Você anda cultivando a getileza?

Apagaram tudo. Pintaram tudo de cinza.
A palavra no muro ficou coberta de tinta.
Apagaram tudo. Pintaram tudo de cinza.
Só ficou no muro tristeza e tinta fresca.
Nós, que passamos apressados pelas ruas da cidade,
merecemos ler as letras e as palavras de gentileza.
Por isso eu pergunto à você no mundo
se é mais inteligente o livro ou a sabedoria.
O mundo é uma escola. A vida é o circo.
Amor, palavra que liberta, já dizia o Profeta.
(Marisa Monte – Gentileza)

A idéia deste post me veio à mente hoje pela manhã, enquanto aguardava pacientemente que alguma boa alma fizesse a gentileza de permitir minha entrada em uma rua de mão dupla.
A rua onde moro tem uma única saída para a rua principal do Bairro, a qual sou obrigada a pegar para ir ao trabalho. Quando ali fui morar (menos de um ano), logo percebi a dificuldade de realizar tal manobra, já que, tratando-se de via de mão dupla, preciso cortar uma das mãos para entrar na outra, em razão do sentido que preciso seguir para o trabalho. Além disso, havendo uma curva pouco antes de onde entro, comum me deparar com um carro ao realizar tal manobra, correndo o risco de ser abalroada justamente no lado d@ motorista, ou seja, eu.
Apesar dessas dificuldades, costumava ser agraciada pelas gentilezas alheias: motoristas solícitos, de ambas as direções, sinalizavam para que eu adentrasse na via sem perigo. Mas, com o passar dos tempos, isso foi mudando, tornando-se rara tal espécie de gentileza, a ponto de hoje pela manhã ter permanecido longos minutos no local, com o carro parcialmente bloqueando a via, mas sem que nenhuma daquelas antigas almas caridosas reduzissem a velocidade a ponto de permitir minha passagem. Pior, invadindo a pista contrária para desviar do meu veículo, mas em nenhuma hipótese cogitando ceder a preferência.
Percebam que eu não iria entrar na frente (mesmo sentido) dessas pessoas no trânsito, o que poderia lhes fazer pensar que seria um atraso na chegada aos seus destinos – coisas de 10 segundos, no máximo, mas para muitos isso parece o fim do mundo. Aliás, esses mesmos carros iriam ficar parados no trânsito menos de uma quadra a frente, mas parece que chegar até o congestionamento 3 segundos antes é questão de vida ou morte.
Não foram poucas as vezes que o trânsito se encontrava praticamente (quando não absolutamente) parado naquela rua principal, mas nenhuma pessoa permitiu que eu saísse da minha rua e adentrasse na via de sentido contrário. Ao revés, colavam no carro da frente para não permitir de maneira alguma minha manobra.
Ontem, lendo o post do amigo André, percebi que Florianópolis, mesmo com todos os seus problemas no que pertine à respeito do trânsito, ainda é considera uma cidade preocupada com a locomoção. Provável que esse título tenha sido dado por alguém que pouco transita por aqui (seja de carro, de ônibus, de bicicleta ou a pé) ou, na pior das hipóteses, comprado por aqueles que fingem ser esta, ainda (se é que um dia foi), a Ilha da Magia.
Não sou hipócrita ao afirmar tudo isso: paro nas faixas de pedestres, cedo a vez àqueles que pretendem adentrar em uma via, seguro a porta do elevador para que os demais possam sair sem preocupações, agradeço quando sou alvo de gentilezas etc.
O elevador – outro exemplo diário de minhas avaliações antropológicas – é outro meio de transporte (é, não é?) que parece ter sido invadido pela fúria e ânsia do século da velocidade e do tempo curto. Todos querem dali sair o mais rápido possível, como se chegar 1 segundo antes na catraca de saída do prédio fosse uma vitória do Airton Senna sobre o Nelson Piquet.
Muito se fala hoje em dia sobre altruísmo, caridade, apoio às causas, defesa disso ou daquilo, mas pouco sobre o resgate da gentileza.
Não estou defendendo que se ignore àqueles em benefício deste. O que me parece é que a gentileza é o primeiro passo para qualquer outra atitude que busque a harmonia da vida em sociedade.
Uma coisa meio Corrente do Bem seria romântico demais da minha parte?
Ao menos não custa tentar e, na pior das hipóteses, posso conseguir que uma boa alma que ler este texto venha ser justamente aquel@ motorista que irá me dar a preferência na hora de sair da minha rua. Por que não?
*
PS: este parece ser um post #mimimi, mas a realidade de não apenas de Florianópolis está chegando a tal ponto que me questiono se pedir mais gentileza é utopia!
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: