O quanto somos especiais para os outros…

Foto de Michael Bernardini

Meu nome é Michele. 30 anos. Nascida no Rio Grande do Sul. Só nasci. Nunca me senti gaúcha. Mulheres bonitas identicam o estado. Gosto, então, de ser gaúcha. Morei anos no Paraná. Sou paranaense.  Uma opção. Em Florianópolis agora. Fiz faculdade. Exerço minha formação. Gosto. Durmo muito. Menos do que gostaria. Mais do que o aceitável. Amo. Não gosto de ser acordada. Mau humor. Muito. Sou um urso. Demoro para voltar a ser eu. Preciso de tempo. Sou espaçosa. Pernas compridas. Corpo magro. Cama grande. Invado espaços. Não gosto dos meus invadidos. Tenho manias. Inúmeras. Controlam-me, não eu a elas. Inteferem em meu humor. Sou complexa, como algumas cervejas.

Tenho uma gata. Dubbel. Duplo Malte. Batizada antes de reconhecida como adoradora. Do cereal, não da cerveja. Vira-lata ou SRD. Não parece com os persas. Conhecia bem estes. É lisa. Rápida. Hiperativa. Destruidora. Comilona. Mordedora. Chorona. Enfrenta cães e gatos maiores. Irresponsável. Sente saudades. Nunca vi disso. Lambe narizes. Quaisquer. Chupa tecidos. Lembra da teta. Desmame antecipado. A rua lhe foi cruel. Adora fugir. Ironia. Sempre volta. Gosta de colo. Disputa atenção. Odeia meu smartphone. Precisa de companhia. Não gosta de comer sozinha. Precisa do contato para dormir. Bate na porta. Odeia obstáculos. Impõe seu horário. Não respeita meu tempo. Encolhe minhas pernas. Afina meu corpo. Invade espaços. Sem considerações pelos meus. Interrompe minhas manias. Interfere em meu humor. Não liga para minha complexidade.

Tenho um namorado. Guilherme. 24 anos. Catarinense. Estudante de gastronomia. Amante de cervejas. Batizou nossa gata. Faz minhas cervejas. Conquistou-me aos poucos. Esforçou-se muito. Conseguiu. Não foi só pelo estômago. O sorrisso fez um bom trabalho. Chorou na minha frente. No meu colo. Ganhou-me. Dividiu seus segredos. Tentou descobrir os meus. Apaixonei-me. Gosta de dormir. Amei. Comilão. Odeia injustiças. Defende estranhos. A vida lhe trouxe surpresas. Supera-as. Sente saudades. Não lambe narizes, mas os beija. O beija. Beija-me. Gosta de colo. Abre mão. Recebe-me no seu. Disputa atenção. Divide-me com seu smartphone. Cozinha para mim. Precisa do contato para dormir. Rouba meu lençol. Não respeita horários. Rompe os obstáculos dos tecidos. Enlaça minhas pernas. Sobrepõe-se ao meu corpo. Invade espaços. Ignora os meus. Interrompe minhas manias. Interfere em meu humor. Tenta compreender minha complexidade.

Dubbel tem fugido muito. Não admite os limites impostos pelas paredes do apartamento. A liberdade vigiada da sacada já não lhe basta. Impõe sua presença aos gatos da rua. Aos gatos dos vizinhos. Aos apartamentos vizinhos. Aos vizinhos. Come a ração dos que não suportam sua presença. Ignora os rosnares alheios. Volta para casa no colo dos vizinhos ou ao tilintar de seu pacote de ração. Não importa a ausência de fome. O tilintar é infalível. Pode ser do carro, também. O alarme é o prenúncio. Minha chegada. Sua choradeira. Muitas lambidas. Foge, mas sempre volta. Precisa do meu colo. Minha mão. Formato de um quase “O” em braile. Percorrer do nariz às orelhas. Encerra-se no pescoço. Os olhos abrem e fecham. O sono logo vem.  Exige minha presença constante. Precisa estar ao meu lado, dormindo, mesmo enquanto escrevo essas palavras sobre si. Não sabe o que são palavras. Conhece sons. Ignora a importância do computador. Pisa sobre o teclado e atrapalha meu trabalho. Caça o cursor do mouse. Consegue me irritar com frequência. Testa minha paciência. Enrosca-se em meus pés. Obriga-me a tropeçar. Gosto quando foge. Nem sempre. Desejo obscuro de que alguém a adote. Vizinhos sempre a salvam. Destróem meu sonho maléfico. Salvam meu dia. Ironia. Tiram-me da solidão da casa vazia. Arrependo-me do pensamento ruim. Descobrimos que nos amamos. Redescobrimos. Carinhos mútuos prolongados. Atrapalha meu sono. Tudo recomeça. Exige atenção. Preciso de espaço. Ocupa os meus. Empurrões. Gritos. Assusta-se com minha complexidade. Lambe meu nariz para dizer que me ama. Deixo lamber para provar que a amo.

Guilherme fugiu de casa. Não. Foi viajar. Não respeitou os limites que um namoro impõe. Morar junto lista outros tantos. A liberdade do trabalho já não lhe bastava. Precisava da presença dos amigos. Conhecidos. Desconhecidos. junta tudo com a cerveja. Ignora os que não suportam sua presença. Obstrui a visão alheia. Mais de 2m verticais. Impõe-se entre os olhares. Impossível não percebe-lo. Sua voz. Toma as bebidas alheias. Poucas vezes compartilha as suas. Ignora os rosnares decorrentes. Volta para casa no meu carro. Impreterivelmente. Tenho medo de que se perca. Outros caminhos existem. Garanto a chegada ao lar. A fome ajuda em seu retorno. Nem sempre há comida na geladeira. Há beijos. Infalíveis. Lambidas de nariz. Salve, Dubbel.  Sai. Viaja. Sempre volta. Precisa do meu colo. Minhas mãos. Meu sorriso. Exige minha presença. Atenção. Necessita de meu corpo, ao seu lado, para dormir. Percorre minhas costas com os dedos. Vira para mim as suas. Percorre a cama atrás de meus dedos. Os pés buscam os meus. Tem que conferir a presença ao seu lado. Repete. Diversas vezes. Não respeita meu espaço. Não compreende minhas manias.  Fujo do carinho. Tenho rituais. Afasto o toque. Procuro quando quero. Sou refém dos 30 minutos. Não existo antes disso. Acordar é um processo. Há regras e formas a serem seguidas. Gosto quando tenho a cama vazia. Sensação de poder. Liberdade. Ocupar todos os espaços. Nada de barreiras. Lençol inteiramente meu. Cumpro o ritual com delongas. Respeito meu (mau) humor matinal. Espreguiço-me como um polvo. Não há limites. Viro eu. Finalmente. Sinto a cama vazia. A casa privada da presença imponente. Há recados no celular. Nunca são suficientes. Nem as declarações de amor. Preciso do toque. Com a chegada tudo recomeça. Quero cumprir meus rituais sem atropelos. Enlaça minhas pernas. Impede-me de ser polvo. Mau humor. Rosnares. Respeita minha complexidade. Beija minha boca para dizer que ama. Amo. Deixo ababelar meus rituais para provar que o amo.

Hoje acordei sozinha. Não houve bater na porta. Choros inexistentes. Sem obstáculos para o lado polvo. Rituais cumpridos com vagar. Caminhar pela casa sem tropeções. Duas horas. Aparente felicidade que se desfaz. Ausência não compensada pela internet ou pelos livros. Comi sozinha. Transformei-me na gata. Preciso da companhia. Não tenho mais ursinhos para carregar comigo. Sábia felina. Esconde o companheiro para que não lhe roubem. Resgata-o nos momentos de desespero. Não pude resgatar o meu. Raiva dos cientistas. Não quero ir à Lua. Quero teletransporte. Quero minhas companhias imediatamente. Uma voltou. Tarde. Agraciou-me com seu ritual de chegada. Nariz. Lambidas, não beijos. Consolou-me, não o suficiente. Aguardo a outra. Preciso dormir. Preciso do toque. Só hoje. Porque não tenho. Amanhã reclamo. Hoje desejo.

Hoje acordei sozinha. Descobri a falta. Saudade. Descobri o que me é especial. Ganhei minha lambida no nariz. Apaziguadora. Espero meu beijo. Indispensável. Indispensáveis. Lambidas. Beijos. Toques.

Hoje acordei sozinha. (Re)descobri os que são essenciais. Refleti sobre a importância de uma lambida no nariz. Seu significado. Compreendi todo o amor que há no chacoalhar um post mix com mais de 20 Kg.

Imitando o filme: “Para Guilherme e Dubbel, obrigada por tudo! Michele.”

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5 responses to this post.

  1. A amizade é uma coisa incrível. Uma vez que nos afeiçoamos a alguém, jamais esquecemos. Lindo post amiga. Sou feliz por vc estar feliz. Saudades. Beijos.

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  2. Estou sempre precisando dela. Meu lado gato ( sou leonino) sempre fala mais alto, muito mais quando desejo a pessoa amada ao meu lado.
    Apesar dos amigos, cervejas (minhas grandes paixões) a maior paixão faz falata em momentos únicos da minha vida.
    Não vou me perder nunca e sempre retornarei pra casa.
    Tive muitos problemas em valorizar o que esta perto de mim, hj por causa dela sei o lado bom de um namoro, de uma companhia, de um simples beijo.
    Adorei seu texto e estarei sempre junto a vc e semprem te carregando junto por onde eu for.
    TE AMO

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  3. […] um tempo em que eu escrevia muito bem. Ao menos assim eu achava. Reconhecidamente melhor do que hoje, o que é uma incongruência, já […]

    Responder

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