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Lápis x Câmera

Sabem aquelas fotos que possuem desenhos para se contrapor à realidade, ou melhor, sabem aquelas fotos em que desenhos são inseridos como se fizessem parte da realidade? Defina como achar melhor.

O que temos aqui é um grupo desse trabalho feito por Ben Heine, artista nascido na Costa do Marfin que atualmente reside e trabalha na Bélgica. Apesar de possuir lindas fotos, percebe-se claramente que apaixão do rapaz é pela edição, das mais variadas.

Eu curti essas do projeto pencil vs camera:

Via Olybop.

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Minha experiência com o autismo

Sim, eu tenho um filho autista, que também é albino e deficiente auditivo. Não, não estou brincando. Mãe de gato (cachorro, galinha etc.) também é mãe.

Muito menos estou zombando das mães de filhos (humanos) que igualmente são autistas. Se esse distúrbio já não é fácil para mim, que sou mãe de um gato, imagino como seja com a mãe de uma criança/adolescente/adulto assim diagnosticado. Claro que, diferentemente das mães de humanos, tive eu mesma que chegar ao diagnóstico, pois veterinários não costumam ser especialistas nesse assunto.

Ainda que seja visivelmente albino, confesso que assim não o identificava, acreditando que era apenas um gato branco. Pode parecer estranho, mas são coisas absolutamente distintas, já que no caso do meu albininho, jamais se encontrará entre seus pêlos nenhum resquício de qualquer outra cor que não o extremo branco – salvo quando longos períodos longe do banho. Aliás, quando volta da Pet, costuma reluzir como metal, tamanha a brancura de sua pelagem.

Além disso, sua pele – embaixo dessa infinidade de pêlos que se espalham (e grudam) por todos os móveis, roupas, nariz etc. – é inteira rosada, diferentemente dos demais gatos (não albinos), que costuma ser branca/bege.

Pois então, sua albinez (está correto?) foi descoberta juntamente com a confirmação de sua surdez: comum gatos persas albinos serem surdos. É certo que, no início, quando chegou em casa, o fato de minha bolinha de pêlos ser surda – e assim não identificado de plano – levou-me a confundir tal característica com o autismo: ignorava completamente meus chamados. Porém, após a confirmação da deficiência pela veterinária e isolado esse fato dos seus demais comportamentos, meu diagnóstico de autismo perdurava.

Claro que, com base nos meus parcos (quase inexistentes) conhecimentos sobre o autismo, acredito que a surdez do meu filhote deve ter grande influência em seu distúrbio, principalmente se considerarmos que os gatos têm a audição como um de seus grandes sentidos e a falta dele os torna receosos para com o que os cerca.

Para que vocês possam entender melhor o distúrbio do meu Nietzsche (este seu nome) e concordar (ou não) com meu dignóstico, utilizo-me de informações extraídas do site da Associação de Amigos do Autista (AMA), comparando-as com as atitudes da minha bolinha de pêlos (sublinhei as partes que, na espécie, se aplicam):

Atualmente, embora o Autismo seja bem mais conhecido, tendo inclusive sido tema de vários filmes de sucesso, ele ainda surpreende pela diversidade de características que pode apresentar e pelo fato de na maioria das vezes a criança autista ter uma aparência totalmente normal. O Autismo é uma síndrome definida por alterações presentes desde idades muito precoces, tipicamente antes dos três anos de idade, e que se caracteriza sempre por desvios qualitativos na comunicação, na interação social e no usa da imaginação. É comum pais relatarem que a criança passou por um período de normalidade anteriormente à manifestação dos sintomas. Quando as crianças com autismo crescem, desenvolvem suas habilidades sociais em extensão variada. Alguns indivíduos permanecem indiferentes, não entendendo muito bem o que se passa na vida social. Eles se comportam como se as outras pessoas não existissem, rejeitam o contato físico, olham através de você como se você não estivesse lá e não reagem a alguém que fale com eles ou os chame pelo nome [claro que a surdez do meu bichano acentua, e muito, essa característica]. Freqüentemente suas faces mostram muito pouco de suas emoções, exceto se estiverem muito bravos ou agitados. São indiferentes ou têm medo de seus colegas e usam as pessoas como utensílios para obter alguma coisa que queiram. Outros indivíduos tornam-se extremamente passivos, mas amigáveis se a interação é iniciada por outra pessoa. Permanecem estranhamente distantes e desinteressados no que ocorre ao seu redor, outros, ainda, são do tipo esquisito, excêntrico, que se aproxima e interagem com as pessoas de forma inadequada, tocando-as, interrompendo-as e agindo de forma dissonante do contexto. Pessoas com esse distúrbio possuem dificuldades qualitativas na comunicação, interação social, e a imaginação (a chamada tríade), e consequentemente apresentam problemas comportamentais. Muita vezes o simples fato de querer ir ao banheiro e não conseguir comunicar a ninguém pode ocasionar problemas como auto-agressão ou agressão aos outros.

Gatos, assim como crianças, precisam de rotinas. Mas o Nietzsche tem essa necessidade elevada à décima potência. Enquanto os gatos normais têm dificuldade com mudanças, ele sofre demasiadamente com isso. E, considerando as inúmeras mudanças que ocorreram no último ano, mais a guarda compartilhada – sim, separei-me do pai do Nietzsche, mas, como pais responsáveis e preocupados que somos, optamos pela guarda compartilhada como melhor alternativa, a fim de não privá-lo do convívivo com nenhum dos dois -, até que ele reagiu bem a esta última mudança de apartamento.

Esteve com o pai durante uma semana, facilitando meu trabalho com o encaixota e desencaixota, sendo que voltou para a minha guarda quando já no apartamento novo. Dessa vez, ao menos, poupo-me dos gritos enlouquecidos – na mudança para o apartamento anterior, gritou três dias consecutivos, como se alguém o estivesse maltratando, até acostumar com o novo ambiente – e, com a tela devidamente instalada na sacada, ainda não me presentou com suas fugas.

Sou uma Felícia reconhecida e talvez por isso ainda consiga manter um certo diálogo com o meu filhote – ou daí decorra seu autismo cada vez mais acentuado, rs que, (1) não olha nos olhos das pessoas, (2) não consegue receber carinho por mais de 30 segundos, (3) precisa dormir isolado e escondido, (4) tem sua rotina extremamente definida.

Quanto à rotina, aprendi com o tempo como devem preparar seus esconderijos para dormir, como devo proceder para conseguir escová-lo, como devo apresentá-lo aos visitantes e, principalmente, como deve ser servida sua comida.

Hoje pela manhã, ao observar que o Nietzsche não estava se alimentando direito – salvo de Whiskas Sachê, que deve ter algum componente viciante, com toda certeza – tentei de todas as formas fazê-lo comer, mudando os potes de lugar, sacodindo-os em sua frente, carregando-o até a comida umas três vezes. Até que lembrei que ele precisa ver a comida ser colocada no pote, senão não come. Posso colocar um único grão, mas sem isso ele se nega a comer. E pronto: foi colocar a comida no pote, na frente dele, que correu para comer tudo o que não estava comendo nos últimos dois dias.

O Nietzsche é especial e, por mais que dê muito trabalho as vezes – principalmente quando resolve gritar -, traz-me muitas alegrias, além de me preparar para todos os percalços que uma mãe de humano irá encarar.

Sei que o autismo do meu gato não se equipara ao autismo humano, mas, assim como muitas mães, aprendi que há várias formas de interação e diálogo e que o amor pode ser expressado de várias maneiras, até mesmo por um autista aparentemente alheio às pessoas a sua volta, como com uma meia tentativa de encostar o nariz gelado no meu ou um olho no olho denão mais do que 3 segundos.

Respondendo aquela pergunta da propaganda da rede de supermercados: O que me faz feliz são esses pequenos momentos!

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