Minhas mães e meu pai… uma família normal.

Foto: Divulgação

Não sei se conseguirei encerrar minha maratona de obras indicadas ao Oscar de melhor filme – absolutamente ignorei A Rede Social e nem sei quando (e se) irei assisti-lo – e talvez não tenha sido uma boa escolha preterir Bravura Indômita em favor de Minhas Mães e Meu Pai, já que este não é favorito em nenhuma das categorias em que concorre (melhor filme, melhor atriz – Annette Bening -, melhor ator coadjuvante – Mark Ruffalo – e melhor roteiro original). Mas trata-se de um bom filme e, apesar do tema batido e clichê – família, traições etc. -, a ótica homossexual dá um novo ar sobre o assunto.

Chega a ser uma afronta falar sobre novos ares no cinema, enquanto as famílias formadas por casais homossexuais estão aí há muito tempo. Mas é um assunto recente no que se refere ao mundo do cinema e creio que, justamente por isso, a escolha de um tema tão clichê tenha sido tão adequada: mostrar que os casais gays, assim como quaisquer outros, passam pelos mesmos dilemas decorrentes de um casamento.

Ao assistir o filme, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a campanha americana a seguir, que tinha como intuito mostrar que casais homossexuais são iguais a quaisquer outros casais, com os mesmos problemas e as mesmas partes boas:

A família do filme é formada pelas mães, Nic (Anette Benning) e Jules (Julianne Moore), e seus dois filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), frutos de gestações – cada uma é mãe biológica de um dos filhos – de um mesmo doador de esperma, Paul (Mark Ruffalo). Nic e Jules tem um relacionamento estável e longo, sendo que a filha Joni, mais velha, acabou de completar 18 anos. Seu irmão, Laser, como ainda menor de idade, lhe pede que entre em contato com a clínica de doação de esperma em que foram concebidos, para que esta possibilite o contato com pai biológico de ambos (teoricamente isso é possível no estado em que vivem nos EUA). Paul, que não imaginava que seu sêmem havia sido utilizado – ainda mais duas vezes -, aceita encontrá-los, sem saber muito bem o que isso pode significar.

Como não poderia deixar de ser, o primeiro contato entre eles é de absoluto estranhamento, pois o fato de Paul ser pai biológico daqueles dois adolescentes não o torna integrante da família. No primeiro encontro, Laser, que estava mais interessado em conhecer o pai do que a irmã, tenta encontrar características em comum com Paul, esprando que com ele tivesse alguma conexão, o que acaba frustrando-o, principalmente porque a irmã parece já ter desenvolvido uma afinidade maior com o pai, nos poucos minutos de contato. O que era para ser omitido das mães, como forma de não magoá-las, acaba sendo descoberto e os medos e inseguranças daí decorrentes começam a deslanchar.

Nick – que visilmente assumiu o papel de homem da casa (no que se refere à família patriarcal burguesa), sendo a provedora, a que dá a última palavra e a que prefere a esposa em casa cuidando dos filhos – não aceita a presença de Paul no cotidiano de seus filhos, tendo-o como um invasor e potencial ladrão de sua família, piorando, com isso, seus atritos familiares. A pergunta que ela faz a Nick resume claramente o que se passa na cabeça de todas as famílias (ainda que monoparentais) que adotam: Não somos suficientes? Ou seja, por que razão noss@(s) filh@(s) querem conhecer (e conviver) com aquele que unicamente lhe emprestou o espermatozóide (óvulo)?

 

Foto: Divulgação

Os problemas de relacionamento com Jules também são potencializados, culminando com esta última tendo um caso com Paul (não se trata de spoiler, pois o próprio trailer do filme traz essa informação, ok?) e tudo tornando-se ainda mais confuso para todos.

Uma importante frase de Joni, direcionada a Paul, é: eu só queria que você tivesse sido melhor. Demonstra que, apesar da aparente relação familiar entre Joni, Laser e Paul, e o medo de Nick de ele roube sua família, esta o exclui de sua formação, sendo Paul o mero amigo, do qual se exige muito mais, já que a capacidade de perdoar é sempre maior quando o amor familiar une as pessoas – e os laços biológicos pouca diferença fazem aqui.

Quanto ao caso de Jules com Paul, muitas foram as críticas d@s homossexuais, já que um dos poucos casais gays retratados no cinema acaba, justamente, confirmando o estereótipo de que o que falta para um lésbica é um bom pau (desculpem-me o termo, mas no geral a frase é bem mais ofensiva). Concordo com a crítica e acredito que a traição poderia ser retratada de outra forma.

Contudo, o filme melhora a situação nas cenas em que Jules é categórica quanto ao seu homossexualismo ou, então, quando ambas (Nick e Jules)  têm que explicar a Laser a razão de assistirem filmes pornôs com homossexuais masculinos (assistam, vale muito a pena).

Foto: Divulgação

O que fica bem claro no filme é que a traição de Jules não está ligada a Paul por nenhuma razão, salvo o fato de ele a ter elogiado justamente na área que a companheira Nick menos lhe dar valor – profissionalmente – e no momento em que ambas estão em crise no casamento, passando por aquela fase em que o casal não mais se enxerga em suas particularidades e necessidades. O filme mostra que quando um casal realmente se ama, mas esquece da conexão que os une, a traição passa a ser um válvula de escape para as frustrações, evitando-se, com isso, os embates, o diálogo ou, até mesmo, a separação.

Por favor, não estou aqui defendendo a traição como modo de melhorar um relacionamento. Mas nem por isso podemos ignorar o fato de que, em algumas situações, este será o fato que oportunizará ao casal repensar suas atitudes e superar seus problemas, evitando uma fatídica e óbvia separação. Por certo que o diálogo surtiria o mesmo esfeito e com muito menos consequências.

C0m Anette Benning disputando o Oscar de melhor atriz com Natalie Portman, fica difícil acreditar (até torcer) por sua vitória, o que não afasta o brilhantismo de sua atuação, bem como de Julianne Moore – da qual não sou muito fã -, convencendo no papel de homossexual, o que nem sempre é fácil em se tratando de heterossexuais.

Um bom filme, que me fez rir e chorar. Ouso coloco-o na frente de 127 Horas, mas não de Discurso do Rei, ainda que muito pequena a margem de diferença de suas pontuações. Lado a lado, contudo, com O Vencedor.

O complicado do Oscar é ter em uma mesma categoria concorrentes tão distintos, com temas tão diversos, dificultando a escolha de um melhor quando se tem assuntos tão antagônicos em foco, obrigando a serem avaliados como se semelhantes fossem.

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