“…se existe um preconceito muito forte separando você de mim…”

Não ando com muita disposição para atualizar o blog, como disse no post anterior, mas ontem um guest post no site da Lola me encorajou a tratar de um tema que já havia pensando em abordar na semana passada: sofrer preconceitos torna a pessoa menos preconceituosa?

Sou usuária do twitter, como todos sabem. Em meu primeiro post neste blog destaquei que uma das razões que me levaram a criá-lo [o blog] decorria das limitações dos 140 caracteres que aquela rede social me impunha. Gosto da discussão, do debate – coisas bem distintas do brigar – e sou uma eterna defensora da ampla defesa (princípio fundamental previsto art. 5°, LV, da CRFB), a qual entendo deva ser aplicada em todos os ramos da vida, não apenas aos processos judiciais e administrativos.

Por essa razão, ao ouvir falar de uma garota, formada em Direito – isso é importante, sim, apesar de não parecer -, que possuía um perfil interessante no twitter (nome e avatar falsos, aliás), decidi lhe dar uma chance de defesa. (Aliás, nem tentem procurar em meus contatos para descobrir de quem estou falando: não sigo a garota e creio que ninguém dos que sigo faça o mesmo).

Que fique bem claro: óbvio que ela não estava me pedindo uma chance para absolutamente nada, até porque desconhecia completamente minha existência e, muito provavelmente, pouca importância daria para minhas impressões sobre ela. Mas como os comentários foram fortes, decidi que deveria verificar o porquê de tantos olhares tortos em sua direção e definições machistas para sua aparente liberdade sexual. Sim, porque seu twitter é recheado de frases nesse estilo: quero transar, alguém está a fim?

Óbvio que ao saber que se tratava de uma bacharel em Direito compreendi imediatamente uma das razões para o avatar e o nome falsos: sei bem o quão conservadores e machistas são os juristas que definem quem entra ou não em um concurso como o do Ministério Público ou da Magistratura. E não vamos longe, já que alguns escritórios de Advocacia têm a repugnável mania de julgar os profissionais a partir dessas premissas.

Mas é o que sempre penso quando encontro algum olhar enviasado no meu trabalho: não é minha roupa, ou meu cabelo, ou meu óculos, ou minha tatuagem, que dirá a profissional que sou ou a qualidade dos textos que produzo.

Voltando à garota, pela descrição que recebi daqueles que a conhecem pessoalmente, foi assim resumida: gorda, feia, vulgar, promíscua, doida, carente, mal resolvida etc. etc. etc.

A garota, portanto, estava sendo vilipendiada porque, aparentemente: 1) sente-se bem no peso em que se encontra, ainda que acima dos padrões considerados normais; 2) está fora dos padrões de beleza, até porque encontra-se acima do peso e esse simples fato, ainda que isolado, é mais do que suficiente para defini-la como feia; 3) fala o que pensa sobre sexo, não se importa com o que vão pensar, demonstra que gosta de sexo e sente falta disso, não tem problema em ter encontros simplesmente sexuais, ou seja, igual a MUITOS homens por aí, sem que a mesma pecha, contudo, lhes seja imposta; 4) não pode gostar do modo como age, devendo fazê-lo para chamar a atenção ou porque, no fundo, não é bem resolvida com seu peso, beleza, sexualidade etc.

Não conheço a garota pessoalmente, mas, de qualquer modo, peso e beleza são fatores tão subjetivos e particulares que pouco importa se eu realmente a achasse feia ou gorda, já que meus parâmetros estéticos não devem ser utilizados como regras para determinar o que é certo ou errado nesses assuntos. Porém, seja ela ou não mal resolvida ou uma carente buscando atenção – mais, faça ela tudo o que afirma fazer (ou quer fazer), já que pode ser apenas uma personagem que criou para se divertir no twitter -, a grande questão de fundo é que nenhum desses adjetivos seria usado fosse um homem a assim agir.

E, por favor, não tentem me convencer do contrário. Só para dar um exemplo raso, mulher galinha difere muito de homem galinha, principalmente se considerarmos que este será digno de respeito e inveja entre os amigos, no mais das vezes.

Ainda que a obesidade masculina também seja um problema e mal vista por muitos, um pequeno sobrepeso (acima do que é considerado normal) é facilmente aceito e raramente questionado, admitido até, algumas vezes, como charme. O mesmo não se pode falar das mulheres, já que qualquer quilograma além do ideal é visto como necessidade imperiosa de se começar uma dieta.

Nem vou começar a tecer comentários sobre mulher expressar que gosta de sexo, pois creio que os crescidinhos que passam aqui pelo blog tem o mínimo conhecimento, ao menos, sobre o assunto e os preconceitos que o rondam.

Discussões à parte, portanto, quanto aos preconceitos que recaem sobre a garota – já que cada tema daria uma tese enorme -, o que me desapontou foi perceber a quantidade desses mesmos preconceitos que ela carrega. Pior que isso, que propaga. Afinal, carregar todos carregamos, sem excessão. Mas proferi-los sem repensar seu significado é, sim, o grande problema.

Temos a mania de achar que as pessoas que sofrem preconceitos não serão preconceituosas. Segue-se a lógica de que, se você sofre por conta de alguma coisa, tende a ser solidário com aqueles que são afligidos pelo mesmo mal. Infelizmente não é assim. Mas a mim, ao menos, essa situação parece pior: ou a pessoa nutre o mesmo preconceito de que é alvo, já que tomada pelas pressões externas a ponto de assumir como seu um preconceito originariamente direcionado contra si, ou não é capaz de perceber as semelhanças entre o que sofre e o que pratica. E esse segunda opção é ainda mais temerosa.

Quando falo que sou feminista, digo isso com a certeza de que não defendo unicamente a igualdade de respeito aos homens e mulheres, mas também a todos aqueles alvos de preconceitos, seja pela cor de sua pele, seja por sua opção sexual, seja pela religião que abraçou ou a ausência de uma, seja pelo que entendeu ser o melhor para a sua vida. Se não sou capaz de enxergar os preconceitos como um amontado de coisas que fazem parte de um núcleo de intolerância, como posso perceber/compreender que a minha individualiade está sendo alvo de ojerizas? Melhor, como lutar contra os preconceitos que sofro se os propago (ainda que sob outro enfoque) contra os que me cercam?

Eu garanti a ela seu direito fundamental à ampla defesa. Quando será que ela permitirá o mesmo àqueles que julga com as mesmas pedras que lhe são atiradas?

 

 

PS: O título deste post é um trecho da música Preconceito, interpretada por Cazuza e composta por Fernando Lobo e Antonio Maria.
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4 responses to this post.

  1. Posted by André Moraes on 15 de março de 2011 at 12:40

    Ótimo texto, belas ideias. Preciso, acima de tudo. Parabéns.

    Responder

  2. Muito obrigada, André. Aliás, tenho visitado seu blog, mas como leio pelo RSS, acabo não deixando comentários. Quero quiser que adorei todos os textos até hoje…
    Abraço.

    Responder

  3. Posted by Sâmia on 15 de março de 2011 at 20:14

    Sigo o voto da Relatora!
    P. S.: Às vezes acho que compartilhamos um cérebro quando o assunto é preconceito e situações conexas.

    Responder

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