O Vencedor… e uma família histérica!

Foto: Divulgação

Perdoem-me os estudiosos de Freud e de sua teoria sobre a histeria, mas a primeira idéia que me veio a mente ao ver o indicado ao Oscar na categoria de melhor filme, O Vencedor, foi: essa é uma família tipicamente histérica (com traços conversivos e dissociativos).

Não sou entusiasta dos filmes de boxe – muito embora tenha gostado de O Lutador e da comédia romântica O amor não tem regras, que também tratam do assunto -, mas posso dizer que O Vencedor é um bom filme, com bom enredo e ótima atuação de Christian Bale, que provavelmente lhe renderá a estatueta na categoria melhor ator coadjuvante.

Aliás, este é justamente um daqueles filmes em que o coadjuvante rouba as cenas, deixando o ator principal em absoluto segundo plano. Não se poderia esperar muito coisa, também, de Mark Wahlberg – desculpem-me os fãs do ator, mas, em todos os filmes que assisti com ele, suas atuações são as mesmas, sendo o peso corporal o único fator a ser alterado -, ainda que o personagem fosse um lutador incapaz de se impôr (até mesmo nas lutas).

Sendo uma história baseada em fatos reais, ao final aparecem os dois verdadeiros irmãos (Mickey Ward e Dicky Eklund, representandos por Mark e Bale respectivamente) e, ao contrário de Mark – que parece ter interpretado personagem diverso do real -, todas as caracterizações de Bale no filme correspondem àquele que lhe deu origem. O ator, inclusive, deve ter perdido mais peso do que a Natalie Portman, no Cisne Negro, pois seu rosto apresentam profundas cavidades.

Quanto ao enredo do filme, trata-se da história dos irmãos Dicky e Mickey, sendo aquele mais velho que este. Ambos são lutadores de boxe, mas apenas o primeiro havia entrado no circuito profissional, ficando famoso por nacautear o lutador Sugar Ray Leonard – interpretado por ele mesmo -, muito embora tal [nocaute] só tenha ocorrido porque este escorregou no ringue.

Foto: Divulgação

A família – formada por uma mãe controladora e absolutamente histérica (Alice Ward, representada por Melissa Leo), um pai dominado e sem pulso firme para se impôr nas relações doentias que nutrem a família (George Ward, interpretado por Jack McGee), as sete irmãs – que mais parecem caricaturas de mulheres, com comportamentos que quase ultrapassam os limites da histeria, e os dois irmãos, amigos inseparáveis – volta toda sua atenção para o irmão mais velho, Dicky, tendo-o como um herói que, em breve, irá retornar aos ringues, ao passam que ignoram – fingem desconhecer – o estrago que o crack provocou em sua vida.

Afora o pai George – que embora tenha um trabalho, pouco se sabe a seu respeito -, toda a família sobrevive às custas de Mickey e suas lutas, as quais, em razão dos treinos sempre atrasados por culpa de Dicky (treinador de Mickey), são regadas a muito sangue e repetidas perdas. As lutas são de Mickey, mas, eventuais vitórias são atribuídas a Dicky, que ensinou tudo o que o irmão sabe.

Após uma luta com um homem 10 kg mais pesado e uma proposta de trabalhar em Las Vegas, recebendo para treinar, Mickey acaba balançado com a idéia e incentivado pela namorada Charlene Fleming (Amy Adams), o que é visto pela família – salvo o pai George, mas que nem voz tem para defender a escolha do filho – como uma traição. O discurso materno (Alice), sempre regado a muitas ameaças e chantagens, e do irmão são sempre regados em muita defesa da família, muito embora Dicky esqueça dessa quando usa crack e Alice pouco se importe com o risco de morte do filho em lutar com alguém de categoria maior que a dele. Mickey, por outro lado, deve sacrificar-se, já que se não lutar, ninguém receberá o pagamento ajustado.

 

Foto: Divulgação

O filme mostra a impossibilidade de fuga de Mickey de toda essa situação, – até porque proveniente de uma família de classe baixa e poucas opções a título de emprego lhe são possíveis, o que é comum, senão a regra, dentre lutadores de boxe -, arcando com sérias consequências na tentativa de obedecer os desmandes da mãe e salvar o irmão Dicky das encrencas que sempre inserido. A evidente histeria materna é (re)passada aos filhos, em maior ou menor grau.

Mesmo quando Mickey afasta-se da família, ajudado e/ou obrigado a isso pela namorada e seu novo treinador, precisa deles para lutar, recorrendo ao irmão quando diante de uma luta importante. Ainda que a família seja a desgraça de Mickey, essa mesma é imprescindível em suas vitórias. É como a droga sobre seu usuário: ainda que acabe com sua potencialidade, garante-lhe, ao revés, a força necessária para determinadas atitudes.

O estilo de luta de Mickey é um reflexo de sua personalidade: apanha e recua, apenas defendendo-se dos golpes que recebe, enquanto prensado contra as cordas; ao final, quando ambos os lutadores exaustos, parte para o ataque com poucos golpes, mas certeiros, vencendo a luta quando ninguém mais acreditava que fosse conseguir, ante a surpresa de sua reação.

O filme trabalha com tais metáforas do início ao fim, com as correlações entre a família histérica, as drogas e o boxe. Mais uma história de superação e hipervalorização da família, ainda que os reais problemas não tenham desaparecido, mas escamoteados pelas vitórias no ringue. É a histeria materializada, ao final, com o título de campeão mundial, como se ali todos os problemas desaparecessem e a família passasse a ser normal – seja lá o que isso queria significar.

Um bom enredo, com toda certeza, mas que está longe de merecer o Oscar de melhor filme, muito embora Bale concorra em pé de igualdade, ao meu ver, com Geofrey Rush, em O Discurso do Rei, pelo prêmio de  melhor ator coadjuvante.

 

PS: havia me esquecido que Toy Story 3, além de melhor animação, concorria na categoria de melhor filme. Minha dúvida, portanto, aumentou quanto ao (meu) favorito, estando entre ele, Cisne Negro e a A Origem (ainda que este com mais ressalvas).
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3 responses to this post.

  1. Olá! Vi ontem “O vencedor” e curti o filme, sobretudo por essa fugida de filminho de corpões que se pegam. O filme vai além mesmo! Também concordo que o ator que leva o Micky é fraco, apesar de ter muitos filmes na bagagem (quantidade, apenas). Mas é irônico: o personagem é assim: passivo e sem reação.
    Acho válido sim, estar entre destaques, porém fica difícil levar a estatueta de melhor. Eu gostaria de ‘127 horas’, mas acho que a tradição dos velhinhos conduzirá o ‘Discurso do rei’. Enfim, pretendo ver todos os indicados até domingo.

    Legal ver teu texto aqui! O que escrevi foi mais basicão, sem tantos detalhes como o seu!
    Bye!

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    • POis é, Eli. O Oscar é sempre muito conservador quanto aos premiados, mas pelo que ouvi dizer o campeão nem será o Discurso do Rei. Acreditam muito mais no filme “A Rede Social”, o qual, aliás eu nem assisti e nem sei se quero.
      O filme trouxe uma boa discussão sobre família e drogas, ainda que seja um tema bem batido nos filmes.
      A atuação do Bale e da Melissa (que faz a mãe deles) são ótimas e deixam o filme ainda melhor.

      Boa sorte no seu intento de ver todos os filmes. Vou tentar também, mas ainda tenho uns 3 na lista.

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