“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…”

Fotos de: Michael Bernardini, Maurício Schwarttzman, Michelle Araújo, Renata Baião e Viviane Machado

Não há música que combine melhor com meu estilo do que essa do título. Para o meu cabelo, mais especificamente, a música Cabelo, do Jorge Ben Jor e do Arnaldo Antunes. Nunca tive medo de ousar. Pelo contrário, minha filosofia sempre foi cabelo cresce e ligue o f*%$-se para ser feliz. O que pensa(va)m sobre minhas atitudes é(era) o que menos me importa(va). Claro que não sou autista a ponto de não me abalar com comentários mais maldosos, mas não lembro de nenhum me impedindo de radicalizar nas madeixas.

A reunião de fotos acima não denota toda a minha ousadia, mas eram as fotos de que dispunha no momento. Já tive cabelo comprido (muito comprido, alcançando a cintura), cabelo curto “joãozinho” (como costumam dizer), cabelo enrolado, cabelo liso, franjinha, franjão, repicado, quadrado, Chitãozinho e Xororó (como me envergonho desse, mas voltou à moda com o pessoal do Restart, né?) e as mais variadas cores: vermelho, loiro e suas graduações, preto, castanho e suas graduações.

Eu preciso da mudança. Canso com muita facilidade das coisas. E isso não se limita ao meu cabelo e as minhas roupas. O mesmo ocorre quanto a minha casa, a decoração, a disposição do móveis. Felizmente essa mania ainda não atingiu as categorias amigos e namorado.

É como uma idéia fixa: surge de repente, a partir de uma foto que vi ou algo que me deparei pessoalmente; penso que poderia fazer; sonho com isso uns dois dias seguidos; não consigo sossegar enquanto não faço; faço. Arrependimentos? Muitas vezes. Promessas de nunca mais fazer? Diversas. Mas no final sempre há a importante frase cabelo cresce, oras.

Costumo fazer enquetes sobre as mudanças – não que isso seja muito influenciador em minha decisão – e as primeiras reações à idéia de cortar o cabelo curto são sempre: mas cabelo comprido é tão mais bonito ou cabelo comprido deixa a mulher mais “feminina”. Hoje ouvi de um amigo: usou megahair por tanto tempo e agora vai raspar o cabelo? Pois é, vou. E o megahair presta-se justamente a isso: a permitir que eu mude, com a rapidez do meu humor, entre um cabelo curto e um cabelo longo. Tem coisa melhor do que poder satisfazer minhas manias em lapsos bem mais frequentes?

O grande problema do cabelo curto é o preconceito que o cerca. Chamá-lo de corte joãozinho já denota toda a cultura machista por trás disso. Mulher não pode ter cabelo curto, porque parece homem e perde a feminilidade. A bem da verdade, a mulher não pode ter cabelo enrolado ou crespo; de preferência deve ser loiro ou atenuado o preto com mechas claras e precisa gastar horas por dia cuidando para que nenhum fio ‘indomado’ surja. O que esquecem as pessoas é que estética é questão puramente cultural, como bem diria Humberto Eco no livro A História da Feiura (que está me aguardando há meses para ter sua leitura terminada). Eis o valioso texto que encontrei no site Terra sobre a obra em questão (desculpem-me, mas não tenho acesso ao livro do Eco nesse momento):

Umberto Eco voltou a colocar os óculos de professor e, no mesmo tom ameno e didático com que explicou a história da beleza, em 2004, agora conta a história da feiúra, um tema que o fascinou porque, em suas pesquisas, descobriu que “o conceito do feio não é apenas a negação do belo, mas implica outras categorias“. Eco demonstra, com numerosos exemplos extraídos das artes plásticas e da literatura, a absoluta relatividade do conceito de feiúra, através dos tempos, da antiguidade clássica aos dias atuais, passando pela Idade Média e pelo Renascimento.

“Voltaire já nos interpelava, em seu dicionário filosófico, propondo que perguntássemos a um sapo o que é a beleza, o ideal do belo. O sapo responderia que ele é representado pela fêmea de sua espécie, com os belos olhos redondos e esbugalhados, a cabeça pequena, a boca larga, o ventre amarelo, as costas escuras”.

Eco fala sobre o primeiro tratado completo sobre o tema, A Estética da Feiúra, e sobre o diálogo entre um grande sábio e um jovem sequioso de se iniciar no mundo do conhecimento. Platão situa a beleza máxima no mundo ideal, e afirma que, “diante de uma deusa, não é certo que a mais bela das donzelas parecerá feia?”

O cristianismo em tese revolucionou essa ordem. “Tudo é belo”, explica Eco, “porque tudo é obra de Deus”, e na Idade Média o universo era encarado como “uma inesgotável irradiação de esplendores”. Como conciliar essa idéia, pergunta o autor, com o fato evidente de que no mundo existem o mal e a deformidade? A solução foi fornecida por Santo Agostinho, que admitiu a existência no mundo de imagens que “insultam a vista”, mas ainda assim fazem parte da ordem geral das coisas, porque aquilo que nelas se corrompe não é mais que algo positivo que se deteriora, e não algo de feio ou mau em si, pois o que predomina sempre é a beleza do conjunto.

A arte do Renascimento e do barroco dá espaço à feiúra, associada pela nova mentalidade à dor e, em termos concretos, ao martírio de Cristo, mostrado em todos os seus detalhes sangrentos. “O paradoxo é que Cristo seja exibido feio, ferido, fraco”. Eco repassa as diferentes representações da morte, o diabo e uma variada taxonomia de monstros, do basilisco à medusa ou o Golem.

A relação entre sexo e feiúra é outro dos eixos do livro. Se na antiguidade, e no Renascimento, “a representação da genitália evidenciava a beleza de um corpo”, hoje, como Freud percebeu, os órgãos genitais “nunca são considerados belos”.

O conceito de feiúra feminina oscilou muito, ao longo das eras, ainda que o machismo e a misoginia tenham exercido papel predominante em estigmatizar as mulheres, com o tempo, representando a maldade como uma mulher velha. Quevedo declarou sobre as mulheres, com desdém, que “se lavassem o rosto, não as reconheceríamos”. E, em O Martelo das Bruxas, de 1486, Sprenger e Kramer mostram sua agitação: “Bendito seja o Altíssimo, que até o momento preservou o sexo masculino de tal delito” (a bruxaria).

Outro grupo cuja aparência despertou críticas são os judeus, de cujo aspecto Wagner dizia, em 1850: “Ele nos repugna acima de qualquer outra coisa. Ninguém quer ter algo em comum com um homem que apresente tal aspecto”.

Os românticos redimiram a feiúra, e foi então que surgiu com força o conceito do sublime, em um momento no qual os poetas elogiam “o vazio, a obscuridade, a solidão e o silêncio”. Foi uma integrante do movimento romântico (Mary Shelley) que criou Frankenstein, o monstro infeliz (“sua feiúra diabólica tornava impossível contemplá-lo”); e Quasimodo, de Victor Hugo, é produto da mesma era.

Eles representam a mesma sensibilidade que reagiu de maneira adversa aos avanços técnicos da revolução industrial, considerando monstruosas as máquinas nascidas nas aglomerações urbanas. Proust, de sua parte, nos mostra a força da relação entre os preconceitos de classe e o ideal de beleza, ao descrever a Princesa de Guermantes, em À Procura do Tempo Perdido: “O que permitia identificar seu rosto era a conexão entre um grande nariz vermelho e um lábio leporino, ou entre duas bochechas enrugadas e um bigode fino”, traços que se tornam sedutores porque infundem a idéia de que na feiúra existe algo de aristocrático, e é indiferente que o rosto de uma grande dama seja belo.

As vanguardas do século 20 optaram pela estética da feiúra, a ponto de levar Hitler -que se via como paladino da beleza, eis o perigo- a classificar seus expoentes como degenerados. Na metade do século, com Duchamp pintando bigodes na Mona Lisa e Warhol fazendo arte tendo o lixo como matéria-prima, nasceram o kitsch e o campo, cujos critérios estéticos ficam muito distantes da alta cultura.

Os exemplos extraídos da arte – exibidos em belas ilustrações – são numerosos, e o mesmo se aplica aos exemplos literários, que vão da Biblia e Platão a Don DeLillo e Patrick McGrath, passando por Dante, Baudelaire e Sartre (um homem que se comportava obsessivamente, por se considerar feio).

Enfim, a leitura de Eco confirma o que nos disse Schiller: o horrendo nos fascina, “as cenas de terror e dor nos atraem e repelem com a mesma intensidade” e nada que não “a disposição natural do espírito humano” seria capaz de explicar tais inclinações.

Para mostrar que cabelo curto pode ser exemplo de beleza ou de feminilidade (seja lá o que as pessoas considerem quando usam o termo, e tenho medo de indagar), ao menos dentro dos padrões estéticos atuais, eis as fotos de diversas celebridades com suas madeixas tosadas:


 

 

 

 

Então, qual dos estilos eu devo experimentar?

 

Ah! Adotem mais a música: “…do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo…”

_________________x__________________

Em tempo: mais algumas fotos de minhas madeixas em estágios diferentes:

 

 

 

 

 

PS: preciso dizer que o título deste post é um trecho de uma música e qual sua autoria?
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13 responses to this post.

  1. Posted by André Moraes on 2 de março de 2011 at 20:51

    Uma das mulheres mais bonitas do Brasil, pelo menos na minha opinião, tem cabelo curto. E mais: não é nenhuma menina. Guilhermina Guinle é linda e não seria tão charmosa se tivesse cabelo mais comprido.

    É ou não é um grande incentivo para encarar a tesoura?

    Responder

    • Pois é, André. Agora há pouco mesmo eu comentei sobre a Guilhermina e o cabelo curto dela.
      Ela é lindíssima e concordo com você quando diz que ela fica melhor com o cabelo assim.
      É, com certeza, um ótimo incentivo…

      Responder

  2. Olha só, fui citado no blog 😛

    Qdo que a tia vai tirar o cabelo falso e cortar o restante? 😀

    beijão

    Responder

  3. Quando leio posts assim vejo que “escolhi” a mulher certa. Ousado em mudanças, não poderia namorar alguém certinho…
    Uma hora careca, cabeludo, de moicano, alargador na orelha – tira, coloca -, tinha piercing na língua, tatuado e querendo mais, sem saber o que fazer com o cabelo, com o corpo, sempre ousando e demais. E os que não gostam, um FODA-SE bem grande!
    Apoio completamente o cabelo curtinho e o cara que vem com machismo dizendo que é coisa de homem, algo MUITO errado vc tem!
    Só uma coisa muito engraçada….pq chamar mulher pra acompanhar para o cabelereiro se tem um companheiro bem do seu lado sempre??? Não tenho frescura de que, salão é coisa de mulher, compras no shopping não aguento e blá blá blá! Se quiser companhia, estarei aqui!

    Responder

  4. Posted by Sâmia on 3 de março de 2011 at 11:01

    Já que é pra dar opinião, lá vai:
    Corta igual ao da foto bem abaixo, à direita. Igual ao daquela menina loira que fez Dawson’s Creek (seriado que eu odiava – por isso não sei o nome dela).
    Outra sugestão: faz uma tintura, umas mechas, algo do tipo. Vai arrasar!
    Pq, né? Cabelo cresce!!!
    Beijos!

    Responder

  5. Se leres lá no meu perfil do blog tá escrito exatamente isso…eu prefiro ser… é o meu lema de vida. E do blog, querer desemburrecer é se permitir mudar de opinião, né?

    Ok, eu tbém já tive cabelo de todos as cores, comprimento e cortes. Vc – como quase toda mulher – ficou ótima de curto. Welcome to the club…=^.^=

    Responder

    • Pois é, Dona Pulga.
      Entrei com tudo ao clube. E tenho que dizer que seus lindos cabelos curtos também auxiliaram em minha inspiração.
      Cabelo cresce, a gente muda e o mundo gira. Para que tudo igual sempre, até mesmo as ideias?
      Bóra mudar!

      Responder

  6. […] Tecidas essas considerações iniciais, quero deixar claro: este blog vai virar um apanhado de posts sobre “coisinhas de mulher”? Não sei. Isso depende muito do seu conceito de “coisinhas de mulher”. Continua sendo um blog feminista, fale eu ou não de esmaltes ou cortes de cabelos. […]

    Responder

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