Minha experiência com o autismo

Sim, eu tenho um filho autista, que também é albino e deficiente auditivo. Não, não estou brincando. Mãe de gato (cachorro, galinha etc.) também é mãe.

Muito menos estou zombando das mães de filhos (humanos) que igualmente são autistas. Se esse distúrbio já não é fácil para mim, que sou mãe de um gato, imagino como seja com a mãe de uma criança/adolescente/adulto assim diagnosticado. Claro que, diferentemente das mães de humanos, tive eu mesma que chegar ao diagnóstico, pois veterinários não costumam ser especialistas nesse assunto.

Ainda que seja visivelmente albino, confesso que assim não o identificava, acreditando que era apenas um gato branco. Pode parecer estranho, mas são coisas absolutamente distintas, já que no caso do meu albininho, jamais se encontrará entre seus pêlos nenhum resquício de qualquer outra cor que não o extremo branco – salvo quando longos períodos longe do banho. Aliás, quando volta da Pet, costuma reluzir como metal, tamanha a brancura de sua pelagem.

Além disso, sua pele – embaixo dessa infinidade de pêlos que se espalham (e grudam) por todos os móveis, roupas, nariz etc. – é inteira rosada, diferentemente dos demais gatos (não albinos), que costuma ser branca/bege.

Pois então, sua albinez (está correto?) foi descoberta juntamente com a confirmação de sua surdez: comum gatos persas albinos serem surdos. É certo que, no início, quando chegou em casa, o fato de minha bolinha de pêlos ser surda – e assim não identificado de plano – levou-me a confundir tal característica com o autismo: ignorava completamente meus chamados. Porém, após a confirmação da deficiência pela veterinária e isolado esse fato dos seus demais comportamentos, meu diagnóstico de autismo perdurava.

Claro que, com base nos meus parcos (quase inexistentes) conhecimentos sobre o autismo, acredito que a surdez do meu filhote deve ter grande influência em seu distúrbio, principalmente se considerarmos que os gatos têm a audição como um de seus grandes sentidos e a falta dele os torna receosos para com o que os cerca.

Para que vocês possam entender melhor o distúrbio do meu Nietzsche (este seu nome) e concordar (ou não) com meu dignóstico, utilizo-me de informações extraídas do site da Associação de Amigos do Autista (AMA), comparando-as com as atitudes da minha bolinha de pêlos (sublinhei as partes que, na espécie, se aplicam):

Atualmente, embora o Autismo seja bem mais conhecido, tendo inclusive sido tema de vários filmes de sucesso, ele ainda surpreende pela diversidade de características que pode apresentar e pelo fato de na maioria das vezes a criança autista ter uma aparência totalmente normal. O Autismo é uma síndrome definida por alterações presentes desde idades muito precoces, tipicamente antes dos três anos de idade, e que se caracteriza sempre por desvios qualitativos na comunicação, na interação social e no usa da imaginação. É comum pais relatarem que a criança passou por um período de normalidade anteriormente à manifestação dos sintomas. Quando as crianças com autismo crescem, desenvolvem suas habilidades sociais em extensão variada. Alguns indivíduos permanecem indiferentes, não entendendo muito bem o que se passa na vida social. Eles se comportam como se as outras pessoas não existissem, rejeitam o contato físico, olham através de você como se você não estivesse lá e não reagem a alguém que fale com eles ou os chame pelo nome [claro que a surdez do meu bichano acentua, e muito, essa característica]. Freqüentemente suas faces mostram muito pouco de suas emoções, exceto se estiverem muito bravos ou agitados. São indiferentes ou têm medo de seus colegas e usam as pessoas como utensílios para obter alguma coisa que queiram. Outros indivíduos tornam-se extremamente passivos, mas amigáveis se a interação é iniciada por outra pessoa. Permanecem estranhamente distantes e desinteressados no que ocorre ao seu redor, outros, ainda, são do tipo esquisito, excêntrico, que se aproxima e interagem com as pessoas de forma inadequada, tocando-as, interrompendo-as e agindo de forma dissonante do contexto. Pessoas com esse distúrbio possuem dificuldades qualitativas na comunicação, interação social, e a imaginação (a chamada tríade), e consequentemente apresentam problemas comportamentais. Muita vezes o simples fato de querer ir ao banheiro e não conseguir comunicar a ninguém pode ocasionar problemas como auto-agressão ou agressão aos outros.

Gatos, assim como crianças, precisam de rotinas. Mas o Nietzsche tem essa necessidade elevada à décima potência. Enquanto os gatos normais têm dificuldade com mudanças, ele sofre demasiadamente com isso. E, considerando as inúmeras mudanças que ocorreram no último ano, mais a guarda compartilhada – sim, separei-me do pai do Nietzsche, mas, como pais responsáveis e preocupados que somos, optamos pela guarda compartilhada como melhor alternativa, a fim de não privá-lo do convívivo com nenhum dos dois -, até que ele reagiu bem a esta última mudança de apartamento.

Esteve com o pai durante uma semana, facilitando meu trabalho com o encaixota e desencaixota, sendo que voltou para a minha guarda quando já no apartamento novo. Dessa vez, ao menos, poupo-me dos gritos enlouquecidos – na mudança para o apartamento anterior, gritou três dias consecutivos, como se alguém o estivesse maltratando, até acostumar com o novo ambiente – e, com a tela devidamente instalada na sacada, ainda não me presentou com suas fugas.

Sou uma Felícia reconhecida e talvez por isso ainda consiga manter um certo diálogo com o meu filhote – ou daí decorra seu autismo cada vez mais acentuado, rs que, (1) não olha nos olhos das pessoas, (2) não consegue receber carinho por mais de 30 segundos, (3) precisa dormir isolado e escondido, (4) tem sua rotina extremamente definida.

Quanto à rotina, aprendi com o tempo como devem preparar seus esconderijos para dormir, como devo proceder para conseguir escová-lo, como devo apresentá-lo aos visitantes e, principalmente, como deve ser servida sua comida.

Hoje pela manhã, ao observar que o Nietzsche não estava se alimentando direito – salvo de Whiskas Sachê, que deve ter algum componente viciante, com toda certeza – tentei de todas as formas fazê-lo comer, mudando os potes de lugar, sacodindo-os em sua frente, carregando-o até a comida umas três vezes. Até que lembrei que ele precisa ver a comida ser colocada no pote, senão não come. Posso colocar um único grão, mas sem isso ele se nega a comer. E pronto: foi colocar a comida no pote, na frente dele, que correu para comer tudo o que não estava comendo nos últimos dois dias.

O Nietzsche é especial e, por mais que dê muito trabalho as vezes – principalmente quando resolve gritar -, traz-me muitas alegrias, além de me preparar para todos os percalços que uma mãe de humano irá encarar.

Sei que o autismo do meu gato não se equipara ao autismo humano, mas, assim como muitas mães, aprendi que há várias formas de interação e diálogo e que o amor pode ser expressado de várias maneiras, até mesmo por um autista aparentemente alheio às pessoas a sua volta, como com uma meia tentativa de encostar o nariz gelado no meu ou um olho no olho denão mais do que 3 segundos.

Respondendo aquela pergunta da propaganda da rede de supermercados: O que me faz feliz são esses pequenos momentos!

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11 responses to this post.

  1. Ai que lindo, Mi. Quero conhecer o teu autista albininho! Podias trazer ele pro gabinete um dia, hahaha.

    Ahhh, esquecesse de dizer que mãe de passarinho também é mãe! hahaha

    Beijos!!

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    • Hahahaha. A galinha foi usada no exemplo para abarcar todas as aves,

      Não fosse ele tão autista, juro que trazia visitar o gabinete. Mas o desespero dele seria tamanho que nem segurá-lo eu conseguiria, rs.

      Beijos

      Responder

  2. Mi: Vai ter gente dizendo que gato é assim mesmo. Gente que nunca teve gato, claro. O Nietzsche é mesmo autista. Eu que tive e tenho vários gatos posso dizer que o comportamento dele é beeeem diferente. O desespero dele – por coisas q pra nós parecem nada – é bem parecido com o desespero do filho autista de uma amiga minha. Ele pode ser um gato especial, mas é muuuuuuuuuuito lindo.

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    • Que bom: uma testemunha para convalidar meu diagnóstico.
      E a senhorita, como mãe de gatos, é uma ótima autoridade para me respaldar no assunto, rs.
      Tenho para mim que se o Nietzsche não fosse autista, seria um gato insuportável… Assim, como é, já é amado e idolatrado por todos. Imagina se fosse um “lambedor compulsivo” como é a Dubbel?
      Já teria perdido esse gato para um ladrão apaixonado, hahahaha

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  3. Posted by André Moraes on 20 de maio de 2011 at 20:33

    Puxa!

    Fiquei curioso para ver um gatinho autista. Pelo que descreveu, percebi que ele é realmente bastante diferente. Pelo menos do meu.

    O que acho interessante nos gatos é que cada um tem sua personalidade própria. Principalmente o Nietzsche.

    Lindo texto, linda foto. E lindo gato, claro.

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    • Ele é uma graça, André! Mas no pacote vem todas essas característica do autismo, principalmente a dificuldade de interação com estranhos!
      Alem disso, mesmo comigo, que ele parece gostar muito, dificilmente há um “olho no olho”! Ele parece olhar através de mim…
      Mas, comi disse para a Juliana, no comentário acima, se ele não fosse assim, ia ser um absurdo de fofo, correndo eu o risco de ter meu gato furtado por um dos apaixonados, rs
      Abracão!

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  4. Posted by Ana Paula on 28 de junho de 2011 at 13:32

    Olá td bem??
    Nem acreditei qndo lí seu texto, me identifiquei muito.. achei que as manias de meu gato (tb surdo) fossem exclusivamente dele, rsrs. Enfrento o mesmo problema com os mios altos, a necessidade de colocar ração á frente de seus olhos, só recebe carinho qndo quer etc etc… muito bom seu texto…
    Abraçosss

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    • Pois é, Ana Paula. Não está sozinha no mundo.
      Mas, apesar dos pesares, esses bichanos nos trazem muitas alegrias, não é?
      Estou até aperfeiçoando minha linguagem dos sinais gatina, hehehehe.

      Obrigada pela visita

      Responder

  5. […] que você não seja um(a) apaixonado(a) por felinos como eu, vale muito a pena ir até o Cinemark curtir essa […]

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  6. Olá, Bom dia de mãe aspie de autista humano ( adorei isso, posso usar? rsrrs).
    Não temos mais gatos hoje, mas a parte autista da família ( eu e meu caçula) adoramos gatos e a parte não autista (marido e filha) prefere os cães.
    Preferimos gatos a cães pelo fato deles não serem sedentos de atenção, não ultrapassam os limites do nosso espaço pessoal, não assustam ( são pequenos), não são barulhentos (não latem), são fofos ( no sentido macio), não lambem ( no sentido baba)… rsrrs
    Dizem que autistas não tem características físicas como definição da sindrome, mas eu acredito ( e acho que vc tb vai concordar), que são LINDOS, FOFOS, APAIXONANTES… srsrsr. Amei seu gato AAA (AutistaAlbinoApaixonante).

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