“Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago. Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago”

Estou na batalha para assistir os principais filmes do Oscar – indicados ao prêmio de melhor filme -, pois se não o faço nessa época, em que é possível encontrá-los no cinema ou que estão na boca de todos, acabo por perder o momento e me esquecendo de fazê-lo. Cada dia fica mais difícil abrir meus blogs prediletos sem que haja algum spoiler. Não que eu me incomode em saber os finais dos filmes, mas algumas cenas acabam sendo vistas com outros olhos quando sei seu desfechos.

Nem me atrevo a prometer ver aqueles concorrentes a melhor filme estrangeiro, pois, morando em uma cidade que literalmente desconhece filmes que não blockbusters (Florianópolis/SC), sendo impossível encontrá-los mesmo quando liberados para as locadoras, nem mesmo as vias ilegais (internet, torrent etc.) ajudam.

Assisti O Discurso do Rei esta semana, ao lado do namorado e amigos, com a ressalva do colega Gustavo (que comigo trabalha) de que não gostara. Confesso que não havia lido nenhuma crítica sobre o filme e as únicas informações recebidas eram sobre o enredo (do que se tratava). Talvez porque já fui com as expectativas mais baixas – e sempre é mais fácil se surpreender com algo quando suas expectativas a respeito são baixas; assim como, ao revés, a possibilidade de desilução é maior na medida em que crescem as expectativas (mais uma das minhas teorias empíricas não comprovadas por nenhum outro meio) -, gostei do filme e, mesmo não tendo assistido os demais que compõem a categoria, ouso arriscar o Geoffrey Rush (Lionel Logue) para o Oscar de melhor ator coadjuvante.

Embora Colin Firth (Rei George VI) também esteja magnífico no papel, interpretando um gago que, com certeza, agonia todos que assistem ao filme – aquela angústia de querer completar suas frases ou um tapinha nas costas para ver se cospe as palavras como se fossem um caroço de azeitona atravessado na garganta -, não poderia fazer a mesma afirmação quanto ao prêmio de melhor ator. Talvez porque a trama se atenha pouco às reais razões da gagueira do personagem e prefira utilizar-se da comédia para destacar o tratamento para curá-la.

Esse, para mim, o talvez único problema do filme. A história, assim como todos os enredos que envolvem famílias reais, tende a grandes interpretações e permite a discussão aprofundada de diversos assuntos. E não se pode negar que Colin Firth estava preparado para encarar qualquer uma das duas, transparecendo todo o travamento de seu personagem até mesmo nos exercícios de relaxamento que este faz. Mas faltou alguma coisa no enredo para lhe permitir explorar toda sua potencialidade.

As verdadeiras razões pelas quais o Príncipe Albert tornou-se gago – muito embora diga que nasceu gago, Lionel mostra-lhe que isso não é possível, já que a primeira palavra de uma criança nunca será pronunciada de forma gaga -, desde a relação conflituosa com o pai, a amizade/disputa com o irmão mais velho e os abusos de sua babá, quando ainda bebê, são relegadas a segundo plano e surgem de maneira superficial no enredo. Ainda que importantes para seu tratamento e, portanto, abordadas pelo terapeuta Lionel, as técnicas de respiração, de fortalecimento dos músculos, de aquecimento vocal e de liberação de seus travamentos são supervalorizadas, em detrimento daquelas questões maiores que o levaram à gagueira.

O fato mais impressionante para mim – e que (apesar dos dilemas com o pai, as chacotas do irmão, a pressão pelo cargo que ocupa e que virá a ocupar), provavelmente, é o crucial para a gagueira de Albert – é a violência que sofreu nas mãos de sua babá.

xxxxxxx SPOILER xxxxxxx (aos que não assistiram ao filme e não gostam de ter antecipado nenhum fato – ainda que não seja este capaz de estragar a história -, favor pular os próximos parágrafos)

Em um pequeno trecho, enquanto conversava com Lionel e este lhe permitia colar algumas poucas partes das réplicas de um avião que decorava a mesa, Albert confessa que, quando bem jovem, era cuidado por uma babá que o beslicava toda vez que levado à presença de seus pais. Desse modo, ele chorava e era imediatamente devolvido à baba, a qual o trancava em um quarto e lhe privava de comida. Foram longos meses (e perda de muitos quilos) até que os pais percebessem o que ocorria e a mandassem embora. É nessa mesma ocasião em que relata ao terapeuta que adorava aviões, mas sua coleção era de selos, já que o pai os colecionava e obrigava os filhos a tanto.

O filme retrata justamente uma época em que os direitos infantis são relegados – criança não passa de um ser incompleto, sem direito a escolhas, ou melhor, sem direitos -, principalmente no que tange à família real e as atitudes que se exige de cada um de seus membros (quando Albert vira o Rei George VI, suas filhas curvam-se em reverência e não sabem, ao certo, se estão autorizadas a lhe abraçar, como outrora faziam). Porém, passa rasamente pelo assunto, ainda que aí estivessem os grandes dilemas que sustentam sua gagueira e o principal assunto do filme: a impossibilidade (dificuldade) de ler um discurso.

Apesar de serem pequenas as incursões sobre o assunto, o filme mostra que o abuso e a violência contra as crianças, e até mesmo o bullying (o irmão era incentivado pelo pai a debochar de Albert, como tentativa de fazê-lo se curar da gagueira), não são novidades atuais. Exatamente por isso – já que, para mim, não há dúvida de quais razões levararam Albert a ser gago – poderia ter se debruçado com mais zelo sobre tais questões, enriquecendo sobremaneira a história e os personagens.

Talvez, nesse caso, tivesse reais chances de vencer o Oscar de melhor filme. Não digo que não vá ganhá-lo, assim como o de melhor ator e de melhor ator coadjuvante (este, até o momento, eu concordo), já que doze foram as indicações. Contudo, para mim – se tal opinião importasse -, não teria como superar Black Swan naquela categoria.

Um bom filme? Com certeza, com ótimas atuações, ainda que secundárias, como da Helena Bonham Carter (esposa do Tim Burton, para os que não a reconheceram), no papel de Rainha Elizabeth.

Vou, então, voltar a minha maratona de concorrentes ao Oscar de melhor filme e descobrir se Black Swan perderá seu, até o momento, primeiro lugar no meu Oscar particular.

 

PS1: Todas as fotos deste post são de divulgação do filme O Discurso do Rei, por isso a ausência de indicação dos fotógrafos.
PS2: O título deste post é um trecho da música Gago Apaixonado, do Noel Rosa.
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4 responses to this post.

  1. […] This post was mentioned on Twitter by MicMX, MicMX. MicMX said: “Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago. Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago”: http://bit.ly/fnX32y #blog #Oscar2011 #ODiscursoDoRei […]

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  2. O filme é ótimo, apesar de só levar em consideração a cura da gagueira – como a autora do blog ( namorada) disse.
    O interessante é o ponto de vista de cada receptor. Ela, como formada em direito, teve como foco o abuso infantil. Já eu, como ex aluno de Publicidade e hoje estudante de gastronomia – formador de opinião na cultura cervejeira- e sempre “lidando” com pessoas, levei o filme para a parte de marketing q ele pode passar.
    Ele como futuro Rei, como poderia impor e fazer as pessoas acreditarem nele, se nem falar direito ele conseguia? como seria rei e detentor de poder se ele não teria perseverança para tratar a gageira e achando q ele nasceria com ela…

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  3. […] certeza, de um Oscar de melhor ator – o qual acredito que ainda irá para Colin Firth, pelo Discurso do Rei -, dando sede aos telespectadores suas feições e olhares de menino lânguido. A sede, por sinal, […]

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  4. […] bom filme, que me fez rir e chorar. Ouso colocá-lo na frente de 127 Horas, mas não de Discurso do Rei, ainda que muito pequena a margem de diferença de suas pontuações. Lado a lado, contudo, com O […]

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