiar na fragilidade do outro para tornar-se forte e a força bruta, a medida de poder de ataque físico, é no meu entender uma das formas de instituição assegurada para quem se sente de algum modo oprimido e vê no outro uma ameaça e uma maneira de fazer valer sua raiva contida, por vezes desconhecida até por ele mesmo. Quem está bem consigo mesmo, está de bem com o meio que o cerca, independente das diferenças, sendo elas quais forem e do tipo que for. Isso quer dizer que alguém que se sente no direito de invadir, de prejudicar, de machucar, uma mulher, homem ou outro animal qualquer e com o uso da força física, fazer com que a vítima se submeta aos seus desejos pessoais, é alguém de fato e comprovadamente muito fraco, que precisa de força para o convencimento que além de não lhe dizer respeito, poderia ter sido trocado pelo uso de outras formas de manifestação bem mais produtivas. Atitudes permeadas de maldade não estão ligadas somente ao grau de informação intelectual do indivíduo e sim, ao grau de maldade que ele trás consigo e por vezes faz questão de expressar e fazer valer… No entanto nunca estaremos livres da força e do terror que ronda nossas vidas e a vida de modo geral. Tampouco estaremos livres dos homens machistas, enquanto as próprias mulheres – feministas ou não – criarem seus filhos sob critérios arcaicos e com o nível da irresponsabilidade escamoteada na liberdade absoluta e sem limites, como já falamos em um post passado (teu priminho e suas birras!!!), postado aqui. Nem tão lá e nem tão cá, é a busca por uma medida ideal, onde o feminismo passado serviu para que hoje seja possível ver com outros olhos, os muitos erros cometidos, pelos dois lados, ainda que um seja sempre o mais punido, uma vez que não dispõe da força física para usar como defesa. Mas possui outras armas e com certeza elas são extremamente muito mais valiosas para produzirem um mundo melhor, com pessoas melhores, com valores muito mais criteriosos e construtivos e essa educação tem peso grande e está em grande parte, nas mãos das mulheres, que são mães e que necessariamente devem estar mais atentas para não colocarem em prática, a famosa frase do “faça o que eu diga e não faça o que eu faço”… Devemos ser sempre o que fazemos e jamais devemos fazer por fazer.

    E por fim, as manifestações com assinaturas são extremamente positivas em grande parte do mundo civilizado e temos visto isso através das inúmeras conquaistas de empresas sem fins lucrativas que se empenham em angariar adeptos pelo mundo para causas sérias que vão desde o apedrejamento de mulheres no Irã (coisa mais medievel…), até o convencimento das grande potências para a continuidade da proibição da caça às baleias em águas internacionais. Eu sou uma que voto sempre, por saber que assinaturas possuem muito peso sim (como no caso da farra do boi que apresentei um pacote com mais de um metro cúbico de folhas de papel almaço contendo assinatura e números de documentos, equivalente a bem mais de 55 mil adeptos à causa… Muito para a época, sem internet e num curto espaço de tempo) e até mesmo aqui no Brasil, onde caminhamos sempre a passos miúdos quando o assunto é proteção ambiental, vida animal e respeito às diferenças.

    É preciso mudar e ela começa no olhar…

    Beijo!
    Cris

    Responder

    • Cristina, no que tange às petições online, minha crítica foi apenas quanto ao fato de que não são reconhecidas “legalmente”. Mas, com certeza, não há como negar sua importância e força política nos dias atuais. Não podemos, contudo, ignorar o fato de que simples dados inseridos na internet, sem possibilidade de verificação de sua origem, não serão (nem podem) ter a mesma validade de um documento assinado realmente (e não virtualmente) pelas pessoas.
      O certo é que as petições online, como eu destaquei no post, prestam-se muito mais a fazerem barulho e atrair os olhares para os problemas, do que como documentos “legais” de luta.
      Quanto ao feminismo, tenho que discordar.
      O discurso do “hoje não precisamos mais disso” é mais uma forma de mascarar e negar os problemas latentes, não só do nosso país como do mundo em geral.
      Só para elucidar o caso com assunto similar (de preconceito), há anos os negros lutam para que se reconheça que este é um país racista. E por que? Não que estejam felizes ou orgulhosos com essa situação, mas porque somente quando o problema é reconhecido é que se torna possível combatê-lo.
      E negar que o machismo é o grande responsável por toda violência dirigida às mulheres diariamente é mascarar a realidade e afastar o problema de seu foco real.
      Não sou eu falando, mas dados oficiais, que as mulheres ainda recebem menores salários, ainda são relegadas a cargos considerados de menor “complexidade” e “responsabilidade”, sendo um marco histórico importantíssimo – que muitos fazem questão de negar e xingar as feministas, como eu, de chatas e retrógradas – a eleição da primeira Presidenta. E sim, com um “A” no final, insurgindo-se contra aqueles que, além de tudo, negam o caráter machista de comentários como “PresidentA é um termo feio, não deveria ser utilizado”.
      Quando falo do feminismo e orgulho-me de me intitular feminista (sem aspas delimitando esses termos), principalmente quando abordo o assunto em meu blog, o faço respaldada não só no conhecimento empírico adquirido, como também pelos inúmeros estudos, livros e blogs que leio sobre o assunto.
      O problema das pessoas, em relação ao feminismo, está no fato de ignorarem o que isso realmente significa e quais os ideais das pessoas que hoje ainda assim se intitulam.
      Discursos vazios e desarrazoados, que desqualificam a luta das feministas como “são machistas ao revés”, demonstram o desconhecimento das pessoas sobre a questão.
      E se necessário chover no molhado, como você destacou no início do seu comentário, que assim façamos. Nunca uma grande transformação social e quebra de preconceitos foi possível sem muito alarde.
      Jogar a violência contra a mulher na “vala comum” das agressões é, como já ressaltei, mascarar os reais problemas pelos quais as mulheres se veem envoltas, dificultando ainda mais a luta contra tal.
      O caso a que me referia no post é uma demonstração clara disso. Ainda que se refira ao preconceito sexual, trata-se de prática eminentemente direcionada às mulheres. Negar a carga de gênero que ronda, ou melhor, que embasa e sustenta a prática desses atos é demasiado ingênuo.
      Ademais, as psicopatologias também não podem servir como mascaramento desse problema. Dizer que um homem violento, que espanca sua mulher, é alguém que faria isso com qualquer outra pessoa, inclusive homens, pois “doente”, não apenas é generalização como vai de encontro a todas as estatísticas sobre o assunto. Sabido que o homem que violenta (lato sensu) uma mulher pouco ou quase nunca possui esse mesmo comportamento fora de casa, em seu ambiente de trabalho e, principalmente, com outros homens.
      O que se precisa observar – e nem sempre é fácil, reconheço – é que o discurso que tenta “matar” o feminismo ou igualá-lo ao machismo não é apenas ignorante, como também extremamente machista.

      Bem, esse é um assunto que muito me atrai e aflora meu lado mais passional. Mas preciso trabalhar e, por isso, encerro aqui minhas colocações.
      Mas, caso te interesse, indico o blog de uma grande jornalista – feminista – que traz importantes dados e discussões sobre o assunto:
      http://carlarodrigues.uol.com.br/index.php/1777
      http://carlarodrigues.uol.com.br/index.php/1785

      Espero que goste.
      Beijo.

      Responder

  3. Posted by Cristina Oliveira on 8 de fevereiro de 2011 at 12:21

    Vivi muito do movimento feminista e fui eu mesma, uma lutadora a favor dele, do FEMNINISMO, mas as coisas evoluem e ser femista hoje, para mim, é algo que não cabe mais nos moldes que o movimento nasceu, floresceu e cresceu, especialmente nas décadas de 1960 e 1970. Isso não quer dizer que as conquistas em termos de ganhos para a igualdade e equilíbrio entre homem e mulher, devem parar, pois estamos longe de uma condição onde seja possível a comparação equlibrada em quase tudo que envolve os dois sexos e tampóuco existe equilíbrio com relação ao homem X meio ambiente ou vida animal de modo geral. É claro que sabemos e eu sei muitíssimo bem, das desigualdades entre os sexos em diferentes setores, mas não acredito que o feminismo como ele nasceu e gerou inúmeras mudanças positivas na época, possa trazer hoje resultados no mesmo nível anterior e para mim, quando digo não sou “feminista”, refiro-me a algo que pode ser entendido quase que como um partido político. Eu sou filiada ao PV, mas isso não implica em dizer que eu sou adepta de todas as idéias, ideias e ações do partido que no meu entenbder por inúmeras vezes visa muito mais o cunho político do que o ambiental, o que não tem sentido para mim. Embora eu tenha votado na Marina, eu fui contra a permanência dela no muro para o segundo turnop e não deixei de falar que não aprovei tal atitude, mesmo dentro do próprio partido. E é nessa mesma linha que me refiro ao feminismo e desse mesmo modo é que eu não me vejo mais como uma pessoa atuante no feminismo – exclusivamente – e sim, pelos direitos de igualdade, sem de modo algum ter de ser isso ou aquilo, por não ver mais sentido algum em ser algo fixo, taxado, nomeado, firmado em estatutos de conduta e também por considerar mesmo que há outros modos bem mais atuais de fazer valer esforços e buscas pela igualdade e isso deve e tem de continuar, tal e qual devemos estar atentos para todo tipo de exploração, de violação, de punição tão comuns hoje como sempre foi, mas escamoteado em muitas formas de ações que na maioria das vezes as próprias vítimas nem se dão por conta. É claro que sei que há ainda imperando no mundo, uma soberania silenciosa do macho sobre a fêmea, mas há também a mesma soberania do humano sobre as outras espécies e por aí vai… humanamente fria e absoluta. Isso no entanto não quer dizer de modo algum que eu aprove tais comportamentos, mas também não vejo mais sentido nas técnicas feministas de outrora, aplicadas na atualidade e como sendo algo inovador, para sermops atuantes. Não nessas velhas conhecidas e já cansadas fórmulas e essa é a minha opinião, calçada em muita leitura e vivência, também. Se me conheceres melhor, verás que me enquadro sem arestas no movimento, mas não sou pessoa que fica no espaço sem questionar e ser feminista hoje, com o uso da palavra e nos termos onde ela se molda, não é algo que eu me sinta confortável. Sou sim a favor de todas as lutas por igualdade, sem ter de taxar com nomes. Sou contra as injustiças gerais e não me cabe lutar somente por fêmeas, sejam elas da espécie que for e sim, por condições, onde nelas estão inseridas pessoas, animais, meio… Não me refiro de modo algum ao conteúdo da questão, mas sim no modo como ele é levado, conduzido atualmente, que precisa ser revisto, por considerá-lo estagnado e sem muita voz e isso hás de convir comigo que é verdadeiro, pois diante de tantos meios de comunicação e formas de reeducação, o movimento já se esvaiu e isso prova que necessariamente a estratégia precisa ser revista. Não basta ser. É preciso perceber, também, pois isso é o que faz de um ativista, um diferencial entre muitos participantes de um mesmo objetivo. Há que mudar??? Sim. Disso não há o que ser questionado, mas as armas e estratégia estão erradas, para tempos errados e reconhecidamente arcaicas. Não sou contra, uma vez que sempre há muito a ser feito, mas não me posiciono mais como feminista faz muito tempo, por não ver mudanças substanciais nos atos, atualmente, a não ser o levantar da bandeira, coisa que para mim pouco ou nenhum efeito surte além do que naturalmente iria surtir sendo ou não feminista.

    “O problema das pessoas, em relação ao feminismo, está no fato de ignorarem o que isso realmente significa e quais os ideais das pessoas que hoje ainda assim se intitulam”.

    Não ignoro o que significa ser feminista e tenho idade e conteúdo bastante que me garantem um bom conhecimento da causa. Quando digo que não sou mais feminista, digo isso calçada em experiências que me levaram a acreditar que tudo evolui e se algo mantem-se estagnado e com os mesmos discursos, torna-se velharia e acaba caindo no esquecimento. Há que sofrer reformulações. Há que evoluir e em muitos sentidos e por essa razão é que não me vejo como sendo uma feminista e sinceramente, hoje, como vem sendo aplicada por muitas pessoas, a palavra contendo tantas coisas sérias acaba por silenciar-se, pois fica limitada às próprias feministas e não é para elas que o contéúdo deve ser gritado… O grito é para outros e esses outros, não ouvem nada que é dito nesse tom!!! Percebes???

    Beijos!!!

    Cris

    Responder

  4. Posted by Cristina Oliveira on 8 de fevereiro de 2011 at 12:23

    Um aviso:

    Ao clicar nos links que deixastes, aparece uma ameaça de vírus. Não sei a razão, mas não vou mais tentar.
    Beijo,

    Cris

    Responder

    • O Blog da Carla Rodrigues sofre com esse problema e também não entendo a razão. Mas não se preocupe que não se trata de vírus. Apenas alguns browsers acabam trazendo essa suspeita, mas eu nunca tive problema. Aliás, é um blog hospedado no UOL e sua escritora um renomada jornalista, mestre e doutora em Filosofia pela PUC/Rio.
      Entendo suas colocações, Cristina. Mas, primeiramente, há de se ter em mente que você está limitando o movimento feminista àquelas (e provavelmente apenas a uma pequena parcela dele) teorias dos anos 60 e 70 que, ainda que não desconsideradas, sofreram grandes modificações desde então.
      Dizer que o feminismo está estagnado desde então transparece-me que você não tem lido muito sobre o assunto nas últimas duas décadas.
      Importante destacar, igualmente, que há uma diferença gritante entre política e politicagem, sendo que a primeira não se limita a partidos políticos. O movimento feminista, assim como qualquer outro movimento contra/a favor do aborto, quanto a questões raciais e sexuais, em defesa dos animais e, até mesmo, uma decisão pessoal de vegetarianismo são, sim, questões e opções políticas. Talvez o conceito de política que você estivesse se referindo fosse restrito. Porém, nesse caso, reducionismo e leviandade reduzir o feminismo a isso.
      Achar que feministas querem “exterminar” com os homens ou interessam-se tão somente por seus umbigos é um imenso equívoco.
      O movimento feminista sempre esteve ao lado de diversos outras lutas, seja dos direitos dos trabalhadores, contra o racismo e a homofobia e, com certeza, de defesa dos direitos dos animais (e ambientais como um todo). Mas nem por isso deve perder o seu foco (como todos os grupos citados) de qual sua principal luta. A especificação de um tema não diminui um movimento. Pelo contrário, presta-se justamente a lhe dar foco e fortalecer sua luta.
      Eu realmente não entendi quais argumentos e quais “armas” você considera que estão estagnados no feminismo.
      Dizer que o discurso continua o mesmo é falacioso, até porque o movimento sempre teve diversas ramificações, com maior ou menor extremismo. Mas uma coisa que não se pode negar é que a luta (contra o que se luta) continua sendo contra os mesmos preconceitos.
      Tivemos algumas conquistas? Com certeza, mas dizer que o cenário mudou e que o feminismo perdeu sua razão de ser é voltar a negar o papel secundário relegado às mulheres na sociedade.

      Queria discutir mais o assunto, mas o trabalho não me permite discorrer mais sobre o assunto.

      Responder

  5. Posted by Cristina Oliveira on 8 de fevereiro de 2011 at 15:54

    Não, não… Estás entendo atravessado e de fato esse meio de comunicação deixa margens para interpretações duvidosas, especialmente quando se trata de pessoas, como eu, por exemplo, que ando sempre remando na contra mão ou contra a maré…
    Não sou uma pessoa ignorante, nem nesse assunto e nem em outros tantos, especialmente por estarem ligados diretamente na minha área de atuação, que é a da cultura. Tenho um conhecimento geral conscistente e muitas horas de leitura e buscas por informações atualizadas. Minhas limitações existem, é lógico, mas sei que meu QI, minha curiosidade, minha formação e minha vontade de busca pelo novo, me garantem a possibilidade de entendimento de uma série de assuntos e esse é um deles.
    É claro e evidente que o movimento sofreu modificações no decorrer dos anos depois de 60 e 70… Isso está implícito, mas ainda assim para mim é algo que corre atrás… Vem depois… Deixa a desejar… Acho que só conseguirei te explicar olhando nos teus olhos, gesticulando e não tendo de me limitar aos espaços e nem em palavras… Não estou me posicionando contra o conteúdo em si e sim com a fdorma como ele é alavancado e exposto, que já não cabe mais, por estarmos vivendo em outros tempos e ser femista para falar para feministas, é o mesmo que não ser nada. O que precisamos entender é que usando-se a palavra que for para denoiminar um feito, a causa precisa sim surtir efeito e comprovadamente o método que vem sendo aplicado hoje, corre atrás…

    Mas vamos deixar para uma outra hora. Tens de trabalhar e eu também tenho de fechar a edição do Suplemento Brasil desse mês de Fevereiro e que aliás, eu recomendo que seja lida, mês a mês. Deixo-te aqui o endereço e se puderes, vejas nossa edição especial de Janeiro, com o Araquém Alcântara. Trabalhei com ele lá em 86, na revista Mares do Sul e tive o prazer de tê-lo novamente agora, passados tantos anos.

    http://feedbr100.blogspot.com

    Beijo,

    Cris

    Responder

  6. Posted by Cristina Oliveira on 9 de fevereiro de 2011 at 11:41

    Pois… agradeço-te pelos votos de uma boa semana e retribuo em dobro. Eu bem que estou precisando mesmo que minha saemana corra deslizante… Ufa!!!
    Beijo,
    Cris

    Responder

  7. […] da Imagem: Soberbas Amenidades. This entry was posted on 0, 2 2UTC outubro 2UTC 2012 at 21:50 e publicado em […]

    Responder

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