Archive for the ‘Divagações’ Category

Expectativas, crises e minha ausência por aqui

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Faz tanto tempo que não apareço por aqui. E não são os assuntos que me faltam – esse nosso mundão não permite tal afirmação – ou a falta do que dizer – produzo textos diários de mais de cinco páginas [A4 (para elucidar a dimensão, hahahha)]. Acredito que seja culpa de meu cansaço com as indignações.
Ok, essa última frase ficou meio estranha, mas o que eu quis dizer é que estou em uma fase de “preguiça de manifestar minha indignação”. Não que eu não as tenha – pelo contrário, pois ultimamente são muitas-; mas me falta ânimo para o debate, para as discussões, para o enfrentamento.
Eu sou assim. Tenho dessas crises. Sou movida pela paixão, mas nem sempre ela está direcionada para as mesmas coisas. No momento, está em sua fase mais egoísta, direcionada a outro ser, o que me afastou da paixão pelo debate, mas também não significa que sejam excludentes.
Bem, quando começo a falar de muitos assuntos e alongar demais minhas frases é sinal de que “coisa grande” vem pela frente (na argumentação, na indignação etc.). Mas não será neste post que elas serão expostas.
É que não apenas minha paixão está em uma fase egoísta. Meus dilemas e insatisfações também. São tantas as questões pessoais que perpaçam minha mente neste instante, que optei por abandonar a retórica dos demais temas. O trabalho já me garante grau suficiente de debate das grandes (ou não) questões, direcionado, então, todo o resto de minhas forças ao meu umbigo e os limites que o cercam.
Acabou que em tantos parágrafos eu não disse nada com nada – ao menos para aqueles que não estão bem próximos a mim neste momento -, obrigando-os a ler um texto aparentemente desconexo e absolutamente pessoal.
Para não encerrar como se nada tivesse dito – apesar da prolixidade que sempre me acompanha -, esclareço que o intuito inicial, ao fazer um post nesse horário da madrugada, era cuspir as bolas de pêlos que trancam minha garganta neste momento. Parcialmente o fiz.
E destacar que, apesar de eu sempre proferir frases de efeito no estilo “vá sempre com as expectativas baixas, pois mais fácil as boas surpresas”, não consigo seguir meus próprios conselhos e acabo, invariavelmente, decepcionando-me com as pessoas, por esperar mais delas, ou então, crer mais nelas do que elas próprias.
Como eu disse hoje no Twitter, pessoas te elogiando vão haver de monte ao longo da vida, mas poucas serão as que realmente irão te defender/ajudar nos momentos de crises.
Muito embora lá (Twitter) a afirmação tenha tido uma conotação voltada ao âmbito profissional, aqui eu a amplio para todas as outras áreas da vida.
Encerro finalmente salientando que a vida é muito curta (e frágil) para você se dar ao luxo de afastar as pessoas que realmente são importantes. E que pedir perdão não o torna fraco, mas sim forte, por mais estranho que isso possa parecer.

PS: texto confuso, meio desabafo, meio tristeza, meio #mimimi e diretamente do IPhone, pois o sono anda brigando com meus pensamentos e me deixa nesse estado meio indeciso entre o cansaço e a insônia.

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“…se existe um preconceito muito forte separando você de mim…”

Não ando com muita disposição para atualizar o blog, como disse no post anterior, mas ontem um guest post no site da Lola me encorajou a tratar de um tema que já havia pensando em abordar na semana passada: sofrer preconceitos torna a pessoa menos preconceituosa?

Sou usuária do twitter, como todos sabem. Em meu primeiro post neste blog destaquei que uma das razões que me levaram a criá-lo [o blog] decorria das limitações dos 140 caracteres que aquela rede social me impunha. Gosto da discussão, do debate – coisas bem distintas do brigar – e sou uma eterna defensora da ampla defesa (princípio fundamental previsto art. 5°, LV, da CRFB), a qual entendo deva ser aplicada em todos os ramos da vida, não apenas aos processos judiciais e administrativos.

Por essa razão, ao ouvir falar de uma garota, formada em Direito – isso é importante, sim, apesar de não parecer -, que possuía um perfil interessante no twitter (nome e avatar falsos, aliás), decidi lhe dar uma chance de defesa. (Aliás, nem tentem procurar em meus contatos para descobrir de quem estou falando: não sigo a garota e creio que ninguém dos que sigo faça o mesmo).

Que fique bem claro: óbvio que ela não estava me pedindo uma chance para absolutamente nada, até porque desconhecia completamente minha existência e, muito provavelmente, pouca importância daria para minhas impressões sobre ela. Mas como os comentários foram fortes, decidi que deveria verificar o porquê de tantos olhares tortos em sua direção e definições machistas para sua aparente liberdade sexual. Sim, porque seu twitter é recheado de frases nesse estilo: quero transar, alguém está a fim?

Óbvio que ao saber que se tratava de uma bacharel em Direito compreendi imediatamente uma das razões para o avatar e o nome falsos: sei bem o quão conservadores e machistas são os juristas que definem quem entra ou não em um concurso como o do Ministério Público ou da Magistratura. E não vamos longe, já que alguns escritórios de Advocacia têm a repugnável mania de julgar os profissionais a partir dessas premissas.

Mas é o que sempre penso quando encontro algum olhar enviasado no meu trabalho: não é minha roupa, ou meu cabelo, ou meu óculos, ou minha tatuagem, que dirá a profissional que sou ou a qualidade dos textos que produzo.

Voltando à garota, pela descrição que recebi daqueles que a conhecem pessoalmente, foi assim resumida: gorda, feia, vulgar, promíscua, doida, carente, mal resolvida etc. etc. etc.

A garota, portanto, estava sendo vilipendiada porque, aparentemente: 1) sente-se bem no peso em que se encontra, ainda que acima dos padrões considerados normais; 2) está fora dos padrões de beleza, até porque encontra-se acima do peso e esse simples fato, ainda que isolado, é mais do que suficiente para defini-la como feia; 3) fala o que pensa sobre sexo, não se importa com o que vão pensar, demonstra que gosta de sexo e sente falta disso, não tem problema em ter encontros simplesmente sexuais, ou seja, igual a MUITOS homens por aí, sem que a mesma pecha, contudo, lhes seja imposta; 4) não pode gostar do modo como age, devendo fazê-lo para chamar a atenção ou porque, no fundo, não é bem resolvida com seu peso, beleza, sexualidade etc.

Não conheço a garota pessoalmente, mas, de qualquer modo, peso e beleza são fatores tão subjetivos e particulares que pouco importa se eu realmente a achasse feia ou gorda, já que meus parâmetros estéticos não devem ser utilizados como regras para determinar o que é certo ou errado nesses assuntos. Porém, seja ela ou não mal resolvida ou uma carente buscando atenção – mais, faça ela tudo o que afirma fazer (ou quer fazer), já que pode ser apenas uma personagem que criou para se divertir no twitter -, a grande questão de fundo é que nenhum desses adjetivos seria usado fosse um homem a assim agir.

E, por favor, não tentem me convencer do contrário. Só para dar um exemplo raso, mulher galinha difere muito de homem galinha, principalmente se considerarmos que este será digno de respeito e inveja entre os amigos, no mais das vezes.

Ainda que a obesidade masculina também seja um problema e mal vista por muitos, um pequeno sobrepeso (acima do que é considerado normal) é facilmente aceito e raramente questionado, admitido até, algumas vezes, como charme. O mesmo não se pode falar das mulheres, já que qualquer quilograma além do ideal é visto como necessidade imperiosa de se começar uma dieta.

Nem vou começar a tecer comentários sobre mulher expressar que gosta de sexo, pois creio que os crescidinhos que passam aqui pelo blog tem o mínimo conhecimento, ao menos, sobre o assunto e os preconceitos que o rondam.

Discussões à parte, portanto, quanto aos preconceitos que recaem sobre a garota – já que cada tema daria uma tese enorme -, o que me desapontou foi perceber a quantidade desses mesmos preconceitos que ela carrega. Pior que isso, que propaga. Afinal, carregar todos carregamos, sem excessão. Mas proferi-los sem repensar seu significado é, sim, o grande problema.

Temos a mania de achar que as pessoas que sofrem preconceitos não serão preconceituosas. Segue-se a lógica de que, se você sofre por conta de alguma coisa, tende a ser solidário com aqueles que são afligidos pelo mesmo mal. Infelizmente não é assim. Mas a mim, ao menos, essa situação parece pior: ou a pessoa nutre o mesmo preconceito de que é alvo, já que tomada pelas pressões externas a ponto de assumir como seu um preconceito originariamente direcionado contra si, ou não é capaz de perceber as semelhanças entre o que sofre e o que pratica. E esse segunda opção é ainda mais temerosa.

Quando falo que sou feminista, digo isso com a certeza de que não defendo unicamente a igualdade de respeito aos homens e mulheres, mas também a todos aqueles alvos de preconceitos, seja pela cor de sua pele, seja por sua opção sexual, seja pela religião que abraçou ou a ausência de uma, seja pelo que entendeu ser o melhor para a sua vida. Se não sou capaz de enxergar os preconceitos como um amontado de coisas que fazem parte de um núcleo de intolerância, como posso perceber/compreender que a minha individualiade está sendo alvo de ojerizas? Melhor, como lutar contra os preconceitos que sofro se os propago (ainda que sob outro enfoque) contra os que me cercam?

Eu garanti a ela seu direito fundamental à ampla defesa. Quando será que ela permitirá o mesmo àqueles que julga com as mesmas pedras que lhe são atiradas?

 

 

PS: O título deste post é um trecho da música Preconceito, interpretada por Cazuza e composta por Fernando Lobo e Antonio Maria.

“…Quero, quero, quero e não adianta negar. Senão você já sabe: começo a chorar…”

Estávamos no meu carro. Ele bem atrás de mim, no banco traseiro, sem ver bem meu rosto, mais ouvindo com plenitude minha voz. Sua mãe – minha tia – havia sido deixada em casa há cinco minutos e nos dirigiámos à casa dos avós em comum. Eu com 29, ele com 10, mas pela conversa ele transparecia mais idade e eu menos. Uma lombada, duas lombadas e, finalmente, minha lambada:

– Você sabe que amo sua mãe como se minha fosse, não é? Que ela está passando por um tratamento complicado em razão do câncer, não é? Que câncer é uma doença séria, que leva muitas pessoas à morte, não é? Que muitos médicos dizem que o câncer pode surgir por problemas pessoais pelos quais a pessoa está passando, como incomodoções, estresse e brigas, não é?

– …

– Você sabe o quanto incomoda sua mãe e o quanto a leva à loucura? Que aquilo que você disse minutos atrás – “você é a pior mãe do mundo; eu preferia não ter mãe” -, quando ela sentenciou que você não podia comer no Mac Donalds, magoou-a profundamente? Que no estado médico em que ela se encontra, isso – não ter mãe – pode ocorrer muito fácil e muito em breve?

– …

– Pois bem. Então eu vou te falar isso uma única vez, pois não sou de repetir: Se você continuar sendo esse menino mimado e terrível com a sua mãe e ela piorar, o mínimo que for, eu venho de Florianópolis até aqui só para te “socar a pau”. E ninguém vai me impedir de fazê-lo, pois tua mãe me conhece muito bem e sabe que cumpro o que falo. Você entendeu tudo o que eu disse?

– …

– Eu não estou ouvindo sua resposta.

– …sim…

– Você vai contar tudo o que conversamos aqui para sua mãe ou nossos avós?

– …

– Não ouvi sua resposta e, caso você não saiba qual deva ser ela, eu te digo: é NÃO!

– …

– Repete alto para mim.

– …não…

– Então desce do carro agora e engole esse choro. Se nossos avós ficarem preocupados contigo por conta disso, eu quebro você a pau também!

Choro compulsivo e manha por cerca de uma hora. Meu olhar fulminante e uma conversa no canto do quintal dos nossos avós, com pequenas ameaças. Mais choro manhoso. O pai buscando o filho  que ligou desesperado e, depois, um telefonema deste, dizendo que, muito embora tenha contrariado uma ordem da mãe dele, dada no dia anterior, ela o havia autorizado a tanto quando chegou em casa e, por isso, eu não precisava me preocupar.

Os acontecimentos e o diálogo foram mais ou menos assim. Talvez eu tenha sido um pouco pior nas ameaças, além de ter omitido partes interessantes da conversa. De qualquer modo, essa sou eu, dando uma de criança em uma tentativa – provavelmente frustrada – de melhorar minimamente o comportamento de uma criança absurdamente mimada.

Se ele contou a minha tia o que houve? Com certeza! O que eu fiz a respeito? Antecipei-me a sua delação e contei minha versão aos nossos avós, para que fosse cuidadosamente repassada a minha tia e garantisse a ele a pecha de mentiroso (coisa que o é, tornando mais convincente meu álibi).

O certo é que não estou pronta para ser mãe (preciso mudar minhas técnicas de interação infantil), assim como minha tia – que amo demais – nunca esteve pronta para controlar os mimos do filho.

Afinal, a quem podemos culpar crianças – e adultos – mimados senão os pais. Na espécie, principalmente o pai, com uma boa dose de ajuda da mãe e do avô materno. A criança, ainda que insuportável em diversos momentos, nunca aprendeu a ser diferente. Mas, quando adulto, podemos continuar escusando-o de suas atitudes sob o argumento de que foi criado assim e não sabe ser diferente?

Para mim isso é cômodo demais e permite, no mais das vezes, que todo e qualquer comportamento possa ser justificado com base em questões que transcendem a esfera de liberdade do sujeito. Mas será isso mesmo?

House já diria sua clássica frase das primeiras temporadas do seriado: People don’t change. Mas nem o seriado, muito menos o personagem, conseguiram mantê-la íntegra e verdadeira por muito tempo. As pessoas mudam, sim. E nem sempre é preciso grandes acontecimentos para que tal ocorra.

Não acredito que privar as crianças de pequenos mimos ou colocá-las em situação de extrema competição, com não’s contínuos, – já que será isso que encontrarão no futuro – seja o correto. Mas crianças precisam de limites, até para seu próprio bem. Uma criança mimada pode – e provavelmente irá – se tornar um adulto mimado, continuando a receber os mimos e cuidados familiares por toda sua vida, mas isso não significa que os sim’s serão as palavras vindas dos que o cercam.

O não dos outros, nunca ou pouco ouvido quando no núcleo de proteção dos mimos, pode desestruturar um adulto. Já vi isso algumas vezes, em pessoas muito próximas a mim. As fez mudar? Algumas sim – com dificuldade e momentos de extremo sofrimento -, outras não. Muitas talvez precisem perder por completo aquele núcleo de proteção, já que ele pode ser sempre um refúgio dos problemas (e não’s) que aparecerem.

Há as que serão os mimados tudo podem, passando por cima dos outros com seu ar de superioridade e o apoio incondicional de seus mimadores. Assim como há os que serão os mimados medrosos, que não aguentam ouvir os não’s que a vida lhes reserva, trancando-se, então, em seus mundinhos e evitando relações com o desconhecido.

No caso de meu priminho, bem como em tantos outros que presenciei, a escusa para os mimos e permissões aos choros, manhas, xingamentos e bater de pés deve-se ao fato de ser considerado doente – hiperatividade -, sendo, inclusive, tratado com medicamentos. E estes têm resolvido o problema? Por certo que não, já que ainda não há remédio para falta de limites e de educação.

Nessa mesma linha há os que serão assim tratados até a vida adulta: doentes, sensíveis, que precisam ser cuidados pelos que os cercam, já que não podem fazer nada sozinhos, como tomar decisões ou quebrar a cara. Tudo será amenizado pelos mimadores de plantão, afastando todo e qualquer perigo de sofrimento advindos dos não’s da vida. E, na vida adulta, os medicamentos são muito mais aceitos e providenciais.

Infelizmente a maioria precisará de algumas lambadas – talvez até com ameças, como aquelas que infligi ao meu priminho – e secar sozinha seus choros manhosos, sem afagos na cabeça e palavras de consolo, para que perceba que o mundo não gira em torno de seu umbigo, muito menos na hora e modo que deseja. Também, que o não pode ser bom, até um aprendizado, sendo possível ouví-lo sem o acompanhamento de um diazepam. Afinal, todos ouvimos e seguimos em frente.

Eu provavelmente não mudei as atitudes do meu priminho por mais de 24 horas. Talvez 48, com muita sorte. Mas tenho certeza de que ele sempre lembrará das coisas que ouviu, bem como sempre me restará o poder de telefonar e refrescar-lhe a memória sobre nosso acordo. Tenho o direito de fazê-lo? Provavelmente não. Mas temo pelo que o espera se demorar para mudar suas atitudes.

 

PS: O título do post é um trecho da música Criança Mimada, da Mara Maravilha.

Um Ano Novo em que as pessoas se joguem mais de cabeça…

2011 está aí: quase podemos tocá-lo com as mãos. Como não poderia deixar de ser, esse final de ano vem arraigado dos famosos clichês de repensar a vida, renovar os planos, mudar o que é necessário e, finalmente, fazer as promessas para o Ano Novo.

Creio não ser a única com uma lista enorme de promessas, que se acumulam ano após ano e que me fazem repensar se devo, mais uma vez, aumentar esse catálogo que já não parece mais ter fim.

Assim como nos aniversários – provavelmente com a mesma intensidade -, essa é a época em que as pessoas comumente refletem sobre seus erros e acertos, sobre suas vitórias e suas conquistas, principalmente sobre o futuro, que parece chegar cada vez mais rápido, indo de encontro às leis da física de espaço e tempo, mas coadunando-se perfeitamente com a famosa teoria da relatividade. Época, igualmente, de se pensar sobre o quanto nos resta de vida e se teremos tempo de cumprir ao menos parte daquela lista imensa de promessas acumuladas.

Deparei-me hoje com um texto da Carla Rodrigues, em que ela trata sobre o medo da morte, o passar do tempo e algumas questões femininas e feministas, sendo este trecho que me levou a atualizar o blog e falar sobre Ano Novo, muito embora eu tivesse me prometido que não o faria:

Tenho defendido com alguma veemência e convicção que a maneira como se encara o medo da morte define em grande medida a maneira de viver… e define muitas das nossas decisões na vida adulta, marcada indelevelmente pelo medo de morrer.

Quando se é criança, a morte e o morrer não são assuntos que te preocupam ou sequer cogitáveis, salvo claro, se a vida te colocar diante uma fatalidade que te obrigue a entender o assunto ainda com tenra idade. Com 3 anos perdi meu padrinho, praticamente um segundo pai (até mais presente no cotidiano que o meu, visto as viagens constantes em razão do trabalho), mas sua ausência me foi passada como uma viagem, igual àquelas que já estava acostumada com meu pai, sendo anos depois, apenas, a constatação do que era a morte e o morrer. Mesmo assim isso não fazia parte do meu imaginário como algo real e possível. A bem da verdade, nem sei precisar quando esse fato inexorável tornou-se real para mim.

É bem provável que, como salientado no texto da Carla Rodrigues, acima transcrito, isso tenha passado a interferir em minha vida, em minhas escolhas, quando já integrante da vida adulta. A partir de então as escolhas parecem ter sido influenciadas pelo futuro e pelas consequências nele do no agora, (de)limitando cada passo dado. O exato momento em que isso ocorreu? Não sei. Apenas tenho conhecimento de que os pulos agoras viraram passos e cada vez mais curtos. Ficou difícil me jogar de cabeça…

Estamos na Era da Velocidade, da informação em tempo real, das coisas sempre para ontem, da busca pela perfeição e do trabalho máximo no tempo mínimo. Um passo errado e você pode ficar para trás, não conseguindo mais alcançar seus concorrentes. Tudo precisa ser muito bem pensado, pois a vida passa e, quando você vê, não fez nada e não tem mais tempo de fazê-las.

Será mesmo?

Quem criou essa lei que define tempos certos e estanques para as coisas acontecerem ou serem realizadas? Quem definiu, como verdade universal, o momento em que estarei preparada para isso ou aquilo, bem como o momento em que devo parar de praticá-las ou tentá-las? Quem assinou esse contrato por mim, se não passei procuração a ninguém para tanto? Quem pode definir até quando e quantas vezes estou autorizada a cair e a levantar? O que a minha idade diz sobre mim e o quanto eu devo aceitar que ela me limite para qualquer coisa?

Essas pressões todas sofridas e os medos que carregamos daí decorrentes acabam por, em certo grau, auxiliar no aumento da lista de promessas de Ano Novo, seja pelos receios de pôr algumas em prática, pois poderiam atrapalhar as demais ou estarem fora do tempo devido, seja pela exigência de que tudo deve ser feito o mais rápido possível, acumulando afazeres.

Mas a vida é feita só de obrigações e afazeres? Onde está a diversão, o carpe diem, o poder fazer o que bem entender e quando bem o pretender, sem dar explicações a ninguém?

Por isso, nesse novo ano que se inicia, minha única promessa de réveillon – e também um desejo – será: conseguir abstrair as pressões externas que me (de)limitam e (re)aprender a me jogar de cabeça nas coisas realmente importantes, independentemente do tempo, da idade ou do modelo que me impuseram como adequados.

E se você achar que não é mais capaz de alguma coisa, que o tempo passou para determinada conquista ou que o risco de se jogar de cabeça é alto demais, saiba que a queda nem sempre é ruim e que tudo fica mais fácil quando você tem alguém para te apoiar, seja essa pessoa quem for, ou até mesmo para pular contigo e mostrar que os limites estão aí para serem ultrapassados.

Um Feliz Ano Novo a todos! Que a morte e o morrer continuem influenciando nossa vida adulta, já que parece impossível afastar tal influência. Contudo, que não seja de forma repressora ou limitadora e sim como fato inexorável que é, mas dando o tempo – que não sabemos qual é – necessário para estarmos sempre (re)començado tudo.

Boas promessas a vocês!

 

PS: esse post iniciou-se com a idéia extraída do texto da Carla Rodrigues e fluiu a partir das fotos selecionadas previamente para compô-lo, fruto de um Natal em que vi inúmeras crianças, das mais variadas idades, mostrando-me que se jogar de cabeça é assustador, mas extremamente encantador, e que as limitações que acreditamos carregar podem ser facilmente superadas.

O que você vai experimentar de novo hoje?

Desde que tive a insana ideia de namorar um cozinheiro e estudante de gastronomia que adora inventar pratos novos e rechear-me de surpresas, uma enorme quantidade de quilogramas foram adicionados – não tão homegeneamente como, ao menos, eu esperava – ao meu corpinho, levando-me a pequenos ataques cardíacos a cada visita à balança da farmácia.

Não sou nem nunca fui alucinada com peso, gordurinhas ou congêneres, mas a preocupação aumenta quando percebo que as roupas  – principalmente as calças jeans – não querem mais fechar ou estão mais justas do que o costume. Trocar o guarda-roupa, novamente, não está em meus planos financeiros para esse final/início de ano. Não posso continuar nessa gangorra frenética de perder 5 kg em dois meses, ganhando esses e mais 7 kg nos oito meses seguintes.

Quilogramas e gostosuras gordurinhas à parte, o que pude perceber é que essas novas incursões gastronômicas me trouxeram um mundo de novidades, conhecimentos e experiências outrora ignorados, obrigando-me (no bom significado do termo) a encarar receitas que fazem muitos virarem a cara com nojo.

A última aventura gastronômica ocorreu no dia 07 de dezembro. E o termo aventura aqui empregado não se trata de exagero: fui a dois jantares, com direito, ambos, a canapés, entradas, pratos(s) principal(is) e sobremesa. Tive a (in)felicidade de ser convidada a esses dois eventos inescusáveis, a ocorrerem na mesma data, sendo o primeiro o encerramento do curso do namorado e o segundo um jantar do trabalho (convite do chefe). E não podia deixar de comer – ao menos experimentar – um pouco de cada uma das receitas servidas, ainda que mais por gulosisse do que por educação.

Confesso que o segundo evento não trouxe grandes inovações ao meu paladar, salvo por um sofioti de perdiz (2° prato principal), cujo nome é mais complexo que seu conteúdo, sendo o perdiz a grande novidade apresentada: as mais variadas carnes, brancas e vermelhas, já pude experimentar nesses meus 29 anos, mas perdiz era uma das ainda desconhecidas (ao menos não me recordo de tê-la provado em outra oportunidade).

A grande inovação da noite ficou mesmo por conta do evento organizado pelo namorado e seus colegas de faculdade, como trabalho de final de curso. Ali, ousados e atrevidos cozinheiros presentearam seus convidados com entradas regadas a camarões, pimentas, abacates, peixes crudus, palmitos, tomates e espumas (sim, espuma, como um cuspe a la Ferran Adrià) de coco.

As flores que não apenas enfeitavam, mas também faziam parte dos ingredientes de uma das entradas (confit de carangueijo em jardim de mini flores), bem como as esferas (na minha singela e  grosseira definição, mini bolinhas de gude a la Ferran Adrià) de manga, não foram capazes de me impressionar tanto quanto o ceviche com chips de batata doce e pérolas de aji. Nome bonito para intitular um peixe cozido na acidez no limão ou substância cítrica análoga.

É, a bem da verdade, um peixe cru que – ainda que eu não tenha percebido – passa por um longo processo de cozimento na acidez do limão (ou ingrediante sememelhantemente cítrico). Muito embora seja apreciadora de sashimi, acabei recusando a iguaria após algumas garfadas e tentativas de torná-la mais saborosa com a junção do chips de batata doce (este sim, maravilhoso).

Mas provei e (re)provei novamente, buscando verificar se realmente não estava apreciando a iguaria ou se meu paladar – acostumado com arroz, feijão e ovo frito – é que me trapaceava, antevendo-se a qualquer julgamento isento e prolatando, de imediato, sentença definitiva de mérito: isso é ruim!

Sou da área jurídica, defensora fervorosa e inarredável da garantia ao contraditório e ampla defesa no julgado, sendo por essa razão que me compeli a repetir as garfadas, permitindo à peculiar receita o direito à dúvida, ao menos. Infelizmente, assim como o ar de funcho (outro cuspe a la Ferran Adrià) sobre medalhão de robalo, que roubou meu prazer no apreciar o saboroso peixe, o veredito foi: não gostei.

Tudo bem, acredito eu. Não sou obrigada a gostar, não é? (ainda sou livre para isso, não?) Mas não neguei a tentativa de, ou seja, tentei e insisti na prova, na experimentação. E não fiz isso pelo namorado, que tanto se esforçou na elaboração de um dos pratos e comunicou-me, via sms, qual de sua responsabilidade. Também não o fiz pelo sentimento de justiça que carrego comigo em todas as situações, garantindo, sempre, a máxima do inocente até que se prove o contrário. O fiz porque acredito que devemos, sempre, estar experimentando coisas novas, e isso não se resume ao mundo gastronômico.

Em ambos os eventos em que estive, vi pessoas virando a cara para os pratos servidos sem nem ao menos provar seu conteúdo. Alguns sequer tinham a desculpa do eu não como isso para fundamentar sua recusa. Limitavam-se a dizer que a aparência não era boa e não iriam arriscar a prova. Mas, para mim, nenhuma das duas desculpas é aceitável pela simples razão de que as pessoas mudam e nada é igual sempre.

Sim, você pode bater o pé, espernear, pular três vezes para São Longuinho enquanto entoa o mantra do é de pequenino que se torce o pepino… ou a famosa people don´t change, do Dr. House. Inexorável o fato de que as pessoas mudam, inclusive seus gostos. Afinal, quem nunca viu um (ex) não apreciador de qualquer coisa lambendo aos dedos, agora, quando se depara com um prato repleto da iguaria em questão?

Outro dia li um texto muito bom da Liliane Prata em que aborda essa questão da mudança e do quanto relutamos em aceitá-la. Transcrevo aqui pequeno trecho que resume bem a linha de pensamento dessa escritora/blogueira, com a qual coaduno:

Mania estranha essa das pessoas congelarem as manias das outras pessoas. Outro dia, conversando com uma velha amiga sobre o assunto qualquer, dei minha opinião. Ela se espantou:

– Como assim? Naquele jantar em 2007, você tinha dito o oposto!
– Pois é… em 2007.

Não adianta: as pessoas podem passar os anos tendo aula de francês, aprendendo a fazer sushi, acampando, substituindo a coleção de latas por moedas antigas… e continuarem achando que, enquanto elas estavam fazendo tudo isso, os outros estavam parados, sempre na mesma – exatamente como da última vez que se encontraram.

Não são só os hábitos mais superficiais dos outros que a gente costuma congelar: aquelas características profundamente arraigadas na psique do ser humano nunca se alteram. Jamais. Pelo menos, para o ex-namorado desse ser humano.

Não pense você que mudar é ruim ou taxe a pessoa de volúvel por tal ocorrer. Apesar da não aceitação inicial e a tendência de sempre se acreditar que as coisas estão piorando –  culpa da nostalgia , que transforma o passado em algo perfeito e imutável, já que tendemos a esquecer das coisas ruins e supervalorizar as boas, mantendo na memoría algo que, nem sempre, reflete a verdade –, acabamos por perceber que a mudança foi (está sendo) boa.

Certo é que não há maneira de você descobrir se realmente gosta de algo – ou não -, se mudou, se está pronto a arriscar novos sabores, conhecimentos e sentimentos senão experimentado-os e (re)experimentando-os a cada momento. Arrisque-se e jogue-se de cabeça nas novas experiências – o que não significa que você precisa abandonar ou esquecer os velhos hábitos que te fazem bem – e dê, sempre que possível, o direito à dúvida a tudo com que se deparar em sua vida. Sua tolerância, aceitação e preconceitos também mudam, felizmente.

Meus quilinhos a mais, apesar da atual luta por extirpá-los desse corpo a que não pertencem, não deixam de ser bem-vindos. Mostram-me o quanto tenho aprendido e permitido-me experimentar, sem medo de arriscar ou parecer volúvel aos olhos daqueles que demoram a acreditar em nossa mudança. Porque essa coisa de essência imutável é lorota de quem tem medo de encarar as coisas a sua volta; medo diante do novo e do desconhecido.

 

PS1: meus posts têm perambulado por ares de auto-ajuda, o que pouco me agrada. Mas não é esse meu intuito, por favor. Não sou dona da verdade e, com toda certeza, estou longe de ser a pessoa certa a dar conselhos no estilo seja feliz por você mesma. Não passam, a bem da verdade, de divagações (como a categoria em que inseridos os intitula) sobre assuntos que surgem por uma ou outra razão.
PS2: sempre começo a escrever com uma idéia na cabeça de como o texto vai se desenrolar, mas, sempre e inevitavelmente, descambo para caminhos e desfeixos outros. Espero melhorar essa falta de foco com o tempo. Como (maior) crítica fervorosa de meu trabalho, nunca estou satisfeita com os resultados. Talvez se conseguisse iniciar e encerrar o texto que me veio à mente, sem os atropelos e modificações contínuos, aceitasse-os com mais facilidade. Vamos tentar (experimentar), não é?

O que faz você feliz?

Estou há dias matutando sobre diversos assuntos que gostaria de abordar aqui no blog, como o dilema pelo qual está passando o Rio de Janeiro com a violência da hora – em todos os sentidos possíveis, desde as atitudes dos traficantes, da polícia e/ou das pessoas que discorrem sobre o tema -, mas não será hoje ainda que os abordarei.

Sei que dentre os intuitos do blog estipulei a possibilidade de discutir mais a fundo questões intrigantes como essa, já que os 140 caracteres do twitter são por demais limitadores. Aliás, não tenho discutido via twitter desde então. Olho para as obcenidades – para mim ignorância, preconceito e intolerância é que são obscenos – e penso: “Ah! Nem vou responder. Outra hora falo sobre no blog”. Já não sei se isso é algo bom ou ruim.

O certo é que o post de hoje continua nas amenidades e é quase uma continuidade daquele da semana passada: As “percas” nossas de cada dia, seguindo a idéia lançada no PS2 daquele texto: sobre a capacidade das pessoas de se subjulgarem e, ao mesmo tempo, supervalorizarem algo – principalmente pessoas e relacionamentos – quando estão diante da possibilidade (ou suposição de) perdê-lo.

O assunto estava cotado para momento posterior e longinquo. Contudo, hoje descobri o blog de uma pessoa que conheci via twitter e o assunto não saiu mais de minha cabeça.

Desculpem-me por não colocar o link do blog aqui ou citar quem seja seu autor, mas prefiro não expô-lo – muito embora eu saiba que ele próprio está se expondo sobremaneira ao criar um blog sobre sua necessidade imperiosa de encontrar alguém para amar (e que o ame em retribuição)  e o daí decorrente casamento dos sonhos.

Que fique bem claro: não sou contra o casamento – muito menos contra o amor e a busca por. O que me assusta é o desespero latente por encontrar, a qualquer custo, a alma gêmea, a metade da laranja, o amor verdadeiro, bem como a capacidade, diante do fracasso naquele, em enaltecer (e até mesmo criar) qualidades no ser que pouco as possuem (quando as possuem), capazes de torná-lo a pessoa da nossa vida, muito embora distante (e muito) de sê-lo.

O blog da citada pessoa presta-se a potencializar sua campanha #pracasar (hashtag que criou e/ou difundiu no twitter), citada ao final dos twettes em que suas características são compartilhadas com seus seguidores, assim como nos xavecos direcionadas a algumas das mais de 2000 pessoas que segue.

Tamanha é a ansiedade por encontrar a pessoa certa, casar e constituir família, que nem mesmos suas características – aparentemente perfeitas e desejáveis em um bom partido – foram suficientes, até o momento, para resultar em um relacionamento. Segundo sua própria definição, é pessoa culto e instruída, com estabilidade e sucesso na profissão, casa própria em breve adquirida, apreciadora de vinhos, amante de boas viagens, romântica, surpreendente, companheira etc. O que mais poderiam lhe exigir? Ocorre que, quando expõe seus sentimentos e ressalta suas melhores características, é recebida com unfollows e blocks no twitter.

Em suas palavras: Não é que pensei ter encontrado a mulher da minha vida e logo quis enviar flores e chocolates? Mandei. As flores chegaram. Foram entregues na faculdade. Ela, surpresa, postou [no twitter]. Dias depois, levei um silencioso “Unfollow”. Para outra, que se disse terminantemente apaixonada por mim, do nada levei um “Block”. Não posso nem xeretar a Timeline da guria agora. Esses são os ônus de quem é muito impulsivo. Mas, na verdade, no primeiro caso, eu somente queria transformar um monte de palavras ditas aos quatro ventos em uma ação concreta. No segundo case, apenas queria marcar um encontro. […]. Cada dia me dou conta que está mais difícil desvendar a alma feminina. Você ama e é terminantemente bloqueado. Você quer dar para ela toda felicidade do mundo e leva um “Unfollow”. Incompreensível para quem quer apenas amar. […]. Eu só quero amar. Agora vocês compreendem a razão de eu seguir duas mil pessoas no Twitter. Afinal, nada mais natural do que utilizar a ferramenta da convergência para fazer o sentimento mais antigo da humanidade fluir.

O rapaz – se você acreditava que se tratava de uma mulher antes de ler o trecho de seu post, perceba o machismo contido em seu pensamento – sequer está namorando ou em vias de, mas já possui dois posts nesse mesmo blog dedicados aos valores (custos) despendidos com um casamento. Então me pergunto: qual o problema com ele? Há realmente um problema? O que o impede de ser feliz? Por que ainda não encontrou ninguém para compartilhar tantos sentimentos guardados? E, o mais importante, por que não consegue ser feliz sozinho?

Não tenho condições de dar essas respostas – até porque, se as tivesse, estaria rica, vendendo soluções aos corações angustiados -, mas alguns indícios apontam para causas como baixa autoestima e, consequente, enaltecimento de características no outro a ponto de torná-lo aquilo que se busca e não compreender o que são. Ouso, igualmente, discordar da música que afirma ser impossível ser feliz sozinho.

Em diversas oportunidades no blog ele acentua que uma ou outra pretendente se mostrou absolutamente apaixonada – estado de espírito de pouquíssimos dias,  frise-se, como ele mesmo reconhece. Nesse pequeno ínterim, contudo, fez uso de todas as suas habilidades e demonstrou todos os seus dotes de bom partido. Mas o que deveria atraí-las parece ter tido justamente o efeito inverso.

Perceba que, a priori, o outro é o apaixonado e o interessado por ele. Logo em seguida, essa situação toda se inverte, passando ele a correr atrás da pessoa e investir todas suas cartadas para garantir a conquista. Mas será que tudo isso seria necessário se a pessoa realmente já estivesse apaixonada? De outro lado, o que torna a pessoa interessante, além do fato de estar apaixonada por ele, a ponto de jogar todas suas táticas (e expectativas) sobre ela, como se o par perfeito fosse?

Tenho para mim que a pessoa que não se ama, que não aprecia sua própria companhia e que não consegue viver sozinha – não digo para todo o sempre, mas por um período, como método imprescindível de autoconhecimento – não será capaz de manter um relacionamento, quiçá fazer parte de um.

Relacionamentos requerem duas (ou mais) pessoas e, quando sua autoestima é subjulgada a ponto de pouco de sua própria personalidade transparecer – quando não aniquilada por completo -, tem-se, então, um dominante e um dominado, com as caraterísticas do primeiro sempre sobressaindo sobre as do segundo. É como aquele história dos cachorros se parecerem com seus donos – bem retratada no filme Comer, Rezar, Amar -, a ponto de não mais se identificar quais peculiaridades lhe são intrínsecas. E quando dois parecem se tornar um só, deixa de haver relacionamento – atitudes recíprocas – e passa a existir qualquer coisa monolateral.

A baixa autoestima cria um clico vicioso em que a pessoa se refugia nas características, na personalidade, do outro e sufoca suas próprias a ponto de, um dia, não mais se reconhecer como outro, como indivíduo. Gera, ao mesmo tempo, a necessidade imperiosa da presença do dominante, ante o risco de se perder as qualidades e características que garantem sua existência, embora, muitas vezes, nada tenhamde suas, posto que emprestadas – quando não impostas por um dominante – do outro.

Por fim, a baixa autoestima enaltece o outro à categoria de imprescindível e, como forma de se convencer disso, a pessoa aumenta – quando não cria – qualidades ímpares para aquele objeto de desejo, tentando convencer o próprio cérebro de que aquilo tudo é o que lhe faz tão bem, que permite que seja feliz. Mas como pode ser isso que o faz feliz, se é, justamente, aquilo que te oprime, aniquila sua personalidade e destrói o pouco de autoestima que ainda lhe resta?

Quando o término do relacionamento é inevitável – ou o desejo incontrolável de que um se inicie, como ocorre com o rapaz do blog – a junção desses fatores todos com a impossibilidade de encarar a si próprio como realmente é – de (re)conhecer o que o torna um indivíduo, o que forma sua personalidade e não um arremedo disso ou um parasita da personalidade alheia – acabam por criar uma falsa imagem do outro.

O medo da solidão, de nunca encontrar a pessoa certa, são potencializados, diariamente, pelas mais variadas mídias, destacando que você somente pode ser feliz quando ao lado de alguém – que não é qualquer pessoa, mas a metade da laranja -, devendo a busca por tal ser sua meta de vida. Mas como encontrar esse relacionamento perfeito e imprescindível para a própria existência se não aprendida a lição do conviver consigo mesmo?

Como ter um relacionamento antes de se (re)descobrir e de realmente saber o que forma sua personalidade e o que faz você feliz?

PS: a pessoa contida na terceira foto deste post nada tem a ver com seu conteúdo. Trata-se de uma grande amiga, totalmente resolvida nas mais variadas áreas de sua vida, que me permitiu fotografá-la em um ensaio intitulado [des]construindo.
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