“E depois da surra que eu recebi, descobri que aquela nega era um travesti”

Estava lendo os blogs que assino, via Google Reader, quando me deparei com a seguinte notícia: Você tem um namorado moreno e gato? A Ariadna do BBB11 tem… [Ariadna, para quem não sabe, é uma ex-participante do BBB11 (em curso) que realizou uma cirurgia de mudança de sexo, retirando o órgão sexual masculino e o transformando em feminino].

O blog presta-se a falar, conforme definição de seu próprio autor, sobre o melhor e o pior do mundo pop e, ainda que diversas vezes seus textos estejam arraigados em preconceitos, raramente ali me deparei com o preconceito sexual. Acredito que os próprios comentários existentes no blog, oriundos dos leitores habituais, confirme essa minha impressão, como:

ela não é “homem/mulher”, é MULHER porque fez mudança de sexo completa e quer ser vista, tratada e aceita como MULHER.
piadinha fraca com o parceiro dela e mudança de sexo, é tipo aquelas pessoas que apontam e riem de qualquer coisa diferente, provincianismo puro. (sic)

E:

Translover está certo(a), piadinha e post infame Papel Pop, vcs não sao a Katylene que TEM que fazer piada de tudo, limitem-se a dar a noticia please. É melhor! (sic)

E:

A piadinha do “homem/mulher” não poderia ter sido mais desnecessária. Pareceu que eu estava ouvindo as tiazonas aqui do escritório falar.

Confesso que, apesar do espanto inicial – tantas pessoas questionando a atitude preconceituosa do autor do blog, coisa não muito comum quando se trata de notícias ligadas aos não heteressexuais -, fiquei feliz ao perceber que o público que lê o mesmo conteúdo que eu é, ao menos parcialmente, menos preconceituoso que a sociedade em geral.

No site Ego, de onde a notícia foi retirada, o texto busca se mostrar sem preconceitos, muito embora o subtítulo faça referência expressa ao termo transexual. Não estou negando o fato de Ariadna ter realizado mudança de sexo; minha insurgência é quanto à necessidade de se colocar essa informação na notícia, principalmente se o foco principal é informar que a pessoa em questão possui um namorado. Nem preciso dizer que, fosse com qualquer heterossexual, tal fato não seria destacado na notícia como se relevância tivesse.

Aliás, em um conceito lato sensu, creio que não estaria errada se afirmasse que Ariadna, assim como a maioria dos transexuais (confesso que nunca ouvi falar de casos contrários), são heterossexuais. Corrijam-me se estiver equivocada, mas ao contrário dos travestis, que gostam de se vestir como mulheres e nem sempre são atraídos por pessoas do mesmo sexo, o transexual é aquele que se sente mulher, mas nascido no corpo de homem, por essa razão a cirurgia corretiva é tão almejada e concretizada. Partindo-se dessa presima, portanto, sendo o transexual alguém que se sente mulher, realizando cirurgia corretiva ou não, seu desejo sexual por homens a inclue no conceito de heterossexual. Ou não?

Afinal, o que define o ser mulher?

Como bem já destacava Simone de Beauvoir, no fabuloso livro O Segundo Sexo, Vol I: Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico, define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Só a mediação de outrém pode constituir um indíviduo como outro.

Deixando essa discussão de lado e retornando o ponto que deu origem a este post, o que eu gostaria de argumentar é sobre a necessidade imperiosa de se analisar/citar todos aqueles que não heterossexuais sob o ponto de vista sexual. Não que seja diferente quando o assunto é aquilo que foge do chamado padrão: sempre utilizado como marca/estigma do objeto alvo. Exemplificando: um homem heterossexual, do outro lado da rua, é apontado por um grupo, quando a ele se referem, como aquele homem lá. O homossexual será indicado como aquele gay parado ali, como se homem deixasse de ser. O mesmo no que tange aos negros, aos anões, aos deficientes físicos, àqueles com peso acima do tolerável (principalmente se mulher) e assim por diante.

Apesar disso, parece-me que o transexual, ao contrários dos travestis, são ligeiramente melhor aceitos pela sociedade – vide os comentários naquele blog do início do post, em que o uso lá da expressa mulher/homem gerou a grande represália por parte dos leitores -, já que vistos como doentes, em uma condição da qual não podem se contrapor.

Mario Felipe de Lima Carvalho, no texto Que mulher é essa? Uma encruzilhada identitária entre travestis e transexuais, traz essa diferenciação entre travestis e transexuais, sendo os primeiros vistos como pervertidos, ao passo que os segundos como portadores de problemas psiquiátricos:

Atualmente podemos perceber uma distinção na origem da atribuição do desvio entre travestis e transexuais. Enquanto as primeiras são pervertidas a partir do olhar moral da sociedade, as segundas são incorporadas numa categoria médico psiquiátrica. É evidente que a incorporação dos diferentes rótulos na construção da identidade tem suas repercussões e possivelmente constituirá trajetórias distintas. Ser um desviante moral, como no caso de travestis, implicará no manejo e na negociação constante com a oficialidade e a constituição de redes sociais associadas a marginalidade. Enquanto, ser um desviante “mental”, como no caso de transexuais, implicará numa incorporação total ou parcial da medicalização de sua vivência de gênero que provavelmente passará por um processo de construção identitária vinculado aos saberes e práticas médicas.

Também devemos ter em mente que ao ser identificado com desviante, uma série de impedimentos sociais podem ser colocados ao indivíduo. São inúmeros os relatos de travestis e transexuais que abandonam a escola devido ao preconceito e à violência, não havendo nenhuma relação direta entre travestilidade e incapacidade de ter uma instrução formal. Além da grande dificuldade de se ter um emprego formal ou ter acesso a serviços públicos sem passar pelo constrangimento de ser chamada por um nome no qual não se reconhece e que, além disso, a reinscreve no lugar do desvio.

Continua o autor:

Serão, então, inúmeros mecanismos sociais que estarão em ação para construir essa nova pessoa a partir da identidade desviante atribuída. Dependendo do desvio e do contexto social, será o saber médico, psiquiátrico e psicológico que lhe atribuirá o lugar de doente, ou a autoridade jurídica que lhe penalizará como criminoso, ou as autoridades morais que lhe sentenciarão como pervertido. É possível, inclusive que vários desses mecanismos atuem simultaneamente sobre o indivíduo, como a travesti ou a transexual prostituta que tem sua vivência de gênero patologizada, seu trabalho “criminalizado”3 e sua imagem vista como uma agressão “à moral e aos bons costumes” da nossa sociedade.

Perceptível que no seio da sociedade o preconceito sempre tenda a ser menor – muito embora caminhe-se muito mais para o lado da condescendência do que da própria aceitação e respeito – quando o diferente decorrer de uma condição (ou assim se acreditar) da qual não se pode fugir. O que, ao revés, intensifica-se quando o contra os padrões morais/sociais for reconhecido como uma opção. Por isso tamanha ojeriza aos obesos (ou qualquer pessoa levemente acima do peso), aos com pequenos defeitos estéticos passíveis de correção via cirurgia plástica e assim por diante.

Não sou adepta da corrente que defende a homossexualidade como uma condição biológica, muito menos admito o entendimento de que passível de transmissão genética. Coaduno-me, sim, com as teorias psicológicas que defendem a sexualidade como uma opção – claro, sem negar toda a influência social, familiar e psicológica -, negando, aliás, essa necessidade de se rotular as pessoas como isso ou aquilo (homossexuais, heterossexuais, bissexuais etc.).

Comecei o post falando de uma coisa e acabei encerrando em outra, mas o que me incomoda é a impossibilidade de aceitar as diferenças, principalmente quando tidas como escolhas dos desviantes. Se Ariadna compreende-se como mulher, realizou uma cirurgia para exteriorizar essa questão e, aparentemente o mais importante para os noticiários, possui um namorado, nos incumbe respeitar cada um desses fatos. Se o preconceito contra ela, enquanto transexual, é menor se comparado, por exemplo, aos travestis que se envolveram com o jogador de futebol Ronaldo (e a ele, pelo acontecimento), não significa que inexistente.

Como diz aquela letra de música, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é… Mas ainda nos é dificultoso aceitar que o outro pode ser feliz mesmo indo de encontro aos padrões que consideramos adequados.

 

PS: o título deste post é um trecho da, de péssimo gosto (para não dizer outra coisa), música O Travesti, da Companhia do Pagode. O pior foi verificar, ao procurar por músicas com essas referências, “músicas” como esta.
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2 responses to this post.

  1. Posted by Sâmia on 11 de fevereiro de 2011 at 01:13

    Mi:
    Extremamente oportuno o seu post. Concordo com a sua visão.
    Gostaria de complementar com o que eu chamo de “preconceito ao contrário” (se é que alguém ainda não inventou termo mais adequado).
    São aquelas pessoas que para deixar BEM claro que “não são preconceituosas” falam coisas como:
    “-AMO gays! São os melhores amigos que uma mulher pode ter!”
    ou
    “-Eles são muito mais esforçados que os héteros, pois precisam provar para a sociedade o seu valor”
    Pois eu concordo com você exatamente porque a sexualidade de cada um é algo íntimo, e não deve ser pré-requisito para amizades, contratações, etc.
    O que eu quero dizer é que gosto de pessoas que considero ter bom caráter. É isso. Se é mau caráter, não importa se é hetero ou homossexual, transexual, travesti, celibatário.
    Devemos valorizar as qualidades de uma pessoa e a sexualidade delas não nos diz respeito.
    Um beijo!!

    Responder

    • Pois é, Sâmia.
      Ussa essa mesma lógica para as pessoas idosas. Óbvio que merecem nosso maior respeito, até porque já passaram por muitas coisas que ainda nem sonhamos passar. Mas nem por isso significa que idoso é sinônimo de santo. Como já dizia aquela frase, que não recordo de quem é: os pulhas também ficam velhos.
      Mas voltando ao texto, minha máxima é esta: parassemos de cuidar da vida alheia, aceitando e respeitando as escolhos do outro, a vida de todos, inclusive a nossa, seria muito melhor.
      Beijos

      Responder

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