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“Telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor”

Hoje postei no twitter uma referência ao documentário Ilha das Flores, de Jorge Furtado, datado de dezembro de 1988. Se você ainda não o viu – o que acredito ser bem improvável, já que bastante famoso -, recomendo que o faça.

Minha referência não dizia respeito à crítica social do vídeo. Apenas aproveitei a frase de lá tirada, que dá título a esse post ,para questionar se realmente todos os humanos podem ser definidos como detentores de telencéfalos altamente desenvolvidos, muito embora o polegar opositor seja, sim, um padrão.

Claro que esse questionamento não passa de uma brincadeira, pois realmente não creio que parcela dos humanos seja desprovida de telencéfalo altamente desenvolvido. Do contrário seriam galinhas, ou vegetais. O certo é que questionava apenas a capacidade de alguns de não aproveitarem todo o potencial desse telencéfalo altamente desenvolvido, nem que fosse para lavar a pilha de louça que se acumula na cozinha e parar de cuidar da vida alheia.

Ultimamente, aliás, falta pilha de louça para tanta vida cuidada.

update da frase, sugerido pelo amigo Telli: “telencéfalo com diferentes graus de desenvolvimento e polegar opositor”.

Voltando ao filme, eis o texto completo para os que se interessarem (inclusive sempre atual). Mas não deixem de (re)vê-lo:

Estamos em Belém Novo, município de Porto Alegre, Estado do Rio
Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, mais precisamente na
latidude 30 graus, 2 minutos e 15 segundos Sul e longitude 51
graus, 13 minutos e 13 segundos Oeste. Caminhamos neste momento
numa plantação de tomates e podemos ver a frente, em pé, um ser
humano, no caso, um japonês.

Os japoneses se distinguem dos demais seres humanos pelo formato
dos olhos, por seus cabelos lisos e por seus nomes
característicos. O japonês em questão chama-se Toshiro.

Os seres humanos são animais mamíferos, bípedes, que se
distinguem dos outros mamíferos, como a baleia, ou bípedes, como
a galinha principalmente por duas características: o telencéfalo
altamente desenvolvido e o polegar opositor. O telencéfalo
altamente desenvolvido permite aos seres humanos armazenar
informações, relacioná-las, processá-las e entendê-las. O polegar
opositor permite aos seres humanos o movimento de pinça dos dedos
o que, por sua vez, permite a manipulação de precisão.

O telencéfalo altamente desenvolvido somado a capacidade de fazer
o movimento de pinça com os dedos deu ao ser humano a
possibilidade de realizar um sem número de melhoramentos em seu
planeta, entre eles, plantar tomates.

O tomate, ao contrário da baleia, da galinha, dos japoneses e dos
demais seres humanos, é um vegetal. Fruto do tomateiro, o tomate
passou a ser cultivado pelas suas qualidades alimentícias a
partir de 1800. O planeta Terra produz cerca de 28 bilhões de
toneladas de tomates por ano.

O senhor Toshiro, apesar de trabalhar cerca de 12 horas por dia,
é responsável por uma parte muito pequena desta produção. A
utilidade principal do tomate é a alimentação dos seres humanos.
O senhor Toshiro é um japonês e, portanto, um ser humano. No
entanto, o senhor Toshiro não planta os tomates com o intuito de
comê-los. Quase todos os tomates produzidos pelo senhor Thoshiro
são entregues a um supermercado em troca de dinheiro.

O dinheiro foi criado provavelmente por iniciativa de Giges, rei
da Lídia, grande reino da Asia Menor, no século VII Antes de
Cristo. Cristo era um judeu.

Os judeus possuem o telencéfalo altamente desenvolvido e o
polegar opositor. São, portanto, seres humanos.

Até a criação do dinheiro, o sistema econômico vigente era o de
troca direta. A dificuldade de se avaliar a quantidade de tomates
equivalentes a uma galinha e os problemas de uma troca direta de
galinhas por baleias foram os motivadores principais da criação
do dinheiro. A partir do século III A.C. qualquer ação ou objeto
produzido pelos seres humanos, frutos da conjugação de esforços
do telencéfalo altamente desenvolvido com o polegar opositor,
assim como todas as coisas vivas ou não vivas sobre e sob a
terra, tomates, galinhas e baleias, podem ser trocadas por
dinheiro.

Para facilitar a troca de tomates por dinheiro, os seres humanos
criaram os supermercados.

Dona Anete é um bípede, mamífero, possui o telencéfalo altamente
desenvolvido e o polegar opositor. é, portanto, um ser humano.
Não sabemos se ela é judia, mas temos quase certeza que ela não é
japonesa. Ela veio a este supermercado para, entre outras coisas,
trocar seu dinheiro por tomates. Dona Anete obteve seu dinheiro
em troca do trabalho que realiza. Ela utiliza seu telencéfalo
altamente desenvolvido e seu polegar opositor para trocar
perfumes por dinheiro.

Perfumes são líquidos normalmente extraídos das flores que dão
aos seres humanos um cheiro mais agradável que o natural. Dona
Anete não extrai o perfume das flores. Ela troca, com uma
fábrica, uma quantidade determinada de dinheiro por perfumes.
Feito isso, dona Anete caminha de casa em casa trocando os
perfumes por uma quantidade um pouco maior de dinheiro. A
diferença entre estas duas quantidades chama-se lucro. O lucro de
Dona Anete é pequeno se comparado ao lucro da fábrica, mas é o
suficiente para ser trocado por 1 k de tomate e 2 k de carne, no
caso, de porco.

O porco é um mamífero, como os seres humanos e as baleias, porém
quadrúpede. Serve de alimento aos japoneses e aos demais seres
humanos, com exceção dos judeus.

Os alimentos que Dona Anete trocou pelo dinheiro que trocou por
perfumes extraídos das flores, serão totalmente consumidos por
sua família num período de sete dias. Um dia é o intervalo de
tempo que o planeta terra leva para girar completamente sobre o
seu próprio eixo. Meio dia é a hora do almoço. A família é a
comunidade formada por um homem e uma mulher, unidos por laço
matrimonial, e pelos filhos nascidos deste casamento.

Alguns tomates que o senhor Toshiro trocou por dinheiro com o
supermercado e que foram trocados novamente pelo dinheiro que
dona Anete obteve como lucro na troca dos perfumes extraídos das
flores foram transformados em molho para a carne de porco. Um
destes tomates, que segundo o julgamento altamente subjetivo de
dona Anete, não tinha condições de virar molho, foi colocado no
lixo.

Lixo é tudo aquilo que é produzido pelos seres humanos, numa
conjugação de esforços do telencéfalo altamente desenvolvido com
o polegar opositor, e que, segundo o julgamento de um determinado
ser humano, num momento determinado, não tem condições de virar
molho. Uma cidade como Porto Alegre, habitada por mais de um
milhão de seres humanos, produz cerca de 500 toneladas de lixo
por dia.

O lixo atrai todos os tipos de germes e bactérias que, por sua
vez, causam doenças. As doenças prejudicam seriamente o bom
funcionamento dos seres humanos. Além disso, o lixo tem aspecto e
aroma extremamente desagradáveis. Por tudo isso, ele é levado na
sua totalidade para um único lugar, bem longe, onde possa,
livremente, sujar, cheirar mal e atrair doenças.

O lixo é levado para estes lugares por caminhões. Os caminhões
são veículos de carga providos de rodas. Quando da realização
deste documentário, em 1989, os caminhões eram dirigidos por
seres humanos.

Em Porto Alegre, um dos lugares escolhido para que o lixo cheire
mal e atraia doenças foi a Ilha das Flores.

Ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados. A
água é uma substância inodora, insípida e incolor formada,
teoricamente, por duas moléculas de hidrogênio e uma molécula de
oxigênio. Flores são os órgãos de reprodução das plantas,
geralmente odoríferas e de cores vivas. De flores odoríferas são
extraídos perfumes, como os que do Anete trocou pelo dinheiro que
trocou por tomates.

Há poucas flores na Ilha das Flores. Há, no entanto, muito lixo
e, no meio dele, o tomate que dona Anete julgou inadequado para o
molho da carne de porco. Há também muitos porcos na ilha.

O tomate que dona Anete julgou inadequado para o porco que iria
servir de alimento para sua família pode vir a ser um excelente
alimento para o porco e sua família, no julgamento do porco. Cabe
lembrar que dona Anete tem o telencéfalo altamente desenvolvido
enquanto o porco não tem nem mesmo um polegar, que dirá opositor.

O porco tem, no entanto, um dono. O dono do porco é um ser
humano, com telencéfalo altamente desenvolvido, polegar opositor
e dinheiro. O dono do porco trocou uma pequena parte do seu
dinheiro por um terreno na Ilha das Flores, tornando-se assim,
dono do terreno. Terreno é uma porção de terra que tem um dono e
uma cerca. Este terreno, onde o lixo é depositado, foi cercado
para que os porcos não pudessem sair e para que outros seres
humanos não pudessem entrar, o que faria do dono do porco um
ex-dono de porco.

Os empregados do dono do porco separam no lixo aquilo que é de
origem orgânica daquilo que não é de origem orgânica. De origem
orgânica é tudo aquilo que um dia esteve vivo, na forma animal ou
vegetal. Tomates, galinhas, porcos, flores e papel são de origem
orgânica.

O papel é um material produzido a partir da celulose. São
necessários 300 quilos de madeira para produzir 60 quilos de
celulose. A madeira é o material do qual são compostas as
árvores. As árvores são seres vivos. O papel é industrializado
principalmente na forma de folhas, que servem para escrever ou
embrulhar. Este papel, por exemplo, foi utilizado para elaboração
de uma prova de História da Escola de Segundo Grau Nossa Senhora
das Dores e aplicado à aluna Ana Luiza Nunes, um ser humano.

Uma prova de História é um teste da capacidade do telencéfalo de
um ser humano de recordar dados referentes ao estudo da História,
por exemplo: quem foi Mem de Sá? Quais eram as capitanias
hereditárias? A História é a narração metódica dos fatos
ocorridos na vida dos seres humanos. Recordar é viver.

Os materiais de origem orgânica, como os tomates e as provas de
história, são dados aos porcos como alimento. Durante este
processo, algumas mulheres e crianças esperam no lado de fora da
cerca na Ilha das Flores. Aquilo que os porcos julgarem
inadequados para a sua alimentação, será utilizado na alimentação
destas mulheres e crianças.

Estas mulheres e crianças são seres humanos, com telencéfalo
altamente desenvolvido, polegar opositor e nenhum dinheiro. Elas
não têm dono e, o que é pior, são muitas. Por serem muitas, elas
são organizadas pelos empregados do dono do porco em grupos de
dez e têm a permissão de passar para o lado de dentro da cerca.
Do lado de dentro da cerca elas podem pegar para si todos os
alimentos que os empregados do dono do porco julgaram inadequados
para o porco.

Os empregados do dono do porco estipularam que cada grupo de dez
seres humanos tem cinco minutos para permanecer do lado de dentro
da cerca recolhendo materiais de origem orgânica, como restos de
galinha, tomates e provas de história. Cinco minutos são 300
segundos. Desde 1958, o segundo foi definido como sendo o
equivalente 9 bilhões, 192 milhões, 631 mil 770 mais ou menos 20
ciclos de radiação de um átomo de césio quando não perturbado por
campos exteriores. O césio é um material não orgânico encontrado
no lixo em Goiânia.

O procedimento dos seres humanos que recolhem materiais orgânicos
no lado de dentro da cerca da Ilha das Flores é semelhante apenas
em objetivo ao procedimento de Dona Anete no supermercado. No
supermercado Dona Anete troca o dinheiro que trocou por perfumes
extraídos das flores pelo material orgânico; na Ilha das Flores
os seres humanos não têm dinheiro algum; no supermercado dona
Anete tem o tempo que julgar necessário para apanhar materiais
orgânicos mas não há provas de história disponíveis.

(A partir deste momento a câmera se fixa exclusivamente nas
mulheres e crianças no meio do lixo)

O que coloca os seres humanos da Ilha das Flores numa posição
posterior aos porcos na prioridade de escolha de materiais
orgânicos é o fato de não terem dinheiro nem dono. Os humanos se
diferenciam dos outros animais pelo telencéfalo altamente
desenvolvido, pelo polegar opositor e por serem livres. Livre é o
estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o
sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém
que não entenda.

FIM

PS: texto extraído daqui.

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Minhas mães e meu pai… uma família normal.

Foto: Divulgação

Não sei se conseguirei encerrar minha maratona de obras indicadas ao Oscar de melhor filme – absolutamente ignorei A Rede Social e nem sei quando (e se) irei assisti-lo – e talvez não tenha sido uma boa escolha preterir Bravura Indômita em favor de Minhas Mães e Meu Pai, já que este não é favorito em nenhuma das categorias em que concorre (melhor filme, melhor atriz – Annette Bening -, melhor ator coadjuvante – Mark Ruffalo – e melhor roteiro original). Mas trata-se de um bom filme e, apesar do tema batido e clichê – família, traições etc. -, a ótica homossexual dá um novo ar sobre o assunto.

Chega a ser uma afronta falar sobre novos ares no cinema, enquanto as famílias formadas por casais homossexuais estão aí há muito tempo. Mas é um assunto recente no que se refere ao mundo do cinema e creio que, justamente por isso, a escolha de um tema tão clichê tenha sido tão adequada: mostrar que os casais gays, assim como quaisquer outros, passam pelos mesmos dilemas decorrentes de um casamento.

Ao assistir o filme, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a campanha americana a seguir, que tinha como intuito mostrar que casais homossexuais são iguais a quaisquer outros casais, com os mesmos problemas e as mesmas partes boas:

A família do filme é formada pelas mães, Nic (Anette Benning) e Jules (Julianne Moore), e seus dois filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), frutos de gestações – cada uma é mãe biológica de um dos filhos – de um mesmo doador de esperma, Paul (Mark Ruffalo). Nic e Jules tem um relacionamento estável e longo, sendo que a filha Joni, mais velha, acabou de completar 18 anos. Seu irmão, Laser, como ainda menor de idade, lhe pede que entre em contato com a clínica de doação de esperma em que foram concebidos, para que esta possibilite o contato com pai biológico de ambos (teoricamente isso é possível no estado em que vivem nos EUA). Paul, que não imaginava que seu sêmem havia sido utilizado – ainda mais duas vezes -, aceita encontrá-los, sem saber muito bem o que isso pode significar.

Como não poderia deixar de ser, o primeiro contato entre eles é de absoluto estranhamento, pois o fato de Paul ser pai biológico daqueles dois adolescentes não o torna integrante da família. No primeiro encontro, Laser, que estava mais interessado em conhecer o pai do que a irmã, tenta encontrar características em comum com Paul, esprando que com ele tivesse alguma conexão, o que acaba frustrando-o, principalmente porque a irmã parece já ter desenvolvido uma afinidade maior com o pai, nos poucos minutos de contato. O que era para ser omitido das mães, como forma de não magoá-las, acaba sendo descoberto e os medos e inseguranças daí decorrentes começam a deslanchar.

Nick – que visilmente assumiu o papel de homem da casa (no que se refere à família patriarcal burguesa), sendo a provedora, a que dá a última palavra e a que prefere a esposa em casa cuidando dos filhos – não aceita a presença de Paul no cotidiano de seus filhos, tendo-o como um invasor e potencial ladrão de sua família, piorando, com isso, seus atritos familiares. A pergunta que ela faz a Nick resume claramente o que se passa na cabeça de todas as famílias (ainda que monoparentais) que adotam: Não somos suficientes? Ou seja, por que razão noss@(s) filh@(s) querem conhecer (e conviver) com aquele que unicamente lhe emprestou o espermatozóide (óvulo)?

 

Foto: Divulgação

Os problemas de relacionamento com Jules também são potencializados, culminando com esta última tendo um caso com Paul (não se trata de spoiler, pois o próprio trailer do filme traz essa informação, ok?) e tudo tornando-se ainda mais confuso para todos.

Uma importante frase de Joni, direcionada a Paul, é: eu só queria que você tivesse sido melhor. Demonstra que, apesar da aparente relação familiar entre Joni, Laser e Paul, e o medo de Nick de ele roube sua família, esta o exclui de sua formação, sendo Paul o mero amigo, do qual se exige muito mais, já que a capacidade de perdoar é sempre maior quando o amor familiar une as pessoas – e os laços biológicos pouca diferença fazem aqui.

Quanto ao caso de Jules com Paul, muitas foram as críticas d@s homossexuais, já que um dos poucos casais gays retratados no cinema acaba, justamente, confirmando o estereótipo de que o que falta para um lésbica é um bom pau (desculpem-me o termo, mas no geral a frase é bem mais ofensiva). Concordo com a crítica e acredito que a traição poderia ser retratada de outra forma.

Contudo, o filme melhora a situação nas cenas em que Jules é categórica quanto ao seu homossexualismo ou, então, quando ambas (Nick e Jules)  têm que explicar a Laser a razão de assistirem filmes pornôs com homossexuais masculinos (assistam, vale muito a pena).

Foto: Divulgação

O que fica bem claro no filme é que a traição de Jules não está ligada a Paul por nenhuma razão, salvo o fato de ele a ter elogiado justamente na área que a companheira Nick menos lhe dar valor – profissionalmente – e no momento em que ambas estão em crise no casamento, passando por aquela fase em que o casal não mais se enxerga em suas particularidades e necessidades. O filme mostra que quando um casal realmente se ama, mas esquece da conexão que os une, a traição passa a ser um válvula de escape para as frustrações, evitando-se, com isso, os embates, o diálogo ou, até mesmo, a separação.

Por favor, não estou aqui defendendo a traição como modo de melhorar um relacionamento. Mas nem por isso podemos ignorar o fato de que, em algumas situações, este será o fato que oportunizará ao casal repensar suas atitudes e superar seus problemas, evitando uma fatídica e óbvia separação. Por certo que o diálogo surtiria o mesmo esfeito e com muito menos consequências.

C0m Anette Benning disputando o Oscar de melhor atriz com Natalie Portman, fica difícil acreditar (até torcer) por sua vitória, o que não afasta o brilhantismo de sua atuação, bem como de Julianne Moore – da qual não sou muito fã -, convencendo no papel de homossexual, o que nem sempre é fácil em se tratando de heterossexuais.

Um bom filme, que me fez rir e chorar. Ouso coloco-o na frente de 127 Horas, mas não de Discurso do Rei, ainda que muito pequena a margem de diferença de suas pontuações. Lado a lado, contudo, com O Vencedor.

O complicado do Oscar é ter em uma mesma categoria concorrentes tão distintos, com temas tão diversos, dificultando a escolha de um melhor quando se tem assuntos tão antagônicos em foco, obrigando a serem avaliados como se semelhantes fossem.

O Vencedor… e uma família histérica!

Foto: Divulgação

Perdoem-me os estudiosos de Freud e de sua teoria sobre a histeria, mas a primeira idéia que me veio a mente ao ver o indicado ao Oscar na categoria de melhor filme, O Vencedor, foi: essa é uma família tipicamente histérica (com traços conversivos e dissociativos).

Não sou entusiasta dos filmes de boxe – muito embora tenha gostado de O Lutador e da comédia romântica O amor não tem regras, que também tratam do assunto -, mas posso dizer que O Vencedor é um bom filme, com bom enredo e ótima atuação de Christian Bale, que provavelmente lhe renderá a estatueta na categoria melhor ator coadjuvante.

Aliás, este é justamente um daqueles filmes em que o coadjuvante rouba as cenas, deixando o ator principal em absoluto segundo plano. Não se poderia esperar muito coisa, também, de Mark Wahlberg – desculpem-me os fãs do ator, mas, em todos os filmes que assisti com ele, suas atuações são as mesmas, sendo o peso corporal o único fator a ser alterado -, ainda que o personagem fosse um lutador incapaz de se impôr (até mesmo nas lutas).

Sendo uma história baseada em fatos reais, ao final aparecem os dois verdadeiros irmãos (Mickey Ward e Dicky Eklund, representandos por Mark e Bale respectivamente) e, ao contrário de Mark – que parece ter interpretado personagem diverso do real -, todas as caracterizações de Bale no filme correspondem àquele que lhe deu origem. O ator, inclusive, deve ter perdido mais peso do que a Natalie Portman, no Cisne Negro, pois seu rosto apresentam profundas cavidades.

Quanto ao enredo do filme, trata-se da história dos irmãos Dicky e Mickey, sendo aquele mais velho que este. Ambos são lutadores de boxe, mas apenas o primeiro havia entrado no circuito profissional, ficando famoso por nacautear o lutador Sugar Ray Leonard – interpretado por ele mesmo -, muito embora tal [nocaute] só tenha ocorrido porque este escorregou no ringue.

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A família – formada por uma mãe controladora e absolutamente histérica (Alice Ward, representada por Melissa Leo), um pai dominado e sem pulso firme para se impôr nas relações doentias que nutrem a família (George Ward, interpretado por Jack McGee), as sete irmãs – que mais parecem caricaturas de mulheres, com comportamentos que quase ultrapassam os limites da histeria, e os dois irmãos, amigos inseparáveis – volta toda sua atenção para o irmão mais velho, Dicky, tendo-o como um herói que, em breve, irá retornar aos ringues, ao passam que ignoram – fingem desconhecer – o estrago que o crack provocou em sua vida.

Afora o pai George – que embora tenha um trabalho, pouco se sabe a seu respeito -, toda a família sobrevive às custas de Mickey e suas lutas, as quais, em razão dos treinos sempre atrasados por culpa de Dicky (treinador de Mickey), são regadas a muito sangue e repetidas perdas. As lutas são de Mickey, mas, eventuais vitórias são atribuídas a Dicky, que ensinou tudo o que o irmão sabe.

Após uma luta com um homem 10 kg mais pesado e uma proposta de trabalhar em Las Vegas, recebendo para treinar, Mickey acaba balançado com a idéia e incentivado pela namorada Charlene Fleming (Amy Adams), o que é visto pela família – salvo o pai George, mas que nem voz tem para defender a escolha do filho – como uma traição. O discurso materno (Alice), sempre regado a muitas ameaças e chantagens, e do irmão são sempre regados em muita defesa da família, muito embora Dicky esqueça dessa quando usa crack e Alice pouco se importe com o risco de morte do filho em lutar com alguém de categoria maior que a dele. Mickey, por outro lado, deve sacrificar-se, já que se não lutar, ninguém receberá o pagamento ajustado.

 

Foto: Divulgação

O filme mostra a impossibilidade de fuga de Mickey de toda essa situação, – até porque proveniente de uma família de classe baixa e poucas opções a título de emprego lhe são possíveis, o que é comum, senão a regra, dentre lutadores de boxe -, arcando com sérias consequências na tentativa de obedecer os desmandes da mãe e salvar o irmão Dicky das encrencas que sempre inserido. A evidente histeria materna é (re)passada aos filhos, em maior ou menor grau.

Mesmo quando Mickey afasta-se da família, ajudado e/ou obrigado a isso pela namorada e seu novo treinador, precisa deles para lutar, recorrendo ao irmão quando diante de uma luta importante. Ainda que a família seja a desgraça de Mickey, essa mesma é imprescindível em suas vitórias. É como a droga sobre seu usuário: ainda que acabe com sua potencialidade, garante-lhe, ao revés, a força necessária para determinadas atitudes.

O estilo de luta de Mickey é um reflexo de sua personalidade: apanha e recua, apenas defendendo-se dos golpes que recebe, enquanto prensado contra as cordas; ao final, quando ambos os lutadores exaustos, parte para o ataque com poucos golpes, mas certeiros, vencendo a luta quando ninguém mais acreditava que fosse conseguir, ante a surpresa de sua reação.

O filme trabalha com tais metáforas do início ao fim, com as correlações entre a família histérica, as drogas e o boxe. Mais uma história de superação e hipervalorização da família, ainda que os reais problemas não tenham desaparecido, mas escamoteados pelas vitórias no ringue. É a histeria materializada, ao final, com o título de campeão mundial, como se ali todos os problemas desaparecessem e a família passasse a ser normal – seja lá o que isso queria significar.

Um bom enredo, com toda certeza, mas que está longe de merecer o Oscar de melhor filme, muito embora Bale concorra em pé de igualdade, ao meu ver, com Geofrey Rush, em O Discurso do Rei, pelo prêmio de  melhor ator coadjuvante.

 

PS: havia me esquecido que Toy Story 3, além de melhor animação, concorria na categoria de melhor filme. Minha dúvida, portanto, aumentou quanto ao (meu) favorito, estando entre ele, Cisne Negro e a A Origem (ainda que este com mais ressalvas).

127 Horas… de dor.

Foto: Divulgação

Retornei para minha maratona de filmes concorrentes ao Oscar de melhor filme e resolvi fazê-lo pelo 127 Horas. Talvez meu lado masoquista tenha eleito este em detrimento de Bravura Indônita ou Minhas mães e Meu pai, já que o namorado preferia o primeiro e as críticas ao segundo estão  muito boas.

Para mim era tão notório que o Aron (James Franco) tinha o braço cortado – já que o filme é baseado na história real de Aron Ralston – que nem percebi que estava soltando spoilers aos amigos do twitter que não viram o filme. O que repeti neste post, neste exato momento.

Segundo o Wikipedia:

A cena no início do filme onde Aron mostra uma piscina escondida numa caverna a duas garotas não existiu de fato — ele mostrou a elas apenas alguns movimentos básicos de escalada. Fora esta cena, Aron Ralston afirmou que o filme “é tão factualmente verdadeiro que é o mais próximo que se poderia chegar de um documentário real.” O diretor Danny Boyle, inclusive, gravou as cenas no mesmo exato local onde elas ocorreram, e a câmera de vídeo usada pelo protagonista é a câmera real de Aron.

A cena da amputação foi um trabalho de maquiagem realizado pelo maquiador Tony Gardner e sua equipe da Alterian, Inc., e contou com a ajuda de profissionais médicos, porque Boyle queria a cena o mais realista e detalhista possível. A cena foi gravada em uma única tomada com múltiplas câmeras.

Se tivesse que definir o filme em três palavras, estas seriam: tédio, angústia e dor. Principalmente dor.

Ainda que alguns tenham criticado o filme por fazer de tudo para que o espectador veja o filme sem sentir o tempo passar, sendo bem-sucedido na tarefa. Mas qual o sentido de fazer isso justamente com uma história sobre o peso do tempo?, mesmo as cenas pretendendo a atenção do público à tela, não há como não se sentir mal com a longa espera para que aquela situação se resolva. Ainda que as 127 Horas de Aron tenham sido reduzidas para pouco mais de 1 hora de imagens ao público, não há como não sentir a angústia de uma espera que parece não ter fim.

Foto: Divulgação

Logo no início do filme Aron cai na fenda de um cânion isolado no Parque Nacional de Utah, transcorrendo todo o resto do filme naquele lugar – salvo pequenas inserções de memórias e alucinações que o inserem em outro cenário. Mas afora o desconforto de estar preso e as dificuldasdes daí decorrentes – como dormir, a escassez de comida e bebida, o frio -, Aron não agoniza de dor. Pelo contrário, quando sua maõ fica presa sob a pedra – fatídica pedra – ele não demonstra grandes expressões de dor. Aliás, suas lágrimas serão reservadas para os momentos de lembrança da família e entes queridos.

Grande parte do filme é destinada as suas tentativas (frustradas) de soltar-se da pedra e a angústia de não consegui-lo transparece mais em Aron do que a dor que eventualmente pudesse estar sentido. Por certo que a dor do esmagamento acaba sendo amenizada com o tempo, mas e a cãimbra e demais consequências por estar tantas horas em uma mesma posição?

De qualquer modo, não se pode negar que James Franco está maravilhosamente bem no papel, digno, com certeza, de um Oscar de melhor ator – o qual acredito que ainda irá para Colin Firth, pelo Discurso do Rei -, dando sede aos telespectadores suas feições e olhares de menino lânguido. A sede, por sinal, é o que mais o perturba.

Deixaram o Direitor Danny Boyle e o ator James Franco as melhores atuações e as piores angústias e dores para o final do filme, na fatídica cena da amputação. Confesso que passei mal durante esses poucos minutos de cena, com uma dor que percorria meu braço, atingia minha garganta e cai seca no estômago, como um soco.

Foto: Divulgação

A expressão de James Franco nesse momento do filme, toda a dor que ele demonstra que uma pessoa poderia sentir quando em situação similar, é digna, por si só, de lhe dar o Oscar de melhor ator. A trilha sonora do momento completam o quadro de dor, acentuando-a. Alerto aos sensíveis, que ainda não viram o filme, que o façam com cuidado. Exageros a parte, há de se ter estômago para tanto.

No mais, ainda que, a priori, fizzesse parte do livro e da história vivenciada por Aron Ralston, não me agradou muito os pensamentos sobre destinoesta pedra esperou por mim a vida inteira – ou as premonições que se concretizaram. Interferências externas superiores em meu livre arbítrio não são bem vindas. Mas provável que muitos se identifiquem com as cenas.

Um bom filme, com toda a certeza, mas bem atrás em minha lista classificatória do Oscar de melhor filme. Ainda mantenho Cisne Negro e A Origem com empate técnico entre os favoritas, seguidos por O Discurso do Rei e, somente então, 127 Horas. Já para melhor ator, essa carinha de menino carente/sapeca do James Franco deixa minha escolha tendenciosa.

“Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago. Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago”

Estou na batalha para assistir os principais filmes do Oscar – indicados ao prêmio de melhor filme -, pois se não o faço nessa época, em que é possível encontrá-los no cinema ou que estão na boca de todos, acabo por perder o momento e me esquecendo de fazê-lo. Cada dia fica mais difícil abrir meus blogs prediletos sem que haja algum spoiler. Não que eu me incomode em saber os finais dos filmes, mas algumas cenas acabam sendo vistas com outros olhos quando sei seu desfechos.

Nem me atrevo a prometer ver aqueles concorrentes a melhor filme estrangeiro, pois, morando em uma cidade que literalmente desconhece filmes que não blockbusters (Florianópolis/SC), sendo impossível encontrá-los mesmo quando liberados para as locadoras, nem mesmo as vias ilegais (internet, torrent etc.) ajudam.

Assisti O Discurso do Rei esta semana, ao lado do namorado e amigos, com a ressalva do colega Gustavo (que comigo trabalha) de que não gostara. Confesso que não havia lido nenhuma crítica sobre o filme e as únicas informações recebidas eram sobre o enredo (do que se tratava). Talvez porque já fui com as expectativas mais baixas – e sempre é mais fácil se surpreender com algo quando suas expectativas a respeito são baixas; assim como, ao revés, a possibilidade de desilução é maior na medida em que crescem as expectativas (mais uma das minhas teorias empíricas não comprovadas por nenhum outro meio) -, gostei do filme e, mesmo não tendo assistido os demais que compõem a categoria, ouso arriscar o Geoffrey Rush (Lionel Logue) para o Oscar de melhor ator coadjuvante.

Embora Colin Firth (Rei George VI) também esteja magnífico no papel, interpretando um gago que, com certeza, agonia todos que assistem ao filme – aquela angústia de querer completar suas frases ou um tapinha nas costas para ver se cospe as palavras como se fossem um caroço de azeitona atravessado na garganta -, não poderia fazer a mesma afirmação quanto ao prêmio de melhor ator. Talvez porque a trama se atenha pouco às reais razões da gagueira do personagem e prefira utilizar-se da comédia para destacar o tratamento para curá-la.

Esse, para mim, o talvez único problema do filme. A história, assim como todos os enredos que envolvem famílias reais, tende a grandes interpretações e permite a discussão aprofundada de diversos assuntos. E não se pode negar que Colin Firth estava preparado para encarar qualquer uma das duas, transparecendo todo o travamento de seu personagem até mesmo nos exercícios de relaxamento que este faz. Mas faltou alguma coisa no enredo para lhe permitir explorar toda sua potencialidade.

As verdadeiras razões pelas quais o Príncipe Albert tornou-se gago – muito embora diga que nasceu gago, Lionel mostra-lhe que isso não é possível, já que a primeira palavra de uma criança nunca será pronunciada de forma gaga -, desde a relação conflituosa com o pai, a amizade/disputa com o irmão mais velho e os abusos de sua babá, quando ainda bebê, são relegadas a segundo plano e surgem de maneira superficial no enredo. Ainda que importantes para seu tratamento e, portanto, abordadas pelo terapeuta Lionel, as técnicas de respiração, de fortalecimento dos músculos, de aquecimento vocal e de liberação de seus travamentos são supervalorizadas, em detrimento daquelas questões maiores que o levaram à gagueira.

O fato mais impressionante para mim – e que (apesar dos dilemas com o pai, as chacotas do irmão, a pressão pelo cargo que ocupa e que virá a ocupar), provavelmente, é o crucial para a gagueira de Albert – é a violência que sofreu nas mãos de sua babá.

xxxxxxx SPOILER xxxxxxx (aos que não assistiram ao filme e não gostam de ter antecipado nenhum fato – ainda que não seja este capaz de estragar a história -, favor pular os próximos parágrafos)

Em um pequeno trecho, enquanto conversava com Lionel e este lhe permitia colar algumas poucas partes das réplicas de um avião que decorava a mesa, Albert confessa que, quando bem jovem, era cuidado por uma babá que o beslicava toda vez que levado à presença de seus pais. Desse modo, ele chorava e era imediatamente devolvido à baba, a qual o trancava em um quarto e lhe privava de comida. Foram longos meses (e perda de muitos quilos) até que os pais percebessem o que ocorria e a mandassem embora. É nessa mesma ocasião em que relata ao terapeuta que adorava aviões, mas sua coleção era de selos, já que o pai os colecionava e obrigava os filhos a tanto.

O filme retrata justamente uma época em que os direitos infantis são relegados – criança não passa de um ser incompleto, sem direito a escolhas, ou melhor, sem direitos -, principalmente no que tange à família real e as atitudes que se exige de cada um de seus membros (quando Albert vira o Rei George VI, suas filhas curvam-se em reverência e não sabem, ao certo, se estão autorizadas a lhe abraçar, como outrora faziam). Porém, passa rasamente pelo assunto, ainda que aí estivessem os grandes dilemas que sustentam sua gagueira e o principal assunto do filme: a impossibilidade (dificuldade) de ler um discurso.

Apesar de serem pequenas as incursões sobre o assunto, o filme mostra que o abuso e a violência contra as crianças, e até mesmo o bullying (o irmão era incentivado pelo pai a debochar de Albert, como tentativa de fazê-lo se curar da gagueira), não são novidades atuais. Exatamente por isso – já que, para mim, não há dúvida de quais razões levararam Albert a ser gago – poderia ter se debruçado com mais zelo sobre tais questões, enriquecendo sobremaneira a história e os personagens.

Talvez, nesse caso, tivesse reais chances de vencer o Oscar de melhor filme. Não digo que não vá ganhá-lo, assim como o de melhor ator e de melhor ator coadjuvante (este, até o momento, eu concordo), já que doze foram as indicações. Contudo, para mim – se tal opinião importasse -, não teria como superar Black Swan naquela categoria.

Um bom filme? Com certeza, com ótimas atuações, ainda que secundárias, como da Helena Bonham Carter (esposa do Tim Burton, para os que não a reconheceram), no papel de Rainha Elizabeth.

Vou, então, voltar a minha maratona de concorrentes ao Oscar de melhor filme e descobrir se Black Swan perderá seu, até o momento, primeiro lugar no meu Oscar particular.

 

PS1: Todas as fotos deste post são de divulgação do filme O Discurso do Rei, por isso a ausência de indicação dos fotógrafos.
PS2: O título deste post é um trecho da música Gago Apaixonado, do Noel Rosa.

“Era perfeita simetria; éramos duas metades iguais. O teu maior defeito talvez seja a perfeição…”

Poster do filme Black Swan

Saí ontem da sala de cinema absurdamente maravilhada com o filme Black Swan: seja pela fotografia, pelo modo como a câmera nos mostra os acontecimentos, a atuação fenomenal da Natalie Portman, o forte apelo sexual do filme, a mãe controladora (e insana) da personagem Nina (Natalie Portman) e a esquizofrenia latente desta última.

Não sei fazer críticas de cinema e nem me atrevo a experimentar esse ofício neste blog, mas posso dizer que o filme me impressionou e que a partir dele me surgiram idéias relacionadas à dominação materna (e dos que cercam a personagem Nina), à fragilidade,  quanto a busca pela perfeição e o medo do erro.

Não quero estragar o filme com spoliers para os que ainda não o assistiram, por isso só falarei de questões que podem ser extraídas do próprio trailer.

Nina é uma mulher sensível, fraca, que não se opõe às domições que a rodeiam, tendo medo de expressar suas opiniões. Sempre que tenta se contrapor a alguma idéia ou atitude que a oprima, recua no primeiro olhar de ameaça.

Sua mãe, uma bailarina frustrada por nunca ter tido um papel de maior importância – tendo que abandonar a carreira em razão da gravidez inesperada de Nina (gente, isso é bem no início do filme, nem estraga nada saber) – coloca na filha as esperanças de uma grande carreira. Para tanto, Nina é cercada de cuidados (mimos) e tratada como criança, sendo privacidade algo que ela pouco conhece. A mãe quem a coloca para dormir, quem a veste e quem – com uma enorme carga metafórica no ato – corta suas unhas. Por outro lado, essa mesma mãe parece não querer o sucesso da filha (talvez por inveja de nunca tê-lo conseguido). Enquanto naquelas características as atitudes da mãe estejam sempre permeadas pelas ameaças e controle absoluto sobre a filha, na segunda (inveja) suas atitudes são de carinho, compaixão e aparente compreensão dos dilemas vividos por Nina.

Para mim, eis aqui a primeira dialética do filme, com as contraposições constantes da relação da mãe com a filha: ameaça x apoiar a carreira; carinho x inveja da carreira. Não é a toa que a personagem Nina demonstra evidentes traços de esquizofrenia, os quais a mãe – ainda que os conheça – tem como manias de criança.

Tudo o que cerca a vida de Nina é a pressão pela perfeição, a disputa entre as colegas de balé e o medo de errar, o qual pode decorrer tanto da falta de treino, como do avançar da idade. Este, aliás, como barreira intransponível: ainda que perfeita a balarina, a idade impõe-lhe o dever da aposentadoria, não sendo admitido pelos demais que a carreira seja mantida. Esse discurso bem me lembra a profissão de modelo, em que a beleza e a perfeição tem prazo de validade curto e estanque, como mofos no pão que impedem seu aproveitamento como um todo.

Toda essa pressão sobre Nina potencializa sua esquizofrenia e faz aflorarem os sentimentos sempre escondidos ou reprimidos, principalmente no que tange a sua sexualidade  – ao que parece, Nina nunca teve um orgasmo ou, se teve, poucos foram (ops, soltei um spolierzinho, sorry). Sua sexualidade, diga-se de passagem, é extremamente reprimida pela mãe, que a infatiliza o tempo todo e lhe nega qualquer possibilidade de privacidade.

Assim como o cisne branco (do Lago dos Cisnes) precisa morrer para ter sua tão almejada liberdade, Nina buscará no cisne negro a sua libertação e, ainda que antagonicamente, sua perfeição (aos que não viram o filme, é um spoiler que não conta muita coisa).

Fazendo um contraponto do filme com experiências pessoais, nada mais atual do que a música do Belchior: ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. A influência dos pais – no caso do filme, apenas a mãe, já que não há referência alguma a um genitor – na formação da personalidade dos filhos, principalmente no modo como encararão os mundo e seus problemas, pode ser desastrosa, como a esquizofrenia de Nina. Impor-se contra essa influência, bem como contra a pressão externa que cerca o sujeito, com exigências das mais variadas formas, requer esforço tamanho equiparável, muitas vezes, a matar sua própria personalidade.

O apelo sexual do filme, com a correlação entre ter um orgasmo e estar leve para fazer o cisne negro, são igualmente vivenciados por muitos: a transgressão das regras, das imposições, das repressões, através da libertação sexual (não necessariamente no sentido de liberdade) e da pulsão sexual – conceito psicanalítico assim definido:

O que Freud está nos colocando é que para lidar com o excesso de estimulação externa o aparelho psíquico possui uma saída motora que é a fuga, contudo para lidar com os estímulos internos pulsionais a coisa se complica para esse mesmo aparelho, pois a pressão constante da pulsão provoca a exigência de uma saída para o excesso de quantidade que circula. Desse modo, as pulsões movem o psiquismo e pressionam o organismo a encontrar saídas viáveis e assim impulsionam a própria vida no interior do aparelho mental e viabilizam a tarefa do sistema nervoso de lidar com os estímulos, de forma rudimentar, livrando-se deles, empurrando-os para fora. Assim, poderíamos observar o ponto de vista fisiológico, inicialmente no modelo típico do arco reflexo (estímulos externos) e depois, num segundo momento, nos caminhos pulsionais (estímulos internos). O ponto de vista fisiológico demonstraria como as pulsões abrem um caminho no interior do aparelho, buscando uma saída para a pressão constante e assim movem esse mesmo aparelho.

E:

Pulsão sexual é uma pulsão interna (endógena + psíquica) que, segundo a psicanálise, atua num campo muito mais vasto do que o das atividades sexuais, no sentido corrente do termo (pênis x vagina), ligadas a um objeto eleito. Nas pulsões sexuais se desenvolvem algumas características específicas, ou seja, o seu objeto não é pré-determinado biologicamente, como no instinto do animal, sendo as suas modalidades de satisfação (metas ou objetivos) variáveis, mais especificamente ligadas ao funcionamento de zonas corporais determinadas (zonas erógenas).

A repressão do sujeito, como um todo, tende a corresponder em uma igual repressão sexual ou, ao revés, levam este a exorcizar seus monstros no sexo, na sexualidade e/ou na sensualidade. Os desejos, as frustrações, as pressões, levam o sujeito a sublimá-los, no mais das vezes, no ato sexual em si.

Talvez a deturpação dos conceitos de Freud, resumidos popularmente em todos os nossos problemas derivam de nossa relação com a mãe e com o sexo não estejam tão errados, ao menos não no filme Black Swan (por favor, isto é uma ironia; não sou reducionista a este ponto).

Uma vez conheci uma pessoa com sérios problemas de infantilização e mimos, como a Nina de Black Swan, cujos pais influenciaram sobremaneira o modo como encarava os desafios que precisava enfrentar e a incapacidade de aceitar os fracassos e erros pessoais e/ou profissionais. Não por acaso confidenciou-me nunca ter tido um orgasmo.

Peço desculpas pelos pequenos spoilers contidos no texto, mas garanto que nenhum deles é capaz de diminuir a graça do filme, recomendando que não o deixem de assistir. O assunto (exigências externas e internas pela perfeição e o medo do fracasso, que levam à loucura) não poderiam ser mais atuais.

 

PS1: o título deste post é um trecho da música Perfeita Simetria, do Engenheiros do Hawaii.
PS2: as fotos que ilustram este post são oficiais de divulgação do filme Black Swan, por isso a ausência de citação de seus autores.
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